Blog do Mauro Beting

Grêmio. Pentacampeão da Copa do Brasil. Porta-bandeiras.
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Mauro Beting


Meia-noite. 

Em ponto. 

Maicon levanta a taça. A Copa que só o Grêmio levantou cinco vezes. O primeiro a conquistar em 1989. O último a vencer em 2016. 

E não apenas o capitão levanta. Mais dois. Mais 55 mil na Arena com o maior número de gremistas na sua história. 
Tricolor de pai para filha. Patrimônio Portaluppi. Família porta-bandeira que dá bandeira invadindo campo. Não pode. Mas Portaluppis passam. Eles podem. O Grêmio pode. Mais que qualquer um na Copa de quem mais peleia que joga. A plêiade do Galo era melhor e maior. Mas o Grêmio foi mais time em BH e fez o jogo para não jogar o rival em POA. Grohe foi defender uma bola só aos 31 do segundo tempo. Mérito do Renato que chegou para ganhar a Copa com Espinosa. Grohe que fez bela homenagem aos companheiros de Chape no final e nem perto da bolaça de Cazares chegou no mais lindo gol inútil que já vi. O da final da Copa do Equador de 2016. O gol final de Cazares pro Galo. O gol da final de Bolaños pro Grêmio. 

Autor do primeiro e do último gol da campanha tricolor. Receptor das mais variadas, várias e até vadias críticas até o gol que ganhou de Everton, aos 43. Quando o Brasil da Copa e a Copa do Grêmio já sabiam que seriam imortais. 
É assim dede 1989. Portaluppi fez o planeta mais azul sob o comando de Espinosa, em 1983. Com Mário Sérgio lá pelo lado esquerdo em Tóquio como sei que esteve na cabine do Fox Sports. E de todas as transmissões irmanadas no mesmo uniforme verde. 

Na foto do querido Felipe Motta, do Fox Sports, o sentimento: será que é tão difícil ser uniforme? Será que é impossível dar crédito a quem merece? Será que não dá para vestir a mesma camisa do trabalho e não do emprego? Será que não dá para mais vezes jogar para o mesmo lado? Será que não dá para respeitar todas as cores e credos? Será que não dá para ser igual mesmo sendo diferente? Será que não dá para unir sem ser só na desgraça? Torcemos juntos, fãs do esporte. Somos todos campeões. Com emoção de verdade.

Pena que o calor do jogo, no fim, quase que estraga tudo de lindo que se viu nas homenagens que iluminaram a noite também no Couto Pereira, quando torcedores fizeram lindo em Curitiba, em nome da Chapecoense, e do amor que nos une.  

Mas o que vai ficar mesmo na noite campeã é o espírito tricolor. Imortal como os que partiram em Antioquia. Inesquecível como o tricolor que é Grêmio a pé, em pé, caído em segundas divisões, primeiro em Libertadores e Mundial, veterano copeiro, imortal vencedor de jogos eternos. Aflitos e Olímpicos, Moinho dos Ventos e Arenas, Baixada e no Humaitá, azedo na Azenha, doce e amargo, Grêmio e Tricolor.

Ninguém costuma dar muita bola ao Grêmio. Quase todos davam perdido o acesso em 2005 no pênalti de Galatto. No gol de Anderson que nem o mais fanático gremista (redundante) acreditava no fantástico e fabuloso.

Se é que gremista nasceu para não acreditar no Grêmio. Ele não torce. Ele acredita. Ele é Grêmio.

Eles são Grêmio para o que der e vencer. Mesmo que não venha, eles vão.
Fanáticos e fantásticos como tantos torcedores de tantos times com mais ou menos conquistas.

Mas os que são tricolores, que são gremistas, que já sofreram com o rival figadal, que já foram fidalgos ou não, esses parecem saber de algumas coisas que não sabemos quando o time deles joga.

Eles sabem que é possível. Podem ter menos time que os rivais. Podem ter menos dinheiro. Menos poder. Menos mídia. Menos gente.

Mas eles nunca têm menos torcida. Jamais têm menos fé.
O poder do Grêmio é esse.

Eles mais acreditam que torcem. Eles se acham mais predestinados. Guerreiros. Imortais. Invencíveis.

Claro que eles não são tudo isso.

Mas vá enfrentá-los! Em campo e nos bancos. Nos botecos e nos batuques. Nas bolas e nos papos. Na grama e na fama.

O tricolor não verga. Ele esgrima. Ele Grêmio.

Pode não vencer. Mas ele vai lutar.

É preciso respeitar até quando não se gosta e não se tolera e entende.
É preciso ser um pouco Grêmio para vencer o brasileiro mais uruguaio. Mais argentino. Mais alemão. Mais Grêmio.

É preciso ter um pouco dessa alma de avalanche para atropelar quem estiver pelo caminho.

Você pode não gostar do jeito, do jogo, dos modos, dos meios.

Mas você tem de respeitar essa história. Tem de entender essa glória. Tem de admirar essa gente cujo hino é de um Lupicínio que cantava a dor-de-cotovelo de corações dilacerados e compôs uma letra que poucos clubes têm: não fala de conquistas de galerias de troféus. Fala de sofrimento e encantamento de quem torce. De quem ama. De quem acredita.

De quem é Grêmio antes de ser gente. De gente que é Grêmio antes de ficar e ir a pé onde ele estiver.

Quase tudo isso eu já escrevi em 2013, nos 110 anos do clube. Mas hoje, mais de três anos depois, e mais de 15 do tetra da Copa do Brasil sacramentado em um 3 a 1 fora de casa no jogo final contra um ''favorito'' alvinegro (só que paulista), com Tite acima de todas as tretas e por baixo do tetra, o penta é mais do que especial. É mais do que gremista. 

É mais um toque para que o mundo da bola troque o discurso feito. Dá para ser campeão com méritos inegáveis ajustando o time e o elenco e a comissão técnica com bola rolando. Dá para ser vencedor com treinadores mais arejados e ousados e outros mais conservadores e ''boleiros''. Dá para ser campeão depois de 15 anos fazendo festa mesmo em meio a tanta dor.

Só não dá é para achar que já foi copeiro, já não é o mesmo, não voltará a ser, morre de véspera, acabou. 

Lara morreu sendo mais Grêmio que todos. Mas o Grêmio não morreu com Lara. O Tricolor morria na praia ou nem perto dela chegava. O torcedor voltava do Olímpico derrubado ou da Arena construída no frio da madrugada que varou noites e uma década e meia de seca e úmidos olhos. Mas muitos deles que quase deixavam de torcer, lá no fundo, sabiam que essa noite de pesadelos acabaria. 

Não por acaso, o pesadelo acabou com a taça levantada exatamente à meia-noite. Ou zero hora. Fim do dia. Ou começo do outro. Ontem. Ou amanhã. Fim. Ou começo. 

Um marco zero. Ou a quinta estrela.  

Tem muita coisa que a gente não sabe nesta vida. Mas uma delas eu sei. Tem de respeitar o Grêmio.  


Somos todos campeões. Um gremista em Chapecó.
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Mauro Beting

 
ESCREVE DIEGO CARVALHO

SOMOS TODOS CAMPEÕES!! 

O sentimento não se termina e a espera foi deveras longa. São exaustivos quinze anos e o dia novamente chegou. Estava ansioso. Lágrimas na primeira partida. O torcedor da arquibancada de volta. Planos. Mas como festejar dessa forma? Confesso que me privei de ir até o cenário ideal para ser campeão. Estava tudo pronto, porém, não tenho clima ainda. O contraste do Verde com o Azul, torna o ar em uma cor desagradável. É momento de refletir e orar. Minha opinião era de que encerrassem os campeonatos vigentes no país da forma em que estavam e só se retomasse bola rolando em 2017. Todavia, no Brasil da burocracia, isso era impossível e assim vamos seguir a canção. Apesar da tragédia, infelizmente há ainda os que não entendem que o futebol transcende as quatro linhas. Aos poucos as idiossincrasias se fazem novamente (im) pertinentes e a banda toca, para ambos os lados. Gostaria de que fosse somente para o bem. São declarações descabidas, oportunistas e aproveitadores, umanos, sem h mesmo! Quanto eu esperei este momento. As recordações daquelas pedras frias do Velho Casarão tomam conta da mente. O coração emocionado que celebra títulos, a voz rouca de tanto comemorar, o cansaço físico pela jornada e a certeza de que haveria volta olímpica. Vestir a camiseta. Ah! Como fiz isto. Na terra de Índio Condá também. Como fizeram isto. E certamente seria um dia especial. Quis o caminho que a homenagem viesse de outra forma. Era Porto Alegre. Era Curitiba. Foi Chapecó. Aquele choro cai outra vez. Uma mensagem, uma música, um carinho virtual. É isso que o torna Imortal. Como será a história contada. Aos que ficaram, força para a recuperação. As almas que partiram, solidariedade aos familiares. Hoje não há bandeiras, sim compaixão, espero. Juntos, somos mais que onze. Meu pai, meu irmão, meu avô. Neste Mundo e no Outro. Em uníssono alentaremos. É possível que o Grêmio levante a Copa. A Chapecoense ganhou a Copa, não da forma que todos queriam. Esse misto de estigmas caminha na linha tênue do amor e da dor. Sobressai o Verdão, nas vestes do Tricolor. Guerreiros. Muito obrigado, Chapecoense. Gratidão, Grêmio. Infinitamente. Nas alegrias e nas horas mais difíceis, para o que der e vier. Olê, olê, olê, olê, Grêmio, Chape… Amigos que se encontram em um abraço apertado. A saudade que alimenta. O Sol, a Lua. “Tu não os vê, tu não os toca, mas estão presentes. Vários momentos inesquecíveis me vem à mente. Por isso Grêmio, um campeonato somente te peço, para TODOS AQUELES que lá no Céu cantam comigo”…
Diego Guerreiro Carvalho, 07/12/2016, 10h32min59seg, porque o tempo não para…
ESCREVEU DIRGO CARVALHO 


Chapecoense não tem cor. Coração não tem camisa.
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Mauro Beting

A CBF, entenda-se o departamento jurídico da entidade, aconselhou o Palmeiras para que não jogue contra o Vitória na última rodada do campeonato com a camisa da Chapecoense. Motivo: risco de criar um precedente para que departamentos jurídicos de clubes supostamente prejudicados ou futuramente ameaçados possam entrar com recursos nos tribunais contra a ''ilegalidade'' da prática…

O Corinthians, depois de belíssimas homenagens às vítimas da tragédia na Colômbia, optou por não jogar com as cores do maior rival, as mesmas da Chape. Questões de torcida, de paixão que, no futebol, se escala no mesmo ataque da intolerância. Faz parte do jogo dos fãs. De qualquer clube, cores e credos. Aceite-se. 

Mas, de fato, coração não tem camisa. Chapecoense não tem cor. Dor não tem descrição. Luto é luta contra a dor e a favor do amor. Com discrição, quando possível. 

Entendo a paixão que por vezes gera intolerância. É próprio do futebol, essa mais perfeita imperfeição criada pelo ser nem sempre humano. Ou humano demais no tanto que erra. Ser humano é ser falível. Lamentável tanto quando adorável. 

Mas em um momento em que tudo que vem de Chapecó precisa ser adotado, ficamos órfãos da canalhice inominável, dos órgãos de ''Justiça'' (SIC) que, em nome da regra do jogo, jogam e julgam com togas borradas e manchadas. 
Não poder homenagear a Chape com medo de recursos nos tribunais é a falência total dos órgãos. A septicemia terminal da brutal boçalidade de uma turma que não sabe perder, não sabe ganhar, não sabe jogar,  não sabe viver,  não sabe. 

Enquanto a Chapecoense não quer blindagem contra o rebaixamento na Série A, aceitando o risco de uma queda incomparavelmente menor que a perda irreparável, alguns fazem de tudo e muito menos para evitar o que pode acontecer – e o que ainda nem se sabe se vai ocorrer em outros anos, e com quem pode ou não.

 
Vivemos horas de muito luto. Dias de muita luta. 


Chapecoense X Boca Juniors. A vida que seguiu.
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Mauro Beting

– Netinho, vem ver na TV seu pai!

– Bivovó, deixa eu brincar com meu IPhone 25!

– Vem cá! Vai passar seu pai e seu padrinho Thiago Jr. na TV!

– Eu vejo depois no UTubX. 

– Vem cá, Netinho. Tá mostrando uma história que aconteceu há quase um século… Olha só. Tinha um timaço chamado Torino… Era tetracampeão na Itália…  Caiu o avião dele em Turim… Foi em 1949. 

– Já vi, Bivovó. Meu pai sempre conta. Tinha um craque chamado… Como era mesmo o nome dele? 

– Tá mostrando agora. Mazzola. Valentino Mazzola. 

– Isso. Aí o filho dele também foi craque. Mas foi de outro time. Não sei qual. 

– Internazionale. Olha lá. Foi bicampeão europeu. Ganhou também uma Copa da Europa pela Itália… Em 1968… Olha só. Agora eu quero que você venha ver seu pai e seu padrinho na TV. 

– Eles estão com a camisa da Chape?

– Tão sim. (Longo silêncio). Vem ver seu avô. E também o pai do Thiago Jr. 

– Bivovó! Olha você lá. Por que você abraçou naquele dia o repórter?

– Porque naqueles dias a gente precisava abraçar todo mundo do jeito que o mundo todo nos abraçou, Danilinho… Olha lá o pai do Thiago Jr. sabendo pelos companheiros que ele seria pai dele… Já vi não sei quantas vezes esse vídeo… Sempre fico emocionada… Mas ao mesmo tempo sempre aprendo que a vida precisa seguir. E a gente precisa seguir vivendo e cuidando de quem precisa. 

– Vamo, Vamo, Chape!!! Meu pai já mostrou esse vídeo várias vezes, Bivovó. É muito bacana. Vou pegar a medalha que o meu vô prometeu dar pra ele. 

– Deixa pra depois do comercial, Netinho. Vai aparecer seu pai Lorenzo e o Thiago Jr.

– Olha o Carlinhos! Eu quero ser que nem ele. Ele era Indiozinho e depois agora ele trabalha na Chape. Será que eu consigo ser que nem ele ou como o meu pai e o meu avô?

– Por que não, Danilinho? Olha o que meu filho conseguiu na vida. Olha o que a Chapecoense nos deu. E nada disso é mais querido que você e o seu pai Lorenzo.

– Bivovó, será que a Chape ganha amanhã do Boca?

– Na Bombonera não é fácil, né? Mas eu confio nos meninos. O Lorenzo parece o pai no gol. Eu acho até que é melhor. O Thiago Júnior também é bom atacante que nem era o pai. O time é muito bom. Quem sabe?

– Como chama esse repórter, bivovó? Tá muito legal isso tudo.

– Vitu Chermont Neto. 

– Ele é filho?

– Todos são filhos, Danilo. Todos são nossos filhos. Você e eles nunca ficaram órfãos. Nós não deixamos. O mundo não nos deixou. 


Por motivos regulamentares e estatutários, eu quero que a Conmebol…
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Mauro Beting

… Então um cartola da Conmebol alega que por motivos ''regulamentares e estatutários'' a entidade meio que ''precisa'' fazer a decisão entre Chapecoense e Atlético Nacional. Entre o clube que se acidentou de avião muito possivelmente por irresponsabilidade do piloto e dono da companhia ''sugerida'' pela própria Conmebol contra o adversário que já declarou a Chape campeã. Palavra do presidente, atletas, torcida e da cidade de Medellín e do povo da Colômbia. 
Chapecoense que recebeu do Santa Fé, campeão da Copa Sul-Americana de 2015, o troféu que havia permanecido com o outro clube colombiano que não estava diretamente na disputa. Instituição que, como todo o planeta, e aparentemente menos a Conmebol, está consternada e prostrada pelo acidente cada vez mais um acinte e atentado contra a vida de inocentes. 

E quando a entidade continental fala de razões ''regulamentares e estatutárias'' ela quer mesmo dizer ''comerciais''. Multas pela não realização das partidas. Punições que seriam cobradas pelos prejuízos reais de patrocinadores e parceiros com a não-exposição das marcas  nos jogos finais. E vorazes. 

Talvez apenas na ficção, com vilões e bandidos, malfeitores e desalmados, esse tipo de discussão seria ainda tomada é debatida. E com o ridículo de se exagerar nos estereótipos. 

Mas a Conmebol consegue, por motivos regulamentares e estatutárias, ser execrada com gosto e desgosto. 


A mais linda partida não teve bola e nem times. Apenas o espírito do jogo.
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Mauro Beting

A partida deles todos. De todos nós. 

Final de Sul-Americana. A Bombonera cantando ''Mengoooooooo'' em vez de ''Dá-le Boca''. Foi o Atanasio Girardot ao som de ''vamo, vamo, Chape'', na celebração pungente em Medellín. Quando o Atlético Nacional, prefeitura, governo de Antioquia e colombianos abraçaram o mais conhecido clube desconhecido do planeta. 

A falta de rivalidade ajudou. Mas a ajuda de fato foi a que o torcedor do clube desde as primeiras horas da tragédia deu a todas as vítimas. Cantando que a Chape é campeã. Apoio que atletas e direção do Atlético Nacional deram de imediato, proclamando o que a Conmebol, mais uma vez, não consegue decidir de pronto. Sempre empurrando com o excesso de barriga e a falta de coração decisões como a punição à morte do torcedor em Oruro, as punições às manifestações racistas, a não-punição aos clubes cujos adversários só conseguem bater escanteios sob a proteção de escudos policiais. 

Tocante foi ver o escudo da Chape vestido com o branco da torcida em Medellín, mais fora que dentro do estádio. Com as velas da paz de espírito irmanado com que os colombianos acolheram Chapecó e as vítimas de uma tragédia sem precedente no esporte. De uma celebração única e absurdamente emocionante. Como foram os #90MinutosDeSilêncio na transmissão do Fox Sports. Com placar com os minutos contando como se fosse a partida que os queridos amigos e colegas que partiram não puderam narrar. 

''Prepare-se'', falaria o Deva. Mário Sérgio estaria ''gostando do jogo'' como popularizou. PJ comentaria algo sarcástico com a classe habitual. Victorino teria perdido a chave do quarto, mas jamais algum detalhe da Chape. Rodrigo estaria sempre focado. Jumelo faria tudo e mais um pouco por tudo e por todos. 

E ainda assim nada seria mais emocionante do que foi em Medellín. Para não dizer o espírito da Arena Condá, no culto ecumênico de homenagem aos campeões não só da Sul-Americana. Dos merecedores de todas as homenagens que não só o mundo da bola prestou. 

Num mundo em que alguns não prestam, outros não prestam contas, e não poucos se prestam a apenas cornetar, maldizer, espinafrar, injuriar, caluniar ou defecar coliformes orais em nome do Ibope, o que se viu na hora do jogo nunca se viu antes. E torcemos para não ver outra vez. 

''Vamo, vamo, Chape'', entoado por milhares de pessoas que não conheciam o clube e a cidade até semana passada é mote para mudar a vida. ''Vamo, vamo, meu chapa'', respeitar a pessoa ao seu lado. ''Vamo, vamo, canibais'' da intolerância respeitar quem pensa ou age diferente. ''Vamo, vamo, cartolas'' manter vivo e organizado o jogo, mas sem afrontar a inteligência e o respeito aos que perderam. ''Vamo, vamo, atletas'' tocar a bola e a vida pra frente, mas sem perder a lembrança de quem partiu. Vamo, vamo de volta pra quem pariu quem não entende a força do futebol em momentos em que nos sentimos tão fracos. 

Nenhum chanceler, comitiva e embaixada chancela o que 11 homens chutando e milhões chutando junto consegue. Nada criado pelo homem congrega mais que essa atividade que a talibancada desagrega e despedaça em nome da intolerância da cor única, da falta do pensamento único, da Verdade Suprema que é o sumo, cume e cúmulo da falta de civilidade. 

O futebol é a melhor imperfeição criada pelo homem. Metáfora para tudo. Mas nem ele consegue explicar o elo que existe agora entre Chapecó e Colômbia. Os clubes que usarão nas próximas partidas o símbolo da Chape no peito. A Ponte Preta que ficou verde por ela e o Guarani que ficou negro como o Palmeiras que viu o maior rival Corinthians se pintar de verde de Chapecoense. 

Mas será que só na tragédia somos solidários? Não podemos ser também mais minimamente respeitosos em outros tratos e trajes? Não é preciso aplaudir o gol rival. Mas é necessário entender que o jogo é o mesmo. As regras iguais. Que alguém precisa perder para a gente ganhar. É preciso saber vencer e também perder. E muitas vezes empatar. 

Perdemos um time e muitas vidas na Colômbia. Mas ganhamos dois clubes pelos quais torcer lá e cá. Como escreveu o Twitter do meu Esporte Interativo, o Nacional é o terceiro time de todo brasileiro.  Como estava em uma das faixas na Colômbia: ''uma nova família nasce''. Como escreveu o Garone no blog dele: ''Chapecó estava preparada para uma partida, jamais para 71″. 

Eu nunca fui tão Verdão. E nunca amei tanto o futebol que me deu em Medellín a mais linda partida que já vi. Sem equipes, sem bola, sem árbitros, nem mesmo as traves que estavam desmontadas como altares. 

Apenas o espírito do jogo. Uma partida. A partida deles todos. De todos nós. 


Roger Machado no Galo
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Mauro Beting

  1. O melhor treinador disponível no mercado. A melhor escolha para o Atlético Mineiro. Para fazer com o melhor elenco o que Marcelo não conseguiu. E que Roger, com tempo, terá como. 

Cuca, ex-Palmeiras. Por ora. 
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Mauro Beting

O sonho de menino era jogar pelo Palmeiras. Jogou. É bem. Tentou colocar a faixa que desenhava no peito e que o Palmeiras não tinha pés para vencer desde 1976. Foi vice em 1992. 
O sonho de profissional do banco era treinar o time. Assumiu quando a família pedia atenção. Prometeu o título que duplamente o faz feliz, como torcedor e treinador.  
O desejo do marido e do pai é cuidar da mulher. Viajar. E também estudar na Itália, Espanha e Inglaterra. Para voltar ainda melhor. Como fez Tite em 2014. Como fez Dorival Júnior em meses de 2015. Como fará Cuca até o meio do ano.  

Por ele, passa esse tempo com a família, aprende mais um pouco de bola, e volta como retornou Felipão. Nos braços do palmeirense. 

Por isso é interessante Alberto Valentim no comando técnico do primeiro semestre do Palmeiras. Cuca voltaria no meio do ano. E o empregado do clube continuaria fazendo o excelente trabalho que executa. Com respaldo e respeito do elenco que precisa ser remontado. Não apenas com um 9 e mais um 10. Mais um 2 e outro 6. Também renovado em idade, e com mais crédito no banco. 
Rueda seria ótimo como Roger. Mas o melhor mesmo é esperar o retorno de Cuca. 


Família do Mario e família Fox. Desculpa pelo meu desabafo. Meus sentimentos a quem vazou o áudio.
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Mauro Beting

Caros…

Eu estou escrevendo para vocês que são meus amigos de Dante e de vida há mais de 30 anos. Escrevo também para vocês e para todos que ouviram meu desabafo e meu choro ontem pela manhã APENAS para meus amigos de vida e de Dante. 

Mas um muy amigo resolveu passar a gravação para meus irmãos que são amigos e colegas para alguma pessoa. Outra. Outras. Tantas que levaram meu nome, meu áudio e meu choro para o sexto lugar dos trending topics do Twitter no segundo dia mais triste da minha vida. O primeiro tinha sido outro 29 de novembro. Morte do meu pai. O mesmo exato dia errado. 

Por isso meu choro ainda maior. Não tinha dez minutos que eu soubera do acidente. Não tinha um minuto que eu desligara da ligação com a mulher do Mario Sérgio. Com quem conversara na véspera. Chateada com a falta de logística do voo para Medellín. Responsabilidade não da Chapecoense. Não do Fox Sports. 

Ele desabafou outras coisas. Eu desabafei outras tantas. Mas nenhuma se refere à empresa forçar a viagem de profissionais para Medellín. Jamais. Assunto que era da mulher do Mario, dele, e meu. E que só externei – de modo emotivo e impensado – para AMIGOS que estavam preocupados. Arrasados como o mundo que virou Chapecoense. 
Amigos a quem havia dito algumas vezes que eu entrava menos do que gostaria no grupo de WhatsApp exatamente para evitar brincadeiras, memes e mimimis que pudessem vazar como hoje tudo vaza. Mesmo com quem tem muito cuidado no que fala. Porque quem fala o que pensa não pensa no que fala. Eu penso. E evito falar.  E ainda falo muita bobagem. 

Mas naquele áudio eu não pensava. Chorava. Naquela gravação eu não falava. Eu desabafava para amigos a minha dor mínima comparada à inimaginável da mulher do Mario. Dos parentes dos que partiram. 

Peço desculpas à família do Mario pela exposição. Aos amigos e colegas e chefes da Fox pelo que falei. Aos amigos e colegas do grupo do WhatsApp que tive de deixar. Ao amigo que vazou talvez não por maldade. Apenas por expor uma dor naquele sentimento menor que temos de querer passar pra frente o que passamos e sentimos. Sem ter noção de que certas coisas, e sobretudo as incertas, que passamos devem ficar lá no fundo. Junto com a dor. E o respeito. 

Não por acaso falamos ''meus sentimentos'' a alguém que morre. Eu ainda sou do tipo que prefere não falar nada a quem perde, e menos ainda ''meus pêsames''. Mas hoje sou obrigado a falar. Desculpas aos atingidos. ''Meus sentimentos'' a quem vazou os meus sentimentos. 

Perdi muitos amigos na Colômbia. E um no Brasil.