Blog do Mauro Beting

França x Bélgica é a vitória dos imigrantes na Europa e no mundo

Mauro Beting

A Bélgica de 1982.

França x Bélgica farão o grande jogo entre os maiores favoritos ao título mundial. Mas poderia ser um duelo africano-caribenho pela semifinal da Copa.

Entre os 23 convocados pela França, na equipe-base, Umtiti nasceu em Camarões. Kanté tem família de Mali. Os pais de Pogba são de Guiné. A mãe de Mbappé vem da Argélia, e o pai é camaronês. Metade da família de Matuidi é de Angola e a outra é do Congo.

No banco, Mandanda nasceu no antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo (onde é goleiro o irmão dele). O pai do Kimpembe é do Congo e a mãe, do Haiti. A origem de Tolisso é Togo. Nzonzi é outro que vem do Congo e foi um dos que foram contactados para atuar na Seleção do país dos pais, mas preferiu jogar pela França onde nasceu e cresceu.

Lemar nasceu em Guadalupe. Dembelé tem pai de Mali (como Sidibé), e avós maternos de Senegal e Mauritânia. A família de Mendy é do Senegal. A de Fekir veio da Argélia. A de Rami é marroquina.

São 15 dos 23 que são de famílias de imigrantes africanos ou caribenhos. Três não nasceram na França. E são mais franceses ou representam melhor a França que Jean-Marie Le Pen, o ultradireitista político que dizia que a França multicolorida campeã mundial em 1998 com 8 negros e um de ascendência argelina como Zidane, e também a equipe multirracial em 2006, não representavam a “verdadeira França”.

Le Pen foi respondido por Thuram também na Copa da Alemanha: “a seleção francesa tem muito orgulho de se francesa. Essa é a França real. Não a que ele deseja”. A França que foi vice em 2006 apostando na equipe dos melhores independente da cor. E muito melhores com várias cores pelas três da bandeira.

França que era ótima em 1958 com Fontaine marcando 13 gols em seis jogos – marroquino de Casablanca. França que foi ainda melhor em 1982 com o zagueiro Trésor (nascido em Guadalupe), o lateral Janvion (Martinica) e com o volante de duas Copas Tigana (nascido em Mali).

França que é cada vez melhor com mais etnias em campo. Como é o Brasil desde 1938. Um dos fatores de tantos títulos em campo é a presença de tantas cores defendendo a camisa verde-amarela. Em um mundo cada vez mais rico e global, as distâncias realmente diminuem quando os rivais também são tão coloridos.

A Bélgica e igual. Por ser mais igual no gramado. O pai de Kompany é congolês. Como o de Lukaku e Batshuayi, e a mãe de Thielemans. Da Martinica vieram os pais de Witsel. Do Marrocos os pais de Fellaini e Chadli. Dembelé vem de Mali. Januzaj do Kosovo. O pai de Carrasco é português e a mae, espanhola.

Onze dos 23 belgas também poderiam atuar por seleções de outros países. Não por acaso é a melhor geração belga. Ou NA Bélgica. Mesmo com tantos problemas recentes políticos e sociais na administração do primeiro-ministro Charles Michel, que não foi dos mais receptivos aos refugiados no país.

Lukaku expôs em brilhante texto no PLAYER'S TRIBUNE a realidade que o francês de origem argelina Benzema ainda sofre: quando ele joga bem pela seleção, é o goleador francês. Quando Benzema vai mal, ''é o árabe sujo''. Quando Lukaku faz gols ele é o goleador belga. Quando vai mal, vira o ''atacante de origem congolesa''…

A Bélgica teve duas Copas muito boas em 1982 e 1986, e foi vice europeia em 1980. Sem nenhum descendente de africano. Hoje, e desde 2014, a geração é muito melhor. Com metade do time de imigrantes e mesmo refugiados de guerra.

A riqueza de franceses e belgas vestindo a mesma camisa é a base de uma nova Europa em todos os campos. Não só de futebol.