Blog do Mauro Beting

Fica, Tite. Qatar é logo ali.

Mauro Beting

Se Felipão tivesse mantido por cinco jogos um centroavante que só marcasse o lateral adversário e não gols numa Copa, ele seria mais criticado do que foi por ter dado tantas chances a Fred, em 2014.

Se Dunga não tivesse feito Neymar jogar o que sabe mesmo vindo de lesão e inatividade, e ainda o defendesse dos ataques gratuitos e até das críticas construtivas pelo que joga e se joga no gramado, ele também seria cornetado por não fazer o jogador mais caro do mundo ser tão valioso para a Seleção.

Se Mano Menezes tivesse deixado o sistema defensivo exposto no segundo gol belga por falhas de Fernandinho, Paulinho e Marcelo, ele ainda seria mais detonado por ter escolhido Fernandinho depois dos 7 a 1, e mantido Gabriel Jesus para furar a cabeçada do primeiro gol, e não escalar Firmino desde o início, e dar tantas chances a Paulinho também por não sentir firmeza nas outras opções.

Se Parreira tivesse mantido uma mesma equipe o máximo possível, repetido uma ideia de grupo como a família Scolari, e privilegiado quem foi muito bem com ele nas Eliminatórias sem mexer tanto no time como se fosse Osório, todos eles seriam mais cobrados pelas escolhas, escalas e “teimosias” – e até peias coerências.

Se Luxemburgo tivesse convocado Muralha e nunca tivesse dado chances a outros goleiros em melhor fase, uma avalanche de questionamentos seria feita. Se um treinador levasse dois dos três brasileiros do ex-clube onde treinou antes de assumir a Seleção, ainda que megavencedores como ele, mais porrada no selecionador.

Se Muricy tivesse mantido na delegação jogadores vindo de lesões ou que se lesionaram tanto durante a Copa ele seria mais detonado do que Tite. Com ou sem razão. Mais sem do que com.

Se qualquer outra comissão técnica fizesse treinos tidos como muito “intensos” durante a Copa, o mundo cairia sobre eles.

Se qualquer treinador fizesse um rodízio da faixa de capitão da Seleção seria chamado de Pilatos da CBF. Tite, não. A responsabilidade seria não da falta de perfil dos jogadores para a liderança, mas seria debitada mais do técnico de plantão.

Um dos grandes méritos de Tite é ser o domador de serpentes, cobras, minhocas, focas, antas, leões, o sensacional Urso da ESPN, e toda a espécie da fauna. Tudo que a imprensa amava odiar Dunga ou contestar Luxemburgo ou criticar Parreira ou extrapolar a favor e contra Felipão ela parece dizer amém a Tite. Amam quase que sem contestação. Apoiam a pregação como oração. E aceitam ideias como dogmas.

Eu também estou nesse rolo. Tite tem crédito na pessoa física e jurídica.

Mérito total dele como pessoa até mais do que como treinador. Demérito nosso como classe. Se não podemos detonar tudo que alguns duros como Dunga fazem, também não podemos cair no canto da sereia com pouca sirene ou vuvuzela ou corneta do apocalipse.

A culpa é nossa. O mérito é dele. Até nisso.

Mas o saldo de Tite como treinador e como pessoa é mais do que positivo. A campanha na Copa é para papa de Adenor primeiro e único é ímpar. Você pode criticar que caímos no papo dele. Mas é tudo mérito do jeito com que faz e conduz.

O melhor possível. Um cara que merece todo o sucesso que tem.

Melhor ainda se continuar à frente da Seleção.

Tite só pretende trabalhar em clubes de ponta fora do Brasil em países em que domine a língua. Isto é, em ligas mais competitivas, e clubes maiores. Espanha é o desejo. Mas não há vaga aberta em grande clube. Mais um motivo para seguir trabalhando na CBF. E muito bem. Com apenas uma derrota em jogo oficial. A derrota. Mas para um ótimo time que aproveitou as sete chances que teve melhor do que o Brasil que só fez um gol nas 20 que criou.

Ajustando coisas que não deram certo (a administração das famílias dos atletas em torno da Seleção). Corrigindo outras que deram errado (ainda que fazendo o correto, o mais apropriado).

Eu ficaria com Tite na Seleção até 2022 de olhos fechados. Abrindo uma e outra vez para acertar algumas coisas. Sem fechar os olhos para os erros. Mas entendendo todos eles como falhas tão humanas quanto ele no trato das coisas e das pessoas.