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Blog do Mauro Beting

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É o que temos. Brasil 0 x 0 Venezuela.

Mauro Beting

2019-06-20T19:00:32

19/06/2019 00h32

Antes de falar do empate sem gols e com VAR, que corretamente anulou dois gols (o segundo sem discussão, o primeiro, com alguma), dever lembrar a estreia brasileira na última Copa América no Brasil, em 1989.

A menos de 10 dias da partida inaugural na Fonte Nova, há 30 anos, o Brasil voltava de uma excursão desastrada na Europa. Marcada pela administração anterior de Nabi Abi Chedid, mantida pela nova gestão de Ricardo Teixeira (que começara em janeiro de 1989), e muito mal planejada desde que parida: foram quatro jogos em 10 dias! Os dois últimos em um intervalo de um dia!?

Resultados: derrotas para Suécia, Dinamarca e Suíça, e empate sem gols com apenas um atacante contra o mistão do Milan. Justificando o que comentou o meia brasileiro Silas ainda na Europa: "precisamos de dirigentes mais sérios no futebol brasileiro". Ricardo Gomes: "sem conjunto e sem treino jogamos mesmo apenas para não perder (do Milan reserva)…".

O técnico Sebastião Lazaroni também foi contra a excursão mal bolada e fora de tempo. "A Seleção só veio por motivos administrativos e financeiros da CBF". E seguiria ainda pior. A convocação para a Copa América foi feita apenas a seis dias da competição!?

Lazaroni chamou 24 atletas, mesmo sabendo (ou não) que seriam apenas 20 inscritos no torneio…

Juro!

E tinha menos!

Quando convocou os atletas no domingo antes da estreia contra a Venezuela no sábado, em Salvador, Lazaroni pediu pra todo mundo chegar no dia seguinte! Não havia tempo para nada! Os que atuavam fora do país tinham que chegar até terça-feira. Isso, claro, se chegassem ao Brasil. Porque era provável que os "italianos" Careca, Alemão, Renato Gaúcho e Muller só chegariam no dia do jogo…

Mozer, provável mesmo que não viesse, porque o Olympique de Marselha havia pedido a sua apresentação ao novo clube… E a Fifa nada fazia. Conmebol, ainda menos.

CBF? Tá legal…

E tinha ainda menos!

Campeão brasileiro de 1988 na final disputada em fevereiro de 1989, o artilheiro do Bahia Charles não estava bem na Seleção que estava ainda pior.  Havia jogado apenas 45 minutos (ruins) contra o Milan. A bola não chegou a ele no esquema com apenas um atacante (um acinte à época). "Tenho apenas 21 anos. Tenho muito o que aprender ainda também na Seleção".

Charles esperava mesmo não ser convocado para a Copa América. Justamente na sua terra natal, e onde brilhava e fazia gols pelo campeão brasileiro.

Ricardo Teixeira havia combinado com o presidente do Bahia, o deputado federal Paulo Maracajá, que Charles seria chamado de qualquer jeito. Até para aumentar a renda na Fonte Nova. Só faltou combinar com o treinador. Lazaroni não quis fazer uma convocação bairrista e política. Acabou pagando o pato, o burro e o canarinho.

Numa desventura em série de corar os Trapalhões. Siga a linha. Ou a falta dela:

Jornalistas baianos rasgavam ingressos dos jogos do Brasil na TV pela ausência de Charles. A pressão chegou ao ponto de Lazaroni retroceder e convocar dois dias depois Charles, com o argumento de que ele ficaria treinando junto com o grupo, preparando-se para as Eliminatórias da Copa de 1990, que começariam em menos de um mês (também contra a Venezuela, então de uma fragilidade abissal). Também porque Careca sentira lesão na Itália e Muller não parecia muito disposto a servir o Brasil. Além de Charles, o artilheiro do Espanhol, Baltazar (Atlético de Madrid), foi convocado.

Charles chegou a Teresópolis constrangido. Sabia que a convocação era mais para jogar pra galera do que para jogar na Seleção. O presidente da CBF o queria mais do que o treinador. Mas por motivos de bilheterias e paz mais do que pelo futebol naquele momento discutível.

Ainda no Rio, antes de embarcar para a Bahia, Lazaroni perguntava aos jornalistas paulistas se sabiam onde estaria Muller, que foi ouvido comentando a final do SP-89 na televisão. No dia seguinte ele apareceu na concentração na Granja e acabou sendo dispensado pelo treinador, quando edisse que apenas 20 seriam os inscritos, e Muller só ficaria treinando para as Eliminatórias.

Corte que também derrubaria Charles, que só ficou sabendo disso ao chegar em Salvador.

Quando a notícia vazou que ele não estaria na lista final dos 20 inscritos, o presidente do Bahia simplesmente invadiu a concentração brasileira e, na marra, tirou Charles do grupo, detonando o treinador, a comissão técnica, e a diretoria da CBF. Dois dias antes da estreia… E Maracajá ainda disse que Eurico Miranda, diretor da CBF, havia ameaçado Lazaroni de demissão por ter cortado Charles… "A responsabilidade pelo que vier a acontecer é sua, Lazaroni", falou o também cartola do Vasco

O treinador respondeu para Eurico e até para a imprensa: "não posso manter um jogador apenas por pressões políticas".

A bagunça era tamanha que o treinador realmente pensou em pedir o boné. E na ausência de um dirigente, quem anunciou à imprensa os outros cortados por excesso de contingente (o goleiro Zé Carlos e o meia Bismarck) foi o COZINHEIRO DA ENTIDADE…

Juro!!!

Também por isso, em vez dos 80 mil torcedores esperados na Fonte Nova, pouco mais de 8 mil foram ao estádio, no sábado à tarde. Quase todos para vaiarem o Brasil desde o Hino. Aplaudirem o primeiro gol da história da Venezuela contra a Seleção. Vaiarem os três gols brasileiros. Gritarem "olé" em jogadas dos rivais. Queimarem uma bandeira brasileira. Atirarem pedras, pilhas, cascas de laranja e mexerica contra atletas. E até um ovo na cabeça de Renato, que acabara de chegar da Itália no mesmo dia da estreia…

"Não fomos nós que cortamos o Charles", disse o meia Valdo. O atacante baiano Bebeto: "triste ver na minha terra a nossa bandeira queimada…"

A pressão foi tamanha que Lazaroni falou que não sabia se seguiria como treinador depois do torneio pela discussão áspera com Ricardo Teixeira por Charles. "Infelizmente o treinador pensou de outro jeito e não deixou Charles no elenco", afirmou publicamente o presidente da CBF.

O presidente da federação baiana foi agredido na tribuna pela ausência do goleador do Bahia.

No frigir das bolas: já vivemos dias muito piores.

E, ainda assim, viramos o jogo e a história. Nove dos convocados de primeira hora por Lazaroni, em 1989, mesmo com tanta bagunça, cinco anos depois seriam tetras pelo Brasil, nos EUA, em 1994.

Mas algumas coisas seguem as mesmas. O gramado da Fonte Nova, em 1989, era péssimo, também pelas chuvas pesadas. A drenagem não conseguiu ser refeita. O replantio não deu certo. Uma trave era maior do que a outra, havia denunciado o goleiro Taffarel, hoje treinador dos goleiros brasileiros.

Num gramado que também não está bom em 2019. Como também não foi boa a partida brasileira contra a boa Venezuela de cinco vice mundiais sub-20 em 2017. De boa organização defensiva e alguns perigosos contragolpes no primeiro tempo. Salva pelo VAR em dois lances.

Mas que nem por isso justifica a atuação frágil do Brasil na Bahia.

Não horrível. Mas que carece de algumas reflexões.

Para não dizer mudanças mesmo. Ou ajustes mais do que necessários. Como Arthur que não infiltra e não pisa na área. Coutinho que se afunda demais nela e abre rombo que os laterais por dentro não suprem na criação no meio-campo. O discretíssimo desempenho de Firmino. David Neres que pode mais. Everton Cebolinha que merece muito mais tempo em campo.

E todos nós que merecemos muito mais.

Talvez repetindo a fase final de 1989. Não o péssimo desempenho em horroroso gramados nos 3 primeiros jogos daquele ano.

Conhecer a história é essencial para corrigir nosso presente. E para ter algum futuro.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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