Blog do Mauro Beting

Croácia é a vitória do jeitinho

Mauro Beting

Depois de apenas empatar em casa contra a modesta Finlândia, em 6 de outubro de 2017, a Croácia tinha que vencer a Ucrânia em Kiev, para tentar chegar ao playoff como segunda de grupo difícil, liderado pela surpreendente Islândia, e com rivais chatos como a Turquia.

O que fez o “Coronel Nunesivic”, presidente de plantão da federação local? Demitiu no dia seguinte ao frustrante empate o treinador Ante Cacic, que desde 2015 comandava a seleção com desempenho modesto (ou compatível com seu status de treinador de currículo discutível). Ainda que tenha estreado bem na Euro-16 vencendo a Espanha, cairia diante da campeã Portugal. Nas Eliminatórias para a Copa, o time croata foi caindo pelas tabelas. Perdendo moral com torcida e imprensa pelos selecionados e escolhas. Perdendo o controle do grupo pelo ambiente.

A apenas dois dias do jogo que era necessário vencer na Ucrânia, Zlatko Dalic foi nomeado novo treinador. Não era a primeira escolha. Outros nomes foram contactados seis horas depois da demissão de Cacic. Só na manhã do dia do embarque o novo treinador acertou que iria para a Ucrânia para julho jogo que seria o primeiro ou o último. Conheceu os atletas no aeroporto no embarque para Kiev para o jogo 48 horas depois. O ex-volante e treinador de currículo de bons resultados na Arábia Saudita e Emirados Árabes em 13 anos de carreira aceitou o enorme desafio. Não tinha muito a perder. E só podia ganhar. Tinha que vencer. E, se não conseguisse, sairia em seguida.

Na estreia que poderia ser a única partida pela Croácia, Dalic mudou o time que empatara com a Finlândia (e que só não tem hoje Mitrovic na zaga como nomes que ele conta na campanha na Rússia). Em Kiev ele escalou Vida na lateral-direita, colocou Vrsaljko na outra lateral, escalou Lovren no miolo da zaga. Reforçou a entrada da área com Badelj, e avançou Modric para ser o principal articulador.

Sofreu com a pressão da Ucrânia no primeiro tempo. Principalmente quando Subasic largou (FOTO) um chute longo de Rakitiskyi que parecia fácil e a bola lambeu a trave esquerda. Antecipando em meses o desastre de Karius, companheiro de Lovren, naquela mesma meta do Olímpico de Kiev, na final da Liga dos Campeões, no gol do título de Bale, do Real Madrid.

Por centímetros, a Ucrânia não abriria o placar. Por dias, Dalic não chegaria ao banco no plano arriscado da Croácia. Se é que se pode chamar de plano.

No segundo tempo, num intervalo de 8 minutos, Kramaric aproveitaria dois toques de craques como Modric e Rakitic para fazer 2 a 0 e levar a Croácia ao playoff.

No sorteio, sorte. A fraca Grécia. Aquela protegida pelos deuses e diabos da bola na Euro-04 que venceu. Desta vez deu a lógica e futebol. Croácia 4 a 1 em casa. 0 a 0 em Atenas. Croácia classificada.

Azar no sorteio. Argentina no grupo. Coincidência: Islândia de novo. E a Nigéria que foi vencida sem sustos e nem brilho. 2 a 0. Mas um problema a resolver. Assim como no amistoso contra o Brasil em Liverpool (2 a 0 para Neymar e Firmino), e também em um treino antes da estreia na Copa, o atacante Kalinic não quis entrar no jogo. Alegou dor nas costas. Foi dispensado no dia seguinte por Dalic: “não está em condições de jogar, infelizmente não pode continuar”.

Sem crise. Sem papo.

Os 22 croatas seguiram. E pareciam 33 contra a Argentina no segundo tempo. 3 a 0. Na última partida, já classificados, eliminaram a Islândia que os havia levado ao desespero em Kiev. Nova vitória. E com quase todos os reservas.

Oitavas, com 58 segundos já tinha gol da Dinamarca. Com 4 minutos o empate. Na prorrogação, pênalti perdido pelo maior – Modric. Nos pênaltis, mesmo com Schmeichel defendendo dois, Subasic defendeu três.

Nas quartas, a dona da casa Rússia. Abriu o placar aos 30 no primeiro chute. Kramaric empatou 9 depois. Na prorrogação, Vida virou de cabeça. Do mesmo modo empatou Mário Fernandes. Mais pênaltis. Mais Subasic uma vez na cavadinha. Na outra Mário Fernandes perdeu. No final, mais uma vez, o Rakitic que tem gelo nas veias levou à semifinal.

Jogão contra a Inglaterra menos desgastada por ter atuado uma prorrogação a menos. Um golaço de falta contra aos 4 minutos. Desta vez o

empate só na metade do segundo tempo. E a virada na terceira prorrogação só aos 3 da segunda etapa. No primeiro gol de Mandzukic.

Não é nada tão bem planejado e com tanto dinheiro como essa Inglaterra que é para 2022 e quase foi em 2018. Não é tão bem estudado e jogado como essa Bélgica que talvez nunca será embora tenha jogado bem e se planejado como futebol ainda melhor com 8 escolas pelo país. Não é como a França quase foi há 60 anos na Suécia. Poderia ter sido nos anos 80. Quando em 1988 fez sua escola com trabalho de base que já deu aula mundial em 1998. Parou nos pênaltis em 2006. E pode ser bi agora. Merece mais um caneco pelo talento e trampo.

Mas têm coisas que nessa vida viram. Saem atrás e buscam o empate. Têm tempo extra e se superam. Não planejam e conquistam.

Tem essa Croácia que não deve ganhar a Copa. Mas mostra a todos que dá para chegar aos croatas e barrancos. Sem plano. Sem projeto. Sem organização.

Mas com algo que não se explica.

Apenas se aplica. E como se aplicam!