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Blog do Mauro Beting

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Experiência única de Flamengo x torcida única em qualquer lugar

Mauro Beting

22/07/2019 17h09

Tenho um amigo que virou Flamengo quando chegou há 31 anos no Brasil, saindo ainda criança do país natal em que o pai era perseguido pela ditadura. Ele tinha quase a mesma idade do filho que hoje mora perto da fronteira com o Uruguai.

Cria que também é Flamengo de pai. Mesmo não podendo morar com ele. Mesmo tão longe.

"Cheguei a pensar que não iria conseguir ir com meu filho a um estádio. Moramos longe. O ingresso está cada dia mais caro. A vida, ainda mais. Mas quando o vi entrando comigo em Itaquera, ali na Arena esperando o clássico, se emocionando com a entrada da nossa torcida, vendo a zoação do dono da casa… A provocação deles com o gol de pênalti. A tristeza dele com a derrota até o fim… Tudo valeu a pena".

Meu amigo queria pelo menos uma vez na vida celebrar com o filho rubro-negro um gol no estádio.

"A gente até podia perder por 3 a 1 para o Corinthians. Mas eu precisava desse gol com meu filho na arquibancada!"

E teve o empate do Flamengo aos 39. Mas o bandeira marcou impedimento do Gabriel. A celebração do André foi interrompida.

Entrou o VAR em campo. A carvão. Lento. Parecia movido a lenha. Mais 5 minutos e 51 segundos lá até o gol enfim ser validado. Celebração dupla. Dois gritos de gol. Parecia a virada. Para pai e filho foi mesmo.

"Quando eu cheguei eu estava muito feliz. Foi o dia mais feliz da minha vida ver um jogo no campo pela primeira vez. Dava pra ver bem direitinho os jogadores. Minha torcida começou a gritar, cantar e foi muito legal. Eu fiquei bem triste com o gol deles. Daí eu comecei a ficar bem bravo com o juiz.

Comemorei duas vezes o nosso gol.

Senti mais que a gente ganhou o jogo do que eles". Palavras do André, 11 anos.

Mesmo sem ainda encontrar palavras, meu amigo torce para que essa seja a primeira de muitas torcidas juntas com o filho. "Foi uma experiência única. Espero que não seja mesmo única. Meu filho vai ampliar e imprimir esse ingresso para colocar na parede do quarto".

O futebol e o Flamengo não são apenas um ingresso na parede. São o portal para uma experiência única entre pai e filho. Que não seja única. Como não pode ser jamais "torcida única".

É preciso saber ganhar e perder. Zoar e ser zoado. Conviver contrários. Até para os que os próximos distantes como Escobar e André se reencontrem num abraço de gol que não tem Estado a separar. Só uma camisa que veste dois e milhões. Como um gol celebrado por dois.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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