Blog do Mauro Beting

Uma casa Portuguesa

Mauro Beting

A mãe de Fábio faz 98 anos hoje. Ele e os filhos sempre a visitam. Não é mais a mesma casa, com certeza. Quase ninguém vai. E, quando Fábio e os filhos, os amigos Flávio, Júlio e os deles chegam, olham para a casa vazia procurando algo além da saudade. Não de vitórias e títulos sem protesto. Apenas de vida. Que é muito mais do que isso.

Eles tocam a campainha quebrada:

– Já tô indo, meninos… Esperem que minhas pernas já não são as mesmas…

– Parabéns, vovó!!! (Quando ela abre as portas da casa no Canindé, Fábio e os filhos a abraçam como se fosse um gol de Enéas que só o pai viu, um drible de Julinho que ele leu, um passe do Djalma Santos que ele ouviu).

– Que saudades! A casa é de vocês. Venham sempre. E não só no meu aniversário. Aqui vai ser sempre o cantinho de vocês!

– Mãe, tá difícil vir aqui… Vida corrida… A senhora também não se cuida direito. Pior: acha que todo cara que apresenta uma cura vai te tratar bem… E os que são daqui o que fizeram com a senhora? E com a sua casa? Olha só: parece que todo dia tem um objeto a menos na sala. A fechadura arrombada. Janela aberta!

– Filho, eu sei que vocês não conseguem vir tantas vezes. Tô velhinha, cansada, já não dou tantos motivos e nem festa. Eu sei que tem gente que me quer assim. Até da família. Não posso pedir amor pra ninguém. Até porque eu sei que vocês que sempre me amaram me querem de um jeito sem condições. Eu só peço que vocês nem venham tanto pra casa. Mas façam algo por ela. Batam em outras portas antes que fechem as minhas. Conversem com amigos. Colegas. Com o pessoal que possa ajudar nosso canto que vai ficar pra vocês. Para que eu possa continuar sendo eterna. O meu presente é estar viva no centenário. E poder contar cada ano contando pro mundo que aqui vamos à luta.

– Mãe, precisamos recomeçar. Vender a casa. Construir outra. Reconstruir.

– Filho, faça o que for. Mas faça algo. Não quero ser só saudade. Uma foto na parede. Se o melhor for derrubar a parede e os muros, que seja.

– Mãe, não somos muitos. Mas podemos fazer muito se ainda lembrarmos quem nos fez o que somos: você! Obrigado, minha Portuguesa amada!