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Oswaldo Brandão, 100. Corinthians 0 X 2 Palmeiras

Mauro Beting

17/09/2016 21h12

Vou escrever uma cartinha para um mito com quem adoraria ter um dia conversado.  

Velho mestre Brandão, você ainda é a maior unanimidade entre corintianos e palmeirenses – Heber Roberto Lopes vem logo atrás. 

Pelo que meu pai contava, e pelo que li no belo livro do Mauricio Noriega (e também pelo que vou mostrar no meu novo documentário que estreia justo no dia da Arrancada Heróica de 1942 – mas eu não vou falar mais para o pessoal não me chamar de Gregório palestrino…), o senhor era um médio-direito esforçado do Palmeiras quando o joelho combalido o aposentou precocemente. Quando assumiu ainda jovem o comando alviverde, montou "a defesa que ninguém passa" inspiradora do Hino do maestro Totó, campeã paulista em 1947. 

Mestre, você também foi Corinthians no IV Centenário paulistano. E como foi campeão em 1954 contra o Palmeiras! Também foi supercampeão paulista de 1959 pelo Verdão superando o Santos de Pelé e um jejum desde 1951. Foi campeão do primeiro dos oito nacionais alviverdes em 1960. Montou a Segunda Academia de Ademir da Guia, em 1972. Deixou o Corinthians mais um ano na fila em 1974 no lance mais marcante de um Ronaldo no dérbi. Mas quando voltou ao Parque São Jorge em 1977, o senhor terminou com a longa noite alvinegra de 22 anos sem títulos, em 13 de outubro. 

Oswaldo Brandão não por acaso foi nome de troféu do dérbi criado em 2009. Sabemos que o senhor era mezzo Palmeiras meio Corinthians. A família, também. Se não foi o maior treinador dos dois lados do clássico, é o único que pode ser louvado por ambos. 

Campeão paulista em 1977

Meu parceiro Celso Unzelte lembrou no imperdível aplicativo ALMANAQUE DO TIMÃO (e estaremos juntos essa semana no YouTube no canal dele com o Marcelo Duarte – Treslocuados) que amanhã, domingo, são 100 de seu nascimento lá em Taquara. Um dia depois, quem sabe, do último dérbi antes do centenário do clássico, em 2017. E não me peça pra tentar explicar o que é aplicativo, YouTube, Pokemon, Restart e escanteio curto.  

Jogo de sábado pelo returno do BR-16 que terminou com 34 partidas de invencibilidade corintiana em Itaquera. Partida que encerrou a passagem triste de Cristóvão Borges no Corinthians. Ele mesmo que foi autor de um gol alvinegro no polêmico clássico semifinal do SP-86. Você lembre.  Cristóvão que 30 anos depois chegou a liderar uma rodada do BR-16. Aquele elenco que perdeu além de os sete titulares que Tite (outro gaúcho histórico no Corinthians) já não tinha  mais o Bruno Henrique e o Elias… O abreviado comandante  não teve neste clássico os remanescentes Fagner e Uendel do belo time hexacampeão brasileiro contra o líder do BR-16. Aquela equipe que agora só tinha Cássio em campo. E ainda longe daquele goleiro e muito distante do Corinthians de sempre.  Timão que só ganhou um Brasileiro depois de sua morte, mestre. Mas como ganhou tudo desde então!

O Corinthians  mais uma vez foi muito mal em 2016. O Palmeiras, mais uma vez no BR-16, e desde 2015, foi muito bem em Itaquera, e em um jogo decisivo no sábado contra o maior rival. Nem precisou das meias brancas. Fez um a zero no primeiro ataque com o incansável Moisés, que abriu o oceano vermelho no meio das pernas do goleiro rival – essa me veio pelo Twitter, mestre. É uma rede social que o senhor talvez apreciasse. Bastam 140 toques, o que era muito pelo que o senhor falava por aqui. 

Depois do gol, o Palmeiras só teria nova chance aos 40. Errou passes e não soube segurar a bola na frente. Mas o maior rival foi ainda pior. O único lance mais ou menos foi um cruzamento errado do Cristian. E olhe lá. Não por acaso torcedores começaram a xingar a direção do clube antes do primeiro tempo. Os tempos são outros, mestre. Talvez sobrasse até para o senhor. 

Mas seria provável que na base  do papo em que você era imbatível fosse possível dar um jeito pelo menos na defesa alvinegra. Ainda que não seja fácil marcar esses caras bem treinados pelo Cuca. O Edu Dracena (que o Corinthains deixou escapar para sofrer com Vilson) quase fez o gol que Mina, de novo em clássico, faria logo depois da expulsão talvez exagerada do Léo Princípe. Mais um erro do árbitro que empurrou Dudu logo no começo do jogo! E teria de expulsar Vilson pela cotovelada em Roger Guedes. 

Dudu está honrando o nome do bom velhinho Olegário. A propósito, mestre, enfim ele vai receber a homenagem merecida. Mas é surpresa. Não conta pra ninguém aí em cima. Nem pros seus parceiros Junqueira, Oberdan e Fiúme. 

O que não aconteceu de surpreendente foi em Itaquera. Não houve novidade. O melhor time ganhou. E com muita sobra. Jailson só fez uma defesa difícil em uma bola que sairia.  Tivesse acertado mais o pé e alguns passes, o Palmeiras teria goleado o dérbi mais disparatado dos últimos tempos. 

Só o senhor, hoje, teria moral para acertar a mão, os pés e os corpos corintianos. Mas pelos caras intolerantes da torcida que queriam bater em todo mundo na Arena (e olha que só havia lá essa excrescência chamada "torcida única"…), nem Brandão teria paz. Até porque fica difícil entender umas coisas hoje. Time perdendo em casa e torcedor pegando a bola que foi pra lateral para tirar selfie com ela… Torcidas gritando "bicha" no tiro de meta do goleiro rival…

Velho mestre, melhor ficar mesmo por aí. Dá um abraço no meu pai. E fala pra ele que o nosso time ganhou o dérbi mesmo sem o Gabriel Jesus e mesmo sem jogar tão bem assim. Mas certamente jogou melhor do que muita gente aqui da imprensa que mete o pau no líder que não  poder fazer gol de cabeça… E nem depois de arremesso lateral. 

Imagine o que diriam dos arremessos laterais na área que o Djalma Santos fazia na sua Lusa e também no seu Palmeiras, mestre….

Outros tempos. Ou os tempos de sempre. 

Veja o comentário de GUSTAVO ROMAN

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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