Blog do Mauro Beting

Corinthians foi Corinthians heptacampeão brasileiro

Mauro Beting

(Fotos de Daniel Augusto Jr.)

O Corinthians da virada não havia virado placar em 2017. Começou perdendo com um minuto para o Fluminense.

Recomeçou o segundo tempo empatando aos 55 segundos com o artilheiro Jô. Virou aos 3 com o goleador Jô.

Em 76 segundos, tudo virou Corinthians.

76.

O ano da Invasão do Maracanã contra o mesmo

Fluminense.

76 segundos.

O tempo da Proclamação da República Do Hepta do Timão.

O Corinthians foi Danilo em 2017. Campeoníssimo, história de superação de antologia, e uma lesão que quase o fez perder a perna. Mas não a fé. Ele lutou bravamente contra as limitações, foi se recuperar todo dia sorrindo no CT, e mais uma vez inspirou uma conquista corintianíssima. Não apenas por ser o maior campeão brasileiro deste século. Não só por ser o primeiro a gritar hepta (Palmeiras e Santos ainda não tinham os títulos unificados em 2010 quando venceram pela sétima vez, em 1993, e em 2002). Não apenas por ser o maior vencedor nos pontos corridos, desde 2003. Brasileiro corintianíssimo também porque vencido por um elenco desenganado em um clube com dificuldades financeiras. Quando nem os próprios torcedores davam bola, quem deu as cartas, as caras e saiu mais barato que a encomenda foi o campeão com quatro rodadas de antecedência. Dono da melhor campanha de um turno por pontos corridos. Com um returno horrível como o nível do pior Brasileirão já visto. Mas com um campeão que honra a história de fazer a hora como Corinthians. Campeão.

Corinthians foi Jô. Mais jovem goleador da história do clube há 13 anos. “Velho” com apenas 29 anos, driblou as desconfianças pela carreira pregressa tão vencedora quanto devassa ralando desde outubro do ano passado para não deixar escapar a segunda chance no clube do coração. Com qualidade e gols, trabalho e sorte, cavou espaço, escavou chances, e guiou um ataque tão criticado. Mas poucas vezes tão eficiente nas poucas chances criadas. Letal no clássico do título.

Corinthians foi Cássio. Campeão de quase tudo, perdeu a posição em 2016 e estava se perdendo pelo que falava e falhava. Fechou a boca ao microfone e na mesa. Respondeu pela bola. Fechou a meta, recuperou a posição, ganhou espaço até na Seleção, e calou críticas e calou fundo ao ser o gigante que é nos pênaltis defendidos. Ao ser não só um goleiro grande. Foi um grande alvinegro para defender o time das críticas e das bolas ainda possíveis.

Corinthians foi Balbuena. Zagueiro dos bons, personalidades das fortes, soube tanto defender quanto atacar. Com seriedade bateu continência a cada gol marcado. Com serenidade fez dupla excelente com Pablo. Novela discutível de renovação fora de campo, muitas lesões para superar, mas, lá dentro da cozinha, foi outro que fez a sala de bem estar corintiano desde o Paulista notável. E inesperado.

Corinthians foi Romero. Paraguaio como Balbuena e não como o cavalo que passou e o Timão desmontou. O artilheiro da Arena. O marcador de lateral rival. O cara que ficou meses sem marcar até o primeiro gol no Derby que pintava ser o da virada do rival e foi de mais uma revirada do líder. O Corinthians voltava a depender só dele. Ou muito melhor: de milhões que jogam por ele. Não é o painel “jogai por nós” de Itaquera que vale. É o corintiano que joga melhor que o time limitado que se supera como campeão estadual do torneio onde é o maior. É o fiel que tem fé até quando não acredita e não tinha elenco para tanto. A quarta força paulista que mais uma vez foi a primeira. A ainda menos favorita no BR-17 que foi mais uma vez do Corinthians cada vez mais Paulista e Brasileiro.

Corinthians foi Guilherme Arana, espetacular no turno, decepcionante no returno. Fruto da essência do terrão, talento puro correndo pela lateral como outro da base que voltou para continuar sendo vencedor: Fagner. Os melhores laterais do torneio. Ainda mais quando o Corinthians também soube jogar bem e até bonito no primeiro turno. Antes de cair de produção e não pelas tabelas quando alguns trocaram treinos pelas taras.

Corinthians foi o redivivo Gabriel, de terceira opção do campeão de 2016 à primeiríssima cabeça da área como bicampeão nacional em 2017. Parceiro de Maycon, um que saiu do clube para voltar o que já era na base: vencedor. Marcando como volante, armando como meia, atacando até como lateral.

Corinthians foi Jadson. Sabe muito, joga bastante, vencedor, experiente, inteligente, tão técnico quanto tático, mas que ficou devendo bola. Não desistiu. No jogo do título entrou e em três minutos tudo virou. Estava 2 a 1 e ele mandou uma na trave. Na sequência arriscou de novo. Como ele ao voltar da China para o clube. Acertou de novo: 3 a 1. Mais um gol de mais um título.

Corinthians foi Rodriguinho. Até Seleção foi, mesmo não jogando muito. Mas fazendo bonito na hora de decidir. Superando desconfianças. Organizando quando outros se bagunçavam.

Corinthians foi Clayson saindo do banco com crédito limitado para fazer saldo quando o cinto apertava. Dando o empate contra o Flu para Jô, cruzando a bola que bateu no travessão e fez história no rebote com Jô. Foi Kazim fazendo de peito (depois de 266 dias) e na graça das entrevistas (todas as vezes) o espírito da favela gringa ou da ginga da comunidade carente de ídolos.

Corinthians foi Walter que sempre representou. Pegou pênalti depois de quase um ano sem jogar, sentiu lesão na mesma partida, e deixou o gramado chorando pelas contusões que impedem que seja o que Cássio foi tudo e quase todo o elenco foi em 2017. Não apenas um vencedor incontestável. Mas um campeão inesperado. Daquelas histórias que poucos clubes têm. Daquele Corinthians de anedota. E antologia.

Corinthians que se gaba de dizer que nunca é fácil… Será? Nadou de braçada no deserto técnico do BR-17. Deixou de jogar no returno e ainda parecia que abria vantagem de pontos mesmo perdendo e se perdendo nos destemperos do craque Neto, nos temores da torcida receosa e ressabiada, na falta de desempenho e resultados mais condizente às limitações de qualidade e quantidade do elenco. Foi aquela loucura de um time histórico no turno e histérico no returno. Em duas semanas passou de ameaçadíssimo a campeão antecipadíssimo. De time prejudicado pela arbitragem no impedimento mal marcado absurdo de Jô contra o Flamengo à mão na bola abusiva do artilheiro contra o Vasco. Como todo campeão, também tem menos erros de arbitragem contra. Lá e cá.

Mas ali é Corinthians. E poucas vezes foi tão Corinthians como em 2017. Quando apostou em gente da casa – e barata – para reconstruir a própria com pouco material. Alguns até de demolição.

Arrumou do jeito que dava para o SP-17. Fez o muro para se proteger das primeiras investidas. Deu certo. Resolveu dar uns passeios nas redondezas quando viu que os vizinhos também não eram tudo isso que pintavam e investiam. Acabou conquistando a rua, o bairro a cidade e todo o Estado.

Mais seguro, foi dar uma volta pelo país. E voltou com o Brasil nos braços e nos pés para Itaquera. Graças ao trabalho da direção vencedora, da comissão técnica competente como Walmir Cruz, e do guia dessa expedição que dormiu em albergues, lanchou frugal, passeou sem regalias, e volta para casa com mais una vitória inesquecível como o clube.

O Corinthians foi do Carille.

O cara da conquista. Arma e alma do hepta. Condutor de um time que jogou com quem podia e muito mais do que sabia. Líder de um grupo que estava se perdendo até ele dar a dura necessária e acabar com as goteiras da casa. Arrumou os vazamentos sem deixar de dormir o sono dos justos sobre o leito da paz.

Foi do Carille o hepta. É do Corinthians o time que mais uma vez supera tudo, todos e até o Corinthians para ser o que vocês sabem que são. E todos detestam admitir que sejam.

Campeões. Heptacampeões.

Um time sem muitos craques, sem um grande futebol. Mas um time de loucos, não um bando em campo. Um time com espírito de equipe. Milhões por um e 11 por todos. Não o lema dos Três Mosqueteiros, mas de todos eles. Exemplo para o futebol e para a vida. Como se fossem 11 Danilos, 11 Carille, 11 Jôs. Ou muito melhor: milhões de vocês.

O Corinthians foi Corinthians.

Por isso sempre devemos dizer, mesmo não querendo:

Vai, Corinthians.