Blog do Mauro Beting

Belle Époque
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Mauro Beting

Foi em Lyon, em 1998, quando a Croácia marcou o terceiro gol contra a Alemanha, que disse ao saudoso locutor Marco Antonio (que faria ali sua última transmissão de Copa) que o Brasil acabava de se sagrar campeão mundial do século XX. A Itália tinha sido eliminada na véspera pela França e não poderia ser mais tetra (que seria em 2006). A Alemanha perdia ali a chance do tetra que viria em 2014. O Brasil não tinha mais como ser alcançado por nenhum país no século XX. Mesmo perdendo logo depois a final para a França.

Vinte anos depois, na Rússia, a França conquista a quinta Copa deste século que já teve Brasil ganhando o penta, a Itália o tetra, a Espanha a primeira, a Alemanha o tetra, a França o bi. A França que foi vice mundial em 2006. Vice da Europa em 2016. Era o melhor time do mundo em 2002 depois de ganhar a Euro-00 até perder Zidane e se perder na Copa na Ásia. A França que se perdeu em 2010 em crise entre treinador e atletas. Só perdeu em 2014 para a campeã Alemanha, nas quartas. Só empatou em 2018 com os reservas com a Dinamarca. Não passou por nenhuma prorrogação até o título como só o Brasil em 2002 e a Argentina em 1986 desde que a Copa tem jogo único desde a fase de grupos.

França que soube jogar o Mundial. Ganhar merecidamente a Copa. Embora, como o Brasil de 1994, pudesse ter entregado mais futebol. Preferiu na final dar a bola e o campo aos estafados croatas. Foi o único jogo em que criou menos oportunidades que o rival (5 x 10). Ainda assim marcou quatro gols – os dois primeiros em lances discutíveis de arbitragem. E só concedeu um gol na falha de um goleiraço que quis brincar onde não podia. Diferente da equipe que poderia ter brincado mais com a bola. Brindado o torcedor com o talento de seu jogo.

O torque, o turbo, o toque e os truques do Mbappé que parece ter 19 Copas e não apenas anos. A elegância do estilista Pogba que baila como se fosse um Zidane de passadas de Bolt e posse de bola. Griezmann que fica atrás dos atacantes ou aberto pela esquerda ou onde for necessário para compensar um Giroud que como Guivarc’h em 1998 não faz e nem chuta pro gol. Mas muito melhor que aquele medíocre centroavante de 1998 o de 2018 prende zagueiro, libera espaço no HD 4K pra quem vem de trás como Pogba, pra quem sai da frente como Mbappé, para Griezmann criar, Matuidi atacar como terceiro meia pela esquerda ou como terceiro volante.

Embora só bastasse na frente da zaga um Kanté para varrer a área de Varane e Umtiti. Bolões pelo alto na área alheia. Balões dirigíveis na própria defesa. Ainda melhor com Lloris. O capitão necessário. Discreto sob as traves quase sempre só uma hora foi brincar e deu o gol aos croatas. Nas outras horas foi o goleiro que quase sempre esquecem de citar entre os grandes. Capaz de milagre contra Cáceres.

Como foram enormes Pavard e Hernandez. Dois laterais que imaginava reservas e que são zagueiros nos clubes onde mal conseguem ser titulares. Dois que podem ser titulares de qualquer seleção da aCopa.

Ainda mais uma que não teve Benzema no ataque pelos tropeços fora de campo feios como os de Giroud lá dentro. Não teve Rabiot que tinha bola para ser titular. Como já foi Payet. Não pôde ser Coman. E alguns convocados que tiveram minutos e têm bola como Dembelé, Tolisso, Lemar.

Grande armeé da França. Time que era para ser campeão a partir de 2019. E já reconquistou o mundo em 2018.

França de 15 filhos da África e do Caribe e outros com ascendência de outros países da Europa. França com mais de três cores.

Exemplo em campo e fora dele. Para todos os campos da vida.


Precisamos aprender a perder
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Mauro Beting

A foto dos campeões. Opa, vices. Melhor: vencedores mesmo perdendo a final. Mas sem perder o juízo e nem o respeito. Não quero o Brasil perdendo títulos e celebrando. Quero, antes de tudo, voltar a uma final. E, se perder o jogo que é do jogo, não perder a compostura e nem a esportiva. Os croatas reclamaram da falta cavada por Griezmann no primeiro gol e da mão na bola/bola na mão discutível do segundo. Ponto. Celebraram muito mais o feito de chegar até onde foram. Quero o Brasil assim. Com raiva da derrota. Não com vergonha. Reclamando quando prejudicado. Mas reconhecendo os méritos alheios. Sabendo perder como ninguém ainda sabe ganhar mais do que a gente.


O campeão é um nove falso
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Mauro Beting

O centroavante campeão do mundo não chutou uma bola na direção da meta adversária em 546 minutos.

Em pouco mais de seis partidas, nenhuma finalização contra 2m44 x 7m32. E uma bisonha em que Giroud, sozinho, mais tropeçou que finalizou pra fora um passe de Mbappé. O goleador que vem da ponta.

Ainda assim o comandante de ataque (ou comandante de defesa) foi importante taticamente para abrir espaços para quem sabe demais como Mbappé e Griezmann. E até para o todocampista Pogba. Fez paredes importantes. Além de algumas vergonhas.

O centroempreteiro que faz paredes merece alguns elogios por segurar zagueiros. Mas não todos.

Só em 1958, em seis partidas, o centroavante francês Fontaine marcou 13 gols. Dois a menos do que toda a França do pavoroso Guivarc’h (e dois ainda imaturos Henry e Trezeguet) em 7 jogos com duas prorrogações em 1998. Um a menos que a França do inerme Giroud em 7 partidas bicampeãs em 2018.

Depois de tanto pensarmos em falsos 9, enfim chegamos aos verdadeiros noves falsos.

Noves fora, os centroavantes sem bola e sem gols estão na moda.

Aceitemos ou não.


Levanta a cabeça, Mandzukic
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Mauro Beting

Mandzukic, 3 segundos antes de você fazer história virando a própria contra a Inglaterra, você tinha baixado a cabeça. Tá na foto do lance da bola que subiu e saiu de cena. Pareceu desistir da jogada que Perisic acreditou de costas e ganhou de Trippier, você levantou a cabeça e se antecipou a Stones, e fuzilou na saída de Pickford.

Em três segundos você ergueu a cabeça, a Croácia, e quase levantou a Copa. Na final em que você ergueu a cabeça sem querer e fez o primeiro contra. Na decisão que você fechou o placar acreditando numa bola que Lloris foi brincar bem na sua frente. Na fronte de um país que não aceita afronta.

Com vocês não se brinca e nem se abaixa a cabeça. Vocês são dos vices mais campeões do mundo. Porque não desistiram saindo quatro vezes atrás dos placares. Porque não se entregaram jogando uma partida a mais que o outro finalista e com um dia a menos de repouso. Que “descanso” vocês não tiveram. Nem deram.

Os meninos do front da Guerra da Independência da Croácia enfrentaram o mundo de cabeça erguida. Mas não de queixo empinado. Ganharam o mundo mesmo perdendo a Copa. Viraram o jogo quando nem mesmo eles pareciam acreditar.

Como eu não esperava vocês até aqui. Como eu espero vocês mais vezes por aqui no Brasil. Não ensinando futebol e nem como ganhar Copas. Mas como não baixar a guarda e a cabeça. Como não perder a esperança e os jogos.


Kanté e o que se recicla de 1998
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Mauro Beting

Não faltaram latas, garrafas, bandeiras e todo tipo de lixo largado pelas ruas de Paris na celebração do título da Copa de 1998 pela dona da casa. Sobrou o maior dinheiro conquistado por N’golo naqueles dias de festa para o mundo e trabalho para ele do baixo dos 7 anos. Do baixinho de 1m68 hoje que não conseguia times para jogar pela pouca altura. Dez disseram não a ele pela estatura. O que não é documento para quem não tem tamanho de tanta vontade de coletar bolas pelo campo como sobras. Antecipar lances para limpar a sua área e o campo do time dele.

N’Golo tem nome de rei do Mali onde vieram os pais para morar no subúrbio de Paris. Aos 11 ele perdeu o pai. Mas não o Norte. Ajudou a criar os irmãos menores com a mãe. Quando viu que vencer no futebol seria difícil com tantos nãos, ele foi estudar contabilidade. Até que a oportunidade de jogar pra valer ele foi catar como se fossem as sobras recicladas da infância.

Kanté demorou a explodir pelo Leicester que ninguém esperava campeão da Inglaterra, em 2016. Foi bicampeão pelo Chelsea em 2017. Agora é bicampeão do mundo 20 anos depois de catar lixo para ajudar a família a sobreviver. Como o jogador que mais correu em média na Copa. O que mais desarmou. O que fez o trabalho mais “sujo” no time. Como se fosse o mesmo menino que trazia o trocado para a casinha no subúrbio de Ruel Malmaison, no leste parisiense. O que não desistiu quando ninguém lhe dava bola.

Ele era o menor entre todos os jogadores. Mas, desde os 8 anos, o que sonhava maior que todos. Não tinha dinheiro para ir aos estádios. Não conseguia ver os grandes jogos que só passavam na televisão paga. O que ele conseguia apenas era jogar. E não deixar que ninguém jogasse fora o que poderia ser reutilizado.

No Chelsea é quem chega com o menor carro em tamanho e preço. Não precisa mais do que isso. Nós é que precisamos mais de campeões como Kanté. O de valor que não se paga e não tem tamanho.

A prova mais do que viva de que o caminho francês em 1998 se recicla. A França ''negra, branca e árabe'' segue muito viva 20 anos depois. Revolução de integração que pode e deve reciclar muita coisa na Europa.


O melhor time da Copa, não da final. França 4 x 2 Croácia
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Mauro Beting

A França ocupou Moscou arrasada, incendiada e sem resistência em 1812. Para logo abandonar a cidade e o exército francês perder quase 400 mil dos 685 que fizeram a campanha na Rússia. Mais 50 mil feridos. 80 mil que desertaram. E a guerra perdida também para o clima. O inverno russo que deixou sem comida e sem agasalho a tropa pelo caminho.

No verão russo de 2018, a França não tinha um Napoleão no banco – nem o que fugiu quando o frio chegou. Embora Deschamps tenha sido o capitão mundial em 1998, não é o comandante e estrategista de banco da grande armeé em campo. Os marechais Mbappé, Pogba e Griezmann, os generais Kanté, Varane e Umtiti, são de alta patente pelo que conquistam como grandes combatentes. Não pelo plano que executam. Há inegáveis méritos em um treinador vencedor. Ainda mais um dos três que foram campeões em campo e banco como Zagallo e Beckenbauer desde 1930.

Mas a França que enfim conheceu a vitória sem contestação na Rússia é muito mais um time de jogadores do que do comandante. Um grupo que chegou forte e saiu vencedor. Mas dando sempre a impressão de que poderia ter deixado um legado maior na campanha na Rússia.

Deixa Moscou no verão e não será derrotada pelo inverno rigoroso. Mas por mais que seja ainda mais rigorosa esta cobrança, quando se tem o potencial desse time, tem como cobrar mais desse futebol que nos deu Fontaine e Kopa nos anos 50, Platini, Giresse e Tigana nos 80, Cantona antes da geração de Zidane, Thuram e Henry em 1998, grandes vices mundiais como Ribèry em 2006, e esta geração bicampeã que é vencedora antes da hora.

Com campanha irrepreensível. Apenas um empate na Copa (e no jogo que nada valia com os reservas contra a Dinamarca). Nenhuma prorrogação. Em 2014, a Alemanha passou por duas. Em 2010, a Espanha ganhou no tempo extra o título. Em 2006, a Itália teve duas e venceu o tetra nos pênaltis. Só em 2002 o Brasil foi 100% sem precisar de prorrogação.

A França foi o melhor time de 2018. Como o Brasil de 1994. Mas poderia ser melhor do que foi. Como a Seleção de Parreira nos EUA.

Na decisão, a França chegou cinco vezes e fez quatro gols. O que não acontecia em 90 minutos desde o Brasil de outro jovem de menos de 20 anos que conquistou mundo em 1958. Pelé. Rima que é seleção como Mbappé.

A Croácia começou melhor, buscando a vantagem que não teve nos três jogos anteriores. A França deu a bola e campo aos croatas para que eles se cansassem. E teve a fortuna de na primeira chegada abrir o placar, aos 17. Quando Griezmann cavou uma falta que eu não marcaria de Brozovic. O excelente francês mais uma vez cobrou com efeito. Desta vez não chegaram pelo alto nem os colossais Varane e Umtiti. Mas Mandzukic, guerreiro que não mereceria marcar contra o gol que abriu o placar que ele fecharia no final, aos 23, na única falha mundialista do excelente Lloris.

Qualquer outro time ficaria abalado. Menos a Croácia. Aos 27, talvez o melhor ambidestro do mundo mandou uma pancada de sem-pulo como se fosse o tiro rasteiro de Gerson na final de 1970. Golaço de Perisic. Justiça feita à valentia croata e a um certo cinismo francês. Não apenas na decisão.

Seguiu melhor a Croácia. Até o VAR dar o ar da desgraça aos 36. Bola na mão de Perisic que eu não vi como intenção de interceptar o lance. Nem movimento antinatural do croata. Eu não marcaria pênalti. Mas tem como discutir a definição de Nestor Pitana. A que definiria de vez a parada.

Griezmann tirou do goleiro e fez 2 a 1 na segunda chance francesa no primeiro tempo. A primeira criada pela arbitragem.

Na segunda etapa, a brava Croácia se atirou ainda mais. O jogo ficou mais aberto. Mas quem tem Pogba para lançar desde o meio-campo, Mbappé enfim acertar um lance pela direita, e Pogba bater com categoria no contrapé de Subasic, já não tinha mais jeito, aos 13. Aos 19, Mbappé bateu e já não tinha desculpa para Subasic. Como não teve para Lloris no gol da bravíssima Croácia. Equipe que criou o dobro das cinco chances francesas. Mas ficou pelo caminho brilhante que criou.

Mas trajetória que não foi melhor que o melhor time. Merecido campeão pelo que fez fez até a final. Não a decisão.


Mbappé só quer ser feliz e francês
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Mauro Beting

Kylian passou uma semana no Chelsea logo depois do fiasco francês na Copa-10. Ele tinha 11 anos. Corpo de 14. Futebol de 16. E cabeça de 21. Achou que não era a hora de ser mais um em Londres. Voltou para Paris. Nem passou outra semana no Manchester United que também o queria.

Aos 14 foi a vez de dizer “não” ao Real Madrid que já tinha com a camisa sete o cara que decorava o quarto de Mbappé. Mais uma negativa que ele voltaria a dar ano passado, quando preferiu ganhar menos para jogar pelo seu PSG da Paris dele. O Madrid colocou um jatinho para buscá-lo nos EUA e um cofre do Tio Patinhas na contra.

Não. Obrigado.

Dinheiro nunca foi problema para o pai treinador que veio de Camarões e para a mãe argelina que jogou handebol. Kylian cresceu em Paris com o conforto que o esporte deu aos pais. Com o talento que Deus lhe deu para jogar com a bola como se fosse Ronaldo, o Cristiano ou o Gaúcho. Para correr como se fosse o Fenômeno, Ronaldo com o torque de Romário. Para já ser mais do que a inspiração que também passou pela escola de Clairefontaine, base do Monaco e campeão pela França: Thierry Henry. Outro que fez o mesmo caminho de Mbappé com grande talento. Mas menor que Kylian.

Com o foco que poucos adultos têm. E ele já tinha aos 9: queria ser campeão francês primeiro (e já foi duas vezes por Monaco e PSG); queria jogar pela França como pode ser campeão no domingo; queria ganhar a Champions que ainda pode ser dele; quer ser o maior do mundo.

(E só quis mesmo ir ao Madrid aos 14 para conhecer CR7, o ídolo Zizou, e o clube vencedor como ele já é por não querer tudo antes do tempo que é dinheiro).

Não tem plano B para Mbappé. Disse não ao Chelsea aos 11 para voltar ao berço em Bondy, subúrbio no Nordeste de Paris. Foi a Madrid como presente de 14 anos como se fosse uma excursão. Para ser feliz quem ele deseja hoje com o futebol. O mesmo que faz seu irmão adotado Ekoko, 9 anos mais velho, jogador do Bursaspor turco.

Felicidade para Kylian não é só jogar MUITO futebol. É jogar pelo seu país. O filho de Camarões e Argélia que é França. Estuda a história de seu futebol e Seleção. Revolta-se com o preconceito que atrapalhou a França mesmo campeã em 1998. Cores e credos que separam e segregam o país tantas vezes. Três entre tantas que agora ele e mais 14 filhos da África ou do Caribe e de outros países europeus podem dar de novo as mãos e pés e o mundo aos pais que escolheram o país como ele.


Como a Croácia supera os tempos extras
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Mauro Beting

Luka tinha seis anos quando a guerra bateu na porta da casa dele em Krusevo, cidade com duzentos habitantes, em 1991. O pai mecânico de aviões foi para o exército lutar pela independência da Croácia. O avô foi executado por rebeldes sérvios logo depois. A casa da família foi incendiada.

A mãe, Luka e os irmãos menores se refugiaram em um hotel em Zadar. Passavam os dias fugindo de granadas e bombas. Luka fugia do barulho jogando bola no estacionamento do hotel. No segundo em que foi morar até o fim da guerra, o gerente do Iz repete o que disse o seu colega do Kokevare: Luka quebrou mais vidraças com as bolas que chutava do que as granadas que estilhaçaram a antiga Iugoslávia até o final do conflito, em 1995.

No segundo hotel ele também jogava bola pelos corredores, repetindo o que aprendia na escolinha de futebol que o tio pagava com o dinheiro que já não havia.

Quando a independência foi conquistada, a família tinha pouco como o país. Mas o que sobrava servia para pagar a escolinha de futebol que levaria Modric para o futebol até o Real Madrid para conquistar a Europa quatro vezes. No sonho domingo para tentar ganhar o mundo que todo dia ele via explodir no hotel onde não era hóspede, era refém.

Rakitic nasceu na Suíça refugiado da guerra. Mandzukic, na Alemanha. Lovren saiu cedo da Croácia. A família tentou morar na Alemanha e não conseguiu. Voltaram para uma casa que não era mais deles. Como tantos refugiados do mundo sem lar e nem respeito. O zagueiro Corluka viveu a infância sem casa driblando a guerra e coleguinhas jogando bolas em campos esburacados ou minados.

Esses meninos agora são a Croácia. Não é tão difícil entender como eles superaram três tempos extras na Copa.


Carta da bola a Neymar
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Mauro Beting

Neymar, você me conhece como poucos neste mundo. Você me trata como raros na história. Por minha causa você merecidamente ganha uma bolada. Mas eu, enquanto bola, estou preocupada como nunca com você. Principalmente pelo mundo que deveria estar hoje como eu – aos seus pés – hoje estar mais rolando – como nós – e te ralando e ralhando pelos seus excessos. Apenas seus.

Você apanha há anos mais do que eu em pelada de jornalista esportivo. Ninguém recebe, cria, inventa, simula (e também por isso) deixa de ter marcadas tantas faltas como você. Parece que rivais e árbitros (às vezes ambos ao mesmo tempo e ambos adversários) são sádicos ou sábios contra você. Querem te derrubar. São zangados e são zuñigas com você.

O mérito e também a culpa é toda sua. Ninguém bate ou consegue derrubar Messi. Ninguém prostra Cristiano que já caiu muito – mas agora só me joga.

Juninho (permita-me chamar como seu pan te chama), seu Neymar te ensinou muito em campo. Inclusive a fugir do pau e da pedra e dos podres que entram para te fazer sair. Mas vá por mim: só eu rolo em campo. Deixa os rolos pra fora. Até porque mesmo quando você é pisado na maldade, ainda discutem que você exagerou. Fazem memes com algum mimimi. Chacota que te chicoteia quando você merecia aplauso e atenção.

Ninguém no Brasil neste século me trata como você. Ninguém me joga tão bem. Ninguém faz tantos gols comigo. E falo em nome de todas as do mundo que ainda pode ser seu. Best da Fifa e/ou com o caneco na mão. Não como craque expiatório para as bestas do apocalipse da mídia abaixo da média.

Não quero que você se perca como Ronaldinho Gaúcho quando foi o melhor do mundo e depois me largou. Você até quando joga mal quer jogo. Me pede e até fica comigo demais. Mas joga. Faz gol.

Mas pode fazer mais. Para evitar o mal que está sendo feito contigo. E não apenas no México que perdeu o jogo e a compostura te criticando além da conta. Muita gente no mundo que ainda será seu e no Brasil que ainda é nosso sai rolando de sacanagem em todos os campos e relevando sua absurda técnica que até parece sacanagem.

Juninho, você é como eu. Um bolão. Eu só te quero bem como você sempre sonhou comigo. Mas tem hora que é preciso me parar. Refletir. Jogar o seu jogo sem se jogar. Me rolar sem você se rolar tanto. Me passar um pouco mais para os outros. E sem me dar tanto para críticas destrutivas. Como dizem, ''não dê bola pra eles''. Sei que não é fácil. Deve doer como muitas pancadas. Porradas de quem esquece o tempo que você ficou fora de campo antes desta Copa. Os jogos que tanta falta você fez em 2014. As faltas que tanto você sofre.

Juninho, eu tenho casca grossa e dizem que só tenho ar dentro. Seja como eu que você tanta ama: uma carapaça impermeável que não veste carapuça. A alegria dos jovens.

Até posso murchar. Mas basta um novo fôlego e desafio para seguir em frente como você: rumo ao gol. “Goal” em inglês. ''Objetivo''. Vá cada vez mais rumo ao gol e ao objetivo.

Eu te prometo, enquanto bola, que da próxima vez não vou ser isolada como aquela que você me passou pra outro monstro como Coutinho. Vou ser ainda mais sinuosa só para o Courtois não me pegar no ângulo naquele seu último chute.

Eu vou te fazer ainda mais feliz como você merece e sua torcida, também. Não abaixe a cabeça. Sei que não é fácil tirar um Brasil em cima de seus ombros. Mas dê de ombros.

Me role. Não você.


Croácia é a vitória do jeitinho
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Mauro Beting

Depois de apenas empatar em casa contra a modesta Finlândia, em 6 de outubro de 2017, a Croácia tinha que vencer a Ucrânia em Kiev, para tentar chegar ao playoff como segunda de grupo difícil, liderado pela surpreendente Islândia, e com rivais chatos como a Turquia.

O que fez o “Coronel Nunesivic”, presidente de plantão da federação local? Demitiu no dia seguinte ao frustrante empate o treinador Ante Cacic, que desde 2015 comandava a seleção com desempenho modesto (ou compatível com seu status de treinador de currículo discutível). Ainda que tenha estreado bem na Euro-16 vencendo a Espanha, cairia diante da campeã Portugal. Nas Eliminatórias para a Copa, o time croata foi caindo pelas tabelas. Perdendo moral com torcida e imprensa pelos selecionados e escolhas. Perdendo o controle do grupo pelo ambiente.

A apenas dois dias do jogo que era necessário vencer na Ucrânia, Zlatko Dalic foi nomeado novo treinador. Não era a primeira escolha. Outros nomes foram contactados seis horas depois da demissão de Cacic. Só na manhã do dia do embarque o novo treinador acertou que iria para a Ucrânia para julho jogo que seria o primeiro ou o último. Conheceu os atletas no aeroporto no embarque para Kiev para o jogo 48 horas depois. O ex-volante e treinador de currículo de bons resultados na Arábia Saudita e Emirados Árabes em 13 anos de carreira aceitou o enorme desafio. Não tinha muito a perder. E só podia ganhar. Tinha que vencer. E, se não conseguisse, sairia em seguida.

Na estreia que poderia ser a única partida pela Croácia, Dalic mudou o time que empatara com a Finlândia (e que só não tem hoje Mitrovic na zaga como nomes que ele conta na campanha na Rússia). Em Kiev ele escalou Vida na lateral-direita, colocou Vrsaljko na outra lateral, escalou Lovren no miolo da zaga. Reforçou a entrada da área com Badelj, e avançou Modric para ser o principal articulador.

Sofreu com a pressão da Ucrânia no primeiro tempo. Principalmente quando Subasic largou (FOTO) um chute longo de Rakitiskyi que parecia fácil e a bola lambeu a trave esquerda. Antecipando em meses o desastre de Karius, companheiro de Lovren, naquela mesma meta do Olímpico de Kiev, na final da Liga dos Campeões, no gol do título de Bale, do Real Madrid.

Por centímetros, a Ucrânia não abriria o placar. Por dias, Dalic não chegaria ao banco no plano arriscado da Croácia. Se é que se pode chamar de plano.

No segundo tempo, num intervalo de 8 minutos, Kramaric aproveitaria dois toques de craques como Modric e Rakitic para fazer 2 a 0 e levar a Croácia ao playoff.

No sorteio, sorte. A fraca Grécia. Aquela protegida pelos deuses e diabos da bola na Euro-04 que venceu. Desta vez deu a lógica e futebol. Croácia 4 a 1 em casa. 0 a 0 em Atenas. Croácia classificada.

Azar no sorteio. Argentina no grupo. Coincidência: Islândia de novo. E a Nigéria que foi vencida sem sustos e nem brilho. 2 a 0. Mas um problema a resolver. Assim como no amistoso contra o Brasil em Liverpool (2 a 0 para Neymar e Firmino), e também em um treino antes da estreia na Copa, o atacante Kalinic não quis entrar no jogo. Alegou dor nas costas. Foi dispensado no dia seguinte por Dalic: “não está em condições de jogar, infelizmente não pode continuar”.

Sem crise. Sem papo.

Os 22 croatas seguiram. E pareciam 33 contra a Argentina no segundo tempo. 3 a 0. Na última partida, já classificados, eliminaram a Islândia que os havia levado ao desespero em Kiev. Nova vitória. E com quase todos os reservas.

Oitavas, com 58 segundos já tinha gol da Dinamarca. Com 4 minutos o empate. Na prorrogação, pênalti perdido pelo maior – Modric. Nos pênaltis, mesmo com Schmeichel defendendo dois, Subasic defendeu três.

Nas quartas, a dona da casa Rússia. Abriu o placar aos 30 no primeiro chute. Kramaric empatou 9 depois. Na prorrogação, Vida virou de cabeça. Do mesmo modo empatou Mário Fernandes. Mais pênaltis. Mais Subasic uma vez na cavadinha. Na outra Mário Fernandes perdeu. No final, mais uma vez, o Rakitic que tem gelo nas veias levou à semifinal.

Jogão contra a Inglaterra menos desgastada por ter atuado uma prorrogação a menos. Um golaço de falta contra aos 4 minutos. Desta vez o

empate só na metade do segundo tempo. E a virada na terceira prorrogação só aos 3 da segunda etapa. No primeiro gol de Mandzukic.

Não é nada tão bem planejado e com tanto dinheiro como essa Inglaterra que é para 2022 e quase foi em 2018. Não é tão bem estudado e jogado como essa Bélgica que talvez nunca será embora tenha jogado bem e se planejado como futebol ainda melhor com 8 escolas pelo país. Não é como a França quase foi há 60 anos na Suécia. Poderia ter sido nos anos 80. Quando em 1988 fez sua escola com trabalho de base que já deu aula mundial em 1998. Parou nos pênaltis em 2006. E pode ser bi agora. Merece mais um caneco pelo talento e trampo.

Mas têm coisas que nessa vida viram. Saem atrás e buscam o empate. Têm tempo extra e se superam. Não planejam e conquistam.

Tem essa Croácia que não deve ganhar a Copa. Mas mostra a todos que dá para chegar aos croatas e barrancos. Sem plano. Sem projeto. Sem organização.

Mas com algo que não se explica.

Apenas se aplica. E como se aplicam!