Blog do Mauro Beting

O drible do (Ber)Rio

Mauro Beting

O drible do Berrío não foi de Garrincha. Mas foi do tamanho do Maracanã. Não cabia na Arena Nilton Santos, a Enciclopédia que era lateral como Victor Luís, e que talvez não tomasse o drible que levou. Mas certamente abriria verbete pro drible do ponta que seria substituído por Vinicius Júnior antes de entrar na galeria da galera rubro-negra.

O drible do Berrío não está no registro oficial do jogo em que o Flamengo buscou mais o gol que o Botafogo, mas está na história do clássico. O golaço é de Diego que não vinha bem. Mas vai ficar mesmo na memória a antológica chaleira brasileira do colombiano.

O drible do Berrío você já viu. Mas poucas vezes se vê numa semifinal de Copa do Brasil. O Botafogo tem sido time mais equilibrado mesmo com menos jogador que o Flamengo. Mas o Rubro-Negro tem mais jogador desequilibrante. O que faz o que fez o Berrío.

Nelson Rodrigues dedicaria hipérboles ao lance. Armando Nogueira, uma metáfora mais faceira. Sandro Moreyra bolaria histórias mais criativas que a jogada. João Saldanha lembraria o Mané. Mário Filho do negro no futebol colombiano. José Lins do Rego faria ode ao lance na cidade maravilhosa que o ódio dilacera como se fosse discurso do Lacerda ou desvio do Cabral.

O drible do Berrío é para botar fogo nos textões ferroviários do Rio em Shamas do Anderson França. É do Rio mil graus da correria e da zoação e dos 40 graus da Fernanda Abreu e do Villegagnon da França.

O drible do Berrío é do menino de calção corpo aberto no espaço, da coisa mais linda e cheia de graça, dos arquibaldos de antanho, dos geraldinos que estranho, da poesia concreta e do gigante do cimento amado.

O drible do Berrío não cabe na Ilha do Urubu. Não Volta Redonda. Não é pra cidade planejada de Brasília e para o descalabro do Mané Garrincha que é Arena descabida. É lance pra música de Maraca na ginga de cumbia. É frame que fez fama no Canal 100 de Niemeyer. É inspiração que não tem desenho curvo e turvo do Niemeyer que recrie a apoteose do mestre de futebol de sala colombiano e porta-bandeira da ginga brasileira.

O drible do Berrío já tem lugar no almanaque do Maracanã. Não é pra placa no gramado onde meu pai criou a placa pro gol do Pelé em 1961. Devem ter uns 200 dribles melhores e maiores. Robinho contra o Equador. Romário contra o Uruguai. Uri Geller nos 80. Julinho em 1959. Garrincha pra sempre. Até o Neco do América dos anos 70 driblava e jogava mais na memória afetiva que muitas partidas aflitivas do atacante campeão da América em 2016.

Mas quantos dribles de Berrío vão se guardar como o drible de Berrío na semifinal da Copa do Brasil de 2017?

O Gustavo Roman vai escrever mais e melhor a respeito do jogo. Vai ter um texto só dele no blog. Eu só vou falar de um lance que traz pra mim tudo que tiraram do Rio dos tiros que matam bebês na barriga. Dos policiais que se tiram das ruas mortos por bandidos. Dos bandidos que também são tiras fardados. Dos ladrões que o povo elegeu. Dos fodidos que sobrevivem no caos, na cola, no crack, no escroque, na escalada da esmola da escola.

O drible do Berrío é o resgate de que ainda é possível encontrar quase na linha de fundo a resposta da vitória. Não é do Flamengo. Não seria do Botafogo. É da gente que pode dormir mais feliz porque do nada pode vir tudo.

Paraíso da beleza e do Berrío.