Blog do Mauro Beting

Cuspir ou engolir Neymar?
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Mauro Beting

Pelé cego e pé-frio. Senna viado. Ronaldo gordo. Neymar moleque. 

Guga legal – mas esse é de outro planeta, como se viu de novo na Globo. Como também é Pelé, só que não O idolatramos como deveríamos (levando demais em conta os erros de Edson). 

Com razão ou apenas difamação, o brasileiro médio e abaixo da média trata os muito acima da mídia desse jeito sem o menor jeitinho brasuca. É só porrada. É só pancada. 

Neymar é o bolão da vez. Escreve AQUI Rica Perrone, em seu blog: 

“Nenhum atleta olímpico toma porrada o ano inteiro, todos os dias, e é cobrado individualmente por um coletivo. Nenhum deles tem a importância de um jogador de futebol da seleção brasileira e portanto ninguém ali sabe o que é ser capitão da seleção.

Aos 24, campeão de tudo, cobrado como se fosse um Pelé maduro aos 30, Neymar precisa aceitar ser um moleque e aceita.

Ele erra, faz biquinho, fica puto, decide o jogo, xinga de volta, sobe na arquibancada, abraça a (ex)namorada e recebe o filho no gramado. Neymar é Neymar, não é o cara que você decidiu que queria pra capitão da seleção.
Porque diabos você acha que um ídolo deve ser como você espera que seja e não como ele é? Quem você acha que é pra saber sua reação após apanhar por 15 dias 24h de todos os lados e com a medalha no peito ouvir uma ofensa?
Ele bateu no rapaz? Não, só mandou tomar no cu. Que aliás, é algo bem justo considerando que o mandam pro mesmo lugar o dia inteiro em todos os lugares do mundo. Especialmente no Brasil, onde sucesso é crime.
Esse moleque que vocês querem moldar numa forma de Messi, nos deu a medalha que ninguém havia dado. Esse pivete cheio de marra que vai pra noite sem se esconder de fotografo e que quando não tá afim não dá entrevista pra imprensa, é o cara que resolveu a final da Champions League e a da Libertadores antes dos 23 anos.
Você quer mesmo meter o dedo na cara desse moleque?'' 

Queremos, Rica. E metemos. E matamos um pouco de tudo que ele nos revive. 

Neymar não é o Serginho filho da dona Didi de Pirituba, esse monstro bi olímpico do Escadinha, craque de 40 anos que parece jogar há 40 décadas com maturidade de 40 séculos e garra de 40 semanas. Como Neymar filho da Nadine então de Mogi das Cruzes não é igual ao filho da dona Didi, ao filho da dona Lucila do Ipiranga (Mamma, põe macarrão na água que eu estou chegando), ao filho querido da sua mãe e a muitos filhos da mãe.

Neymar é filho da paixão do futebol. É filho da riqueza das boladas. Filho das baladas do status e do glamour, que são commodities tão uppadas que shippamos por elas (e só usamos estrangeirismos para falar delas, de tanto que gostamos delas…) 

Nenhum atleta é tão adorado e querido como também parece que amamos odiar Neymar. Ele e alguns mais. Sou suspeito para elogiar esse menino. Mas acho mais suspeito alguns o detonarem só por criticar. 

Ele ganha ainda mais dinheiro com as redes antissociais do mesmo modo como perde muitas coisas com ela. O que ele faz nas folgas não é diferente do que se fazia antes sem smartphone. A diferença é que ele ganha muito mais e aparece ainda mais. Mas a festa e farra são iguais a que muitos já fizeram. E não só os Bad Boys. E não só nos últimos 30 anos. 

Neymar, como craque que é, tem de responder pela bola mais do que pela boca. Mas é fácil falar quando não se é cobrado por tudo e também por nada. Ele pode e deve falar mais com a imprensa. Pode aproveitar para desabafar usando o mesmo microfone que o critica. Tem todo o direito ele e qualquer um de não querer falar. Mas quando é protocolo, está no contrato, precisa jogar o jogo da mídia. Fala qualquer coisa para evitar que falam qualquer coisa também. 

Neymar precisa saber driblar também fora de campo os marcadores da mídia com e sem modos. Tem de ter a mesma visão cada vez mais apurada de jogo para bater bola com quem bate nele. Do que critica por ser critico contumaz. Por detonar por não gostar dele. Por arrasar por ter inveja e ciúme. Pecados capitais ainda maiores com quem tem mais capital. 

Neymar é abusado. Ousado. E nem sempre consegue ser alegre. Por isso vai continuar sob marcação cerrada. Romário era meio assim. Genial igualmente, não dava a menor pelota, porém. Apreciava ser cobrado a ferro e fogo. Gostava de jogar contra. E quanto mais gente tivesse contra, mais animado e afinado se sentia. 

Neymar não é assim. Ele quer ser querido. Ele gosta do assédio. Trata com naturalidade. Mas é só ele que é tanto cobrado. Só ele é quem pode dar o que se pede hoje. 

Por isso sofre o que Romário meio que jogava e andava. Por isso Neymar precisa cada vez mais não ter 24 anos. Por isso a Olimpíada fez tão bem a ele quanto ele fez para o Brasil. 


Rio 2016 e tombo em 2020
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Mauro Beting

Olimpíada é maratona, por definição. Precisa ter resistência, perseverança e resiliência. É longa. Mas é mesmo curta. 100 metros rasos e ralos e raros. 
O melhor momento olímpico não dura 10 segundos. Bolt! Ou pouco mais que nada: Phelps! Mitos que o Rio viu e que ninguém mais vai ver. Em qualquer água, incolor ou verde. Amarela linha nada tênue que nos deixou vermelho. Mas com mais graça que Lochte. Perdido na ilha de mentiras. Mantra de que Na Hora Sai da pátria da gambiarra com garra na Barra, que ganha no Maraca, que vence em Deodoro, que empolga no Engenhão, que integra a gente desterrada pelos Jogos, que grama o povo que gramou para poucos de fato ganharem. 

Desenvolvimento que não devolve tantos benefícios. Legado para os netos de Paes mais para lá que Maricá. Evento levado pelo umbigo com o vento forte que derrubou a luz no último dia na Barra e o teto dos mais fortes que ainda têm de cristal. Não teve terrorismo que aqui não tem. Mas segue o cotidiano da violência urbana que quebra recordes. Teve a simpatia dessa gente de Gugas sem medalha contra essa muralha de presidente ausente e presidenta impedida enquanto samurais e Marios Bros ministros do Japão antecipam a festa deles. 

Foi muito melhor que a encomenda. Claro que, como a vida, poderia ter sido melhor. Para quem torce e para quem distorce. Para quem paga e para quem não foi pego.  Para os voluntários desinformados, para as lanchonetes sem comida nas praças esportivas, para os preços abusivos para serem presos. Mas foi o que deu para fazer. Inclusive lá dentro. A meta do COB de pódios não foi batida. Quem de fato esperava? Mas a lista de top-10 foi melhor que o imaginado. É o que de fato importa. 

O Complexo de Mutley de Nuzman, o cartola que quer MEDALHA, MEDALHA, MEDALHA para o “yellow and red'' nacional (e que ainda deve estar terminando a metade do discurso da bela cerimônia de encerramento), não é a solução para o esporte brasileiro. Investir na base é o caminho. Os projetos estatais desenvolvem muito mais os esportistas vendedores e vencedores que o esporte que quer ganhar saúde, educação e lazer para o povo que não quer só pódio, quer poder ser campeão em qualquer campo. 

O Brasil segue sem política esportiva, apenas com políticos no esporte e alguns apenas por esporte. O país segue sem quadras nas escolas e sem professores nessas quadras. Grandes resultados em modalidades campeãs como futebol e vôlei acontecem sob administrações contestadas. Vencedores como Isaquias nascem das águas de uma cidade de canoas, com o incentivo SIM de projetos do governo, mas com milhares de “nãos'' a atletas negados ou renegados nas canoas furadas e cofres frustrados pelo ouro roubado pela incompetência ou pela ladroagem com timoneiro e sem temor. 
Mas mesmo com tantos que zikaram ou urubuzaram, não foi nem o fim e nem o começo da picada. Não seguramos vela para defuntos e objetos mortos como pneus e sofá na Baía que viu a família Grael ser mais uma vez ouro. Não despoluímos. Mas fomos além de qualquer outra Olimpíada. Não mitigamos a fome, mas não matamos o tanto que desmatamos. Não ganhamos o que o Comitê Medalhista Brasileiro pretendia, mas conquistmos mais do que nunca. 

No mais, o que o amigo Eduardo Castro postou e protestou: 

“Na Olimpíada da Grécia, um padre doido arruinou a maratona, invadindo a pista. Na China, perderam a vara da Fabiana Murer. Na de Moscou, a transmissão de TV era tão ruim que vários jogos foram exibidos em VT, pois o sinal simplesmente não chegava. Na da Alemanha, um atentado matou 11 pessoas. Em Atlanta também teve.

Na Copa da França, foi tanta greve durante o evento que até o Louvre ficou fechado. Da Córéia, roubaram tanto pro time da casa que até a torcida pedia desculpas. Na África do Sul, durante os jogos no Soccer City, o fim do Soweto ficava às escuras, pois não tinha energia pra tudo junto. Na da Espanha, um sheik invadiu o campo e mudou o resultado de um jogo, mandando um juiz anular um gol contra o Kuwait. Na da Inglaterra, roubaram a Jules Rimet, que foi encontrada no lixo, por um cachorro.

Na nossa Copa, só teve vexame esportivo, o nosso 7 a 1. Na nossa Olimpíada, quem passou vergonha foi um quarteto de nadadores americanos.

Lamento profundamente por quem torcia por um fiasco.''

Não foi fiasco para merecer assovio. O fisco que esteja de sobreaviso. 

Mas, lá no fundo, lá onde estão os desalojados pelo shopping esportivo, o importante é competir. 

O Rio competiu. 


Tite convoca parte 1. Equador e Colômbia. 
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Mauro Beting

GOLEIROS:

Alisson estaria na minha lista. 

Marcelo Grohe também. 

Weverton, não. Meu goleiro seria Diego Alves. E titular. O que não tira os méritos do goleiro campeão olímpico. 

LATERAIS-DIREITOS:
Daniel Alves é meu titular absoluto. 

Fagner já merecia a primeira chance. 

LATERAIS-ESQUERDOS:

Marcelo é absoluto. 

Filipe Luís fica com a vaga pela experiência. Mas Douglas Santos e Alex Sandro estão se aquecendo na briga. 

ZAGUEIROS:

Miranda. Absoluto e capitão. 

Marquinhos. Sem o lesionado Thiago Silva é titular.

Gil. Vinha sendo chamado, Tite o conhece, e merece seguir. 

Rodrigo Caio. Geromel seria o meu convocado. Mas o são-paulino fez ótima Olimpíada, está entrosado com Marquinhos, e pode atuar como volante. Muito útil. 

VOLANTES:

Casemiro é titular. 

Rafael Carioca é ótimo nome. Mas preferia Walace, ainda que menos experiente. 

Renato Augusto. Excelente Olimpíada. Titular. 

Paulinho. Não o vejo jogar há mais de um ano. E não o vejo jogar bem desde que o via, até a Copa-14. Ainda preferia Elias. Mas Tite o conhece muito bem. Foi com ele a melhor fase, em 2012-13. 

MEIAS PELA DIREITA:

Willian. Titular absoluto 

Giuliano. Estava bem no Grêmio, e sabe rodar o ataque. Mas eu ainda preferia Robinho do Galo, pela experiência, técnica, fase e por saber jogar muitas vezes melhor na Seleção que no clube, além de aceitar numa ótima a reserva do Brasil. 

MEIAS CENTRAIS:

Lucas Lima – Apesar da fase irregular pelas lesões, joga fácil. Pode até ser titular. 

Philippe Coutinho – Potencial para ser titular, também roda bem o ataque. 

MEIAS PELA ESQUERDA:

Neymar. Embora no meu time jogaria rodando entre o centro de ataque e o lado esquerdo, revezando com Gabriel Jesus. 

Taison – Foi muito bem com Tite em 2009. Cresceu nas últimas temporadas na Ucrânia. Mas eu não teria levado. E imagino que só foi convocado pela lesão do absoluto Douglas Costa. Eu chamaria Ricardo Oliveira como mais uma opção de área, em ótima fase, experiente e cascudo. Embora, pensando bem, Luan…

ATACANTES:

Gabriel Jesus. Está na hora de ser testado na principal. 

Gabriel. Precisa de mais chances na principal, e, como o xará, faz várias funções. 

Enfim, é boa e diria surpreendente a lista de Tite. Eu trocaria seis nomes, o que está dentro da média de qualquer treinador e cornetarista. 

Gostei ainda mais das explicações do treinador sobre o tema e o fundamental que nem todo técnico de Seleção adota: com quase nenhum tempo de treino, ele pretende conversar muito com os atletas. Tentando deixá-los mais em casa, mais próximos daquilo que fazem e gostam em seus clubes. 

O meu time titular seria Diego Alves; Daniel Alves, Marquinhos, Miranda e Marcelo; Casemiro; Willian, Elias, Renato Augusto e Neymar; Gabriel Jesus. 

O que deve ser o de Tite: Alisson; Daniel Alves, Gil, Miranda e Marcelo; Casemiro, Willian, Paulinho, Renato Augusto e Gabriel Jesus; Neymar. 

O posicionamento de Neymar e Gabriel deverá ser dinâmico. Com a bola, os dois vão se revezar. Sem a bola, GJ acompanha lateral rival. 


O alguém mais do vôlei tri olímpico
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Mauro Beting

reprodução: TV GLOBO

O time de vôlei de Volta Redonda foi desativado há algum tempo. Em 2013, ele tinha um torcedor, corneteiro, “assessor de imprensa'', motivador, pegador de bola, auxiliar técnico, exemplo. 

Nosso amigo Daniel Barud. 

O sonho dele era ser o que foi aqui no blog e em outros espaços. Jornalista esportivo. Esportivo mesmo. Manjava muito de futebol. E também de outros esportes. Sobretudo o vôlei que acompanhou dentro da quadra, na arquibancada, e pela TV. A fibrose cística que o levaria mais cedo não o deixou ser atleta. Mas deixou a quem o conheceu uma vontade de ser qualquer coisa. 

Ou melhor: ser igual o Daniel. 

Ele sabia que o jogo da vida era dificílimo como a semifinal contra a Rússia. Como a doença que o venceu em junho, o Brasil tinha poucas chances. Mas mestres como Júlia e Estanislau, os Bernardinhos do Daniel, são de ouro. Duas vezes ouro, duas de prata – que não dá para ganhar sempre. Mais dois bronzes femininos, e a primeira prata levantando a bola, em 1984. Como o Daniel sempre ergueu moral e sempre colocou as coisas certas, Bernardinho e os pais erguem catedrais. 

Barud não pôde viver como Escadinha. Nasceu aliás apenas dois anos antes do primeiro ouro do Serginho, esse menino gigante de quatro Olimpíadas e 40 anos. Mas ele se defendeu e nos defendeu, e ainda dando e se doando com os passes precisos e perfeitos como só quem tem a garra e a gana de Escadinha para ganhar todas. Agarrando chances. Lutando por pontos que todos já entregavam ou já achavam perdidos. Menos Serginho. Aquele que além de jogar por todos e pra todos, ainda chamou o grupo para tirar o Brasil daquela UTI contra a França. E eles jogaram também por ele. Como a família e os amigos se uniram pelo Barud.  

Daniel é Bruno levantador. Filho do homem, herdeiro de gênios, e que carrega sobre os ombros cargas que não merece. E as descarregou com garra. E armou com naturalidade. Superando-se. Como Daniel sempre foi além das limitações. 

Daniel é Lucarelli, outro que joga muito, e que precisou superar dores para atuar como um amador. Aquele que ama. E supera a dor da lesão nas quartas. Jogando por prazer. 

Daniel é Lipe. Estava no cantinho dele até ser chamado, devastar nos saques, e levantar o Maracanãzinho com a potência do cara que assume a bronca. 

Daniel é Lucão e também Maurício Souza. Podem atacar que eles vão bloquear. Vão subir antes, vão encher a mão antes, e vão honrar os gritos de Romulo Mendonça. “Ali, não, suas lambisgóias''. 
Daniel é Éder. Evandro. William. Mauricio Borges. Douglas Souza. Campeões. 

Daniel é Wallace. Estava bloqueado? Ponto! Estava difícil? Wallace. Estava perdido? Wallace. Estava fácil. Wallace! E mais alguma situação? Wallace! 

E tchau, Rússia. E ciao, Itália. Favoritas despencadas e depenadas em dois 3 a 0. 

Para a festa que eu não esperava no vôlei. Para as vitórias que não eram prováveis. Tudo aquilo que eu deveria ter aprendido com o Daniel. Tudo é mais possível quando se sabe. E quando se quer até sem saber como. 

O sonho dele era ver o sonho que foi realizado por esses caras. 

O sonho que, agora, eu sei como eles conquistaram. Com aquilo que os atletas têm, e poucos, na história de qualquer esporte, conseguem extrair como Bernardinho. Com aquele tal do “algo mais'' de cada um.

No caso, com o “alguém mais '' que não pudemos ver na quadra. Mas sei que ele estava lá no Maracanãzinho. 

Você é campeão, Daniel. 


Vasco, 118. Maracanã, um dia. 
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Mauro Beting

Hoje é aniversário do Vasco. 118 anos. Ontem foi dia de ouro no futebol. Fim de 64 anos de fila desde a primeira disputa brasileira, em 1952. Dois anos depois do Maracanazo. Quando a base do Vasco foi vice do Mundial mais previamente conquistado, mais postumamente exumado. 

Brasil de Barbosa. Goleiraço do Expresso da Vitória vascaíno. Goleiro expressamente condenado pela vida pelo gol que não foi falha. 

Goleiro negro como Jaguaré. Primeira mão de obra qualificada brasileira que jogou fora do país. Negro como os campeões cariocas de 1923. Negro como o Vasco se negou a vestir a toga alva das elites que não queriam negros em campo mesmo pintados de branco. 

Vasco que faz festa depois da primeira grande farra intercontinental da Seleção no Maracanã. Vasco que faz festa no dia de apagar a velha chama olímpica na cidade maravilhosa como foi a Olimpíada. Como é a Olimpíada. Como é o Vasco neste domingo de festa. Como é o Vasco em mais uma segunda de inferno. Como é o vascaíno e qualquer torcedor que sofre no Maracanazo e vibra na vitória de ouro. 

Barbosa não merecia a perseguição eterna. O vascaíno não tem merecido a danação dos últimos anos. Mas tudo vira na vida. Naquela meta de Ghigghia a bola de Neymar entrou, a de Weverton, não. Três bolas foram no travessão. Os alemães não foram campeões. 

Tudo tem volta. O Vasco está voltando. 


Boa noite para quem tem sonhos dourados. Péssimo dia para quem só toma ferro.
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Mauro Beting

Só será possível devolver os 7 a 1 do Mineirão se o Brasil repetir o placar em uma semifinal de Copa do Mundo em Berlim, ou Munique, Hamburgo, Dortmund, sei lá onde na Alemanha, e, na final, a Seleção ganhar da Argentina e conquistar o Mundial.

Provalmente não acontecerá.

Do mesmo modo como não devolvemos o Maracanazo de 50 na virada da semifinal de 1970 contra o Uruguai. E não tem jeito de devolver a derrota de 1950. Essa é irreversível pelas circunstâncias.

E nada disso impediu de fazer festa como nenhum outro campeão mundial. Penta mundial.

Tão irreversível foi 1950 quanto a doença que se alastra em 2016 em rincões do Brasil minimizando a conquista olímpica, a alegria da torcida, e até o pachequismo – de fato exacerbado em qualquer momento.

Mas conquista inédita precisa sempre ser reiterada como conquista inédita. Um gol tomado em seis jogos é pouco. Não era a Alemanha principal, mas ela é muito melhor planejada e armada que o Brasil. Não foi o melhor futebol no começo. Mas o final foi ótimo. Foi nos pênaltis – como em 1994. E, se não há mesmo como comparar tecnicamente as equipes do tetra e do ouro, até por a de 2016 ser restritiva de idade, deve-se de novo louvar os propósitos:

Em 1994, eram dois volantes e dois meias presos taticamente. Um gênio no ataque e um senhor atacante.

Em 2016, os campeões olímpicos têm um só volante, um meia armando como volante, e quatro atacantes (e um gênio em potencial entre eles).

Estamos evoluindo. Indo e jogando pra frente. O ouro não é fim. É um recomeço.

Vai dar mais força a quem tanto nos enfraquece dentro e fora de campo? Vai. Mas sempre foi assim no penta.
Vai encobrir os problemas da Seleção principal? Não. É outro time. Outro técnico. Outras necessidades. Outras carências. Mas vai dar mais confiança, menos cobrança, mais respeito, mais paciência. Jamais um sucesso é fracasso.

Melhor dormir feliz com sonhos reais dourados do que resmungar só querendo ferro na nossa alegria.

Mas se você quiser ainda minimizar, a Alemanha segue tendo mais Mundiais conquistados no Maracanã que o Brasil. 


Eles estavam lá. Brasil 1 x 1 Alemanha. 5 x 4 nos pênaltis
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Mauro Beting

Aquelas traves quadradas de madeira do Maracanã foram trocadas no início dos anos 1960 por modelos arredondados. Ordem da Fifa. Diretor do estádio, Abelardo Franco resolveu doar o material para um novo funcionário do futuro Mario Filho: Moacyr Barbosa. Goleiro do Brasil no Maracanazo de 1950. Goleiraço que levou nas traves da direita das cabines o gol de empate de Schiaffin0, e o da virada fatal de Ghigghia. Nenhum deles foi  culpa do maior goleiro da história do Vasco. Mas até morrer, Barbosa foi declarado “culpado''.

Moacyr Barbosa não gostou do “presente'' de intenção mais duvidosa  que o gosto do patrão. Relata o colega Bruno Freitas, no ótimo livro “Queimando as Traves de 50″, na história contada primeiro pelo goleiro a Roberto Muylaert; quando ganhou as traves malditas, Barbosa não quis papo, só churrasco: queimou em Ramos as metas de madeira em uma ceia para os amigos.

As traves da direita do Maracanã. Aquelas onde Gotze fez o gol do tetra mundial alemão, em 2014. Aquelas 0nde a muito bem armada Alemanha sub-23 de Hrubesch, que não veio completa ao Rio-2016 (mas tem um treinador há 16 anos trabalhando a base), mandou três bolas no travessão no primeiro tempo. Quando a Alemanha chegou mais vezes que o Brasil. Mas foi Neymar, aos 26min21s, que bateu uma falta de Zico no Maracanã, chutando todas as zikas, zicas, urucas, abutres. Um golaço de Neymar.

Aos 28min48s, dois anos antes, houve um jogo que não se devolve, não se compara, não tem revanche, não tem revide, não tem Copa, não é sub-23; nesse exato momento, estava 5 a 0 Alemanha. Nesse momento, a foto mostra abaixo, o Brasil olímpico trocava bola na defesa. Esperando uma Alemanha que ao final dos 45 minutos iniciais mandaria três bolas naquelas traves.


Três bolas no travessão.
Os deuses da bola voltaram a tabelar com o Brasil. Mesmo que, aos 13min36s do segundo tempo, falha na saída de bola de Walace, erro no bote de Rodrigo Caio, nova hesitação do zagueiro, falta de atenção do volante, tudo combinado deixou Meyer se sentir em casa, ali pertinho do Maracanã: 1 a 1.

Jogo lá e cá. Mais lá dentro de Horn que perto de Weverton. O Brasil acabou melhor, ainda que Gabriel não estivesse bem, e Gabriel Jesus, só um pouco melhor. Nos 30 minutos de prorrogação, o Brasil acabaria ainda mais próximo de fazer 2 a 1. Foram 10 chances brasileiras, oito alemãs. Uma grande partida, com ótimas atuações de Neymar e Renato Augusto. Uma pena que decidida nos pênaltis.

Onde? Na mesma meta à direita. 
Onde o Brasil das meninas fora eliminado na luta pelo ouro contra a Suécia. 

Na mesma meta onde um goleiro como Barbosa fora crucificado sem razão. 

Onde um goleiro do Acre onde as urnas demoram a ser fechadas nas eleições, um goleiro que também foi o último a chegar no grupo, foi o goleirão que é nos pênaltis. Do mesmo Furacão de Caju goleiro. Do mesmo pé apareceram as mãos de Weverton.

Substituindo um cara que todo jogo na Olimpíada e todo o jogo no Rio imaginei no lugar dele na meta. Tenho certeza absoluta que ele esteve lá em todos os momentos ajudando o colega. Por isso, também, a nossa meta enfim foi conquistada.  Ele esteve lá. Ele também é ouro como Weverton. É Prass. O nome merecidamente mais visto no peito dourado dos colegas campeões. 
É o Brasil de Neymar. O cara que não estava lá no Mineirazen. Se estivesse, possível que não mudasse o resultado, apenas o placar.

 

Ele fez muita falta em 2014. Mas a falta que ele fez em Horn, em 2016, é para guardar nos olhos e engolir o choro e as críticas.
E não queimar as traves. 

Até porque o nosso gol, o de Neymar, também teve ela sendo beijada antes de a bola entrar.

O Brasil enfim é ouro. Não o final. Mas o recomeço do futebol. De um treinador arejado e ousado como Micale. De laterais que atacam mas sabem guardar posição. De dois zagueiros muito eficientes como Marquinhos e Rodrigo Caio. De um volante que sabe jogar como Walace. De um todocampista como Renato Augusto. De um iluminado Luan que joga em todas. De Gabriel que é 100% Jesus. De um Gabriel que não foi tão gol. 

De um Neymar. De ouro. 

 

 


Omran e glória. A ilha de Lochte. Os jogos verazes.
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Mauro Beting

– Vem, Omran, vem ver essa corrida. O moço corre mais rápido que o Super-Homem!

– Tô brincando de carrinho, pai. 

– Vem, filho. Você não vai esquecer nunca mais. 

– Não quero, pai. 

– Corre, Omran. É rapidinho. Não dura nem 10 segundos. 

BUM!

Não foi um raio como o usual Bolt passando pela sala. Foi uma bomba normal em Aleppo. Uma daquelas que já mataram quase 5 mil Omrans em 5 anos de guerra. Os cinco anos de Omran são cinco sem paz. 

Ele, os irmãos e os pais sobreviveram ao bombardeio que minutos depois derrubaria todo o edifício onde moram na Síria. Onde forças que não interessam guerreiam há cinco anos contra forças que não interessam a respeito de algo que não interessa a todas as fraquezas. Até por pouco levantarmos a bunda do sofá e olhar para os Omrans como se fossem os meus Luca e Gabriel.

Não nos interessa. É triste. É pesado. 

Omran está na ambulância depois de ter sido salvo. Até a próxima bomba. Passa bem agora. Só nós é que não podemos só ficar passados. 

Ainda mais quando estamos com 206 países (ou mais) no Rio competindo em duas semanas de muita festa, medalha e, mais que tudo, respeito. 

Se dá pra gente passar um tempinho superando limitações, será que não daria para um tempão da vida a gente não tapar os olhos para o mundo que está uma bomba?

O encerramento dos Jogos poderia ser o recomeço dos entendimentos. Que comecem os jogos verazes. Mas isso é algo que passa mais rápido que o Bolt. 

Segunda-feira já volta a ser aqui uma ilha de Lochte. Um ponto perdido como bala no país que celebra a mentira descoberta que não encoberta a verdade que é a violência urbana. A intolerância institucional. Lochte também mentiu feio por saber que aquela lorota cola no país que não pega quem paga. No Brasil onde qualquer desculpa esfarrapada é verossímil. Arame farpado não cerca quem sabe escapar. 

A cidade olímpica é um parque de diversas modalidades de tiro. As capitais caóticas não-olímpicas não têm legado esportivo e nem moral para cobrar nada além de imposto. O brasileiro é que vai pagar a conta que não fecha. Quadro de metralhas que roubam nossos cobres. Mortalhas que escondem nosso riso amarelo de tão verde que apagamos do mapa. Mortadelas e coxinhas no mesmo prato raso e ralo.  

Omran está em choque como a gente. Só que o mundo se cobre de fuligem de quem finge que não vê. 

Não sei se ele viu o Bolt. Eu pude ver ontem, não mais que 30 metros dos meus 7,5 de miopia e utopias. O que sei é que a vida tem sido meio que a emoção que o jamaicano nos dá em cada prova que vira festa para ele. Por menos de 20 segundos a gente sonha que o homem vai muito além de tudo que desejamos. Mas basta passar pela linha de chegada para tudo ficar muito devagar. Todo mundo correndo atrás. E quase ninguém chegando. Muitas vezes, não por falta de capacidade de quem se esfola. Apenas vontade de levantar da poltrona e cobrar quem está no trono. Arregaçar as próprias mangas para cuidar de quem como Omran vê o mundo desabar sobre a cabeça e sob os pés. 


Família Schmidt domina a Graelândia
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Mauro Beting

Dona Janira apareceu na TV rezando, contrita, nervosa com a final do vôlei de praia. Ela e muitos brasileiros que torciam por Alison e pelo neto dela, Bruno Schmidt, na disputa contra os italianos Nicolai e Lupo. 

A única diferença real entre ela e milhões é que, de fato, o netinho já havia vencido o ouro, de modo brilhante, por 2 a 0. Já estava tudo definido e dominado. E ela rezando como se tudo nem tivesse começado. 

Mas vai ver que é por isso mesmo que o neto Bruno e os filhos Oscar e Tadeu são tão vencedores e talentosos. A fé da vó não faia. 

Não é só reza. É oração e ação a toda hora. Era o Oscar que ficava encestando até ele cair como as bolas que ele chutava. É o Tadeu acertando a edição e o tom no programa que apresenta como nenhum outro. É o Bruno pensando, passando e passeando na Princesinha do mar. 

Família abençoada não só pela fé da avó. Por aquele genes que explicam algumas gentes que não são como a gente. São diferentes. Trabalham para isso. Mas com enorme prazer e paixão. Segredo de tudo. 

É o que faz a Graelândia (TM de @impedimento) ser um país dentro do Brasil olímpico. Oito medalhas entre tio, pai e filha Grael. O primeiro ouro feminino do país na vela não foi só por elas adotarem outras estratégias em relação às meninas da Nova Zelândia. Não foi só o atalho que acharem na Baía não despoluída. Elas não driblaram apenas sofás largados, pneus atirados e plásticos que petrificam as águas da Guanabara. Martine e Kahena ganharam por uma parceria que foi desfeita, recomeçou e deu ouro. Conquistado em casa. Nas águas que conhecem de batismo. 

O pai Torben é mais que pai. É chefe do time. Responsável por todos que singraram a água. E só sacou que era um pouco mais que isso quando perguntando pela colega Daniela Boaventura: como seria ele torcendo pela filha? Foi então que caiu a ficha. Ele não sabia.  Se tem como saber administrar isso. 

Tem atleta e campeão olímpico que algumas vezes não tem berço esportivo, e mal tem lar. Mas tem quem tem condição, tem DNA, QI, tem números, mas nem sempre os índices. Ou o instinto. Martine e também Kahena têm. E vão ter muito mais. 

A família Grael, na Marina da Glória, cantou Marina Lima: eles abriram os braços e fizeram um país. Como os nossos pais. 

Segredo conchecido de tudo. E de todos. 


A correnteza que não levou Isaquias. A canoa virou.
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Mauro Beting

21.183 pessoas moram em Ubaitaba, perto de Itabuna, na Bahia. Há 8 anos, eram, digamos, 21.184. Quando um menino de 14 anos deixou a cidade para tentar fazer a vida em São Paulo. Ele tentara jogar bola, mas não muito. Gostava de esporte. Por meio de um programa estatal chamado Segundo Tempo, em fevereiro de 2005, ele foi para a canoa, com 11 anos. 

Remou, remou e foi treinar no CA Paulistano. Largou família e amigos.  Não voltou mais para a Bahia. A mãe continuou no pé. Não atrasa. Vai pro treino. Vale a pena. 

Ele conheceu um mundo que jamais imaginaria. Moscou. Duisburg. Cingapura. Toronto. Londres. Foi a uma Olimpíada em 2012. Mas para ver como era. Para saber como faria. Como está fazendo para ganhar uma prata e um bronze. E contando. 

Ele não sabe o que faria sem a canoa. Mas imagina que não seria muita coisa boa. 

Ele diz que precisa estar meio nervoso para competir bem. Sem nervosismo, não vai. Ele não ganha. Não consegue o que jamais sonhou. Mas que pretende ser a vida dele. Mais tempo na água que na terra firme onde deseja ser professor. Treinador. E remar a favor da canoagem. 

Esse é o “Isaías''. 
– Não é Isaías. É Ezequiel.
– É os dois. Isaquias Queiroz. 

Ouvi em Copacabana de um torcedor explicando a outro e sendo corrigido por um terceiro a respeito do maior atleta brasileiro da canoagem. Um talento ali perto de Itacaré e Maraú que talvez estivesse por lá ainda hoje não fosse um projeto que incentiva pessoas a remarem contra a maré. 

Governo precisa entrar em campo para fomentar o esporte. Mas desde a base. Não só pegando atleta feito. Não só pensando em medalha. É ampliando oportunidade a longo prazo. É planejando um futuro melhor, com mais saúde, educação e lazer. Com mais esporte.