Blog do Mauro Beting

Volta Redonda. Volta, futebol!
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Mauro Beting

Vai ter semifinal da Taça Guanabara. Um belo Clássico dos Milhões com mil problemas. Não pode ser ainda no Maracanã. Não pôde ser no Engenhão. Não tinha como ser em Juiz de Fora. Quase não seria em Volta Redonda. 

Seria com a infeliz e indecente torcida única. Não será. 

Oremos pela paz no deslocamento dos organizados e profissionais torcedores até Volta Redonda. Torçamos para que apenas torçam pelos clubes. Rezemos para manifestações equilibradas dos dirigentes e entrevistas sem tantas provocações dos atletas, com a devida isenção e atenção da mídia. 

Mais que nunca, torcida única pelo futebol. Nada além disso. 

Nessa área, apesar dos resultados recentes, o Flamengo é favorito. E não apenas pela vantagem do empate. Tem mais time. Mais elenco. Continuidade da comissão técnica. Menos desfalques. É favorito. Como parecia ser nos últimos confrontos não vencidos. Mas, agora, parece ainda mais forte. 


Big Brother Futebol
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Mauro Beting

Gabriel xinga torcida do clube onde jogaria no mês seguinte em celebração de título. No outro mês detona a torcida do ex-time em LIVE do Facebook depois de vencê-lo no Dérbi. Tchê Tchê diz em nota que ''brinca'' de dar tapa e celebra expulsão injusta do ''traíra'' ex-companheiro em LIVE. 

Vítor Hugo perde a ótima cabeça que tem e deixa o cotovelo com violência no rosto de Pablo. Mas grava depoimento no dia seguinte pedindo desculpas ao zagueiro rival e a todos. O árbitro da lambança de Corinthians 1 x 0 Palmeiras admite erro por soberba, e humildemente reconhece a lambança em depoimento corajoso para a imprensa depois do clássico em que o Corinthians superou o erro dele. 

Cenas de um mesmo clássico. Potencializadas pela tecnologia que tudo vê e ouve, tudo registra e grava. Agressões sem bola existem antes da invenção da roda. Mas hoje nenhuma passa batida como as porradas. Mais um motivo para todos estarmos espertos. 

O que antes eram desabafos ou provocações naturais até, hoje, gravados, viram e viralizam sentenças penais. Mais um motivo para todos só falarmos com os travesseiros. E olhe lá. Como Alecsandro que, como comentarista, poderia ter falado tudo que falou do Palmeiras, da Libertadores, do Paulista, do Corinthians. Mas que deveria ter evitado como atleta palmeirense. 

Estamos todos expostos. Muito expostos. Melhor pensarmos até zero antes de falarmos ou fazermos qualquer coisa. Ou contratarmos assessores de imprensa, gestores de crise e advogados para as consequências. Algumas necessárias. Outras apenas memes e mimimis de raiz e de Nutella. 

Mas se fizemos, melhor mesmo é assumir. Como o árbitro, como Vítor Hugo. 

Quanto mais abrirmos o jogo, coração e cabeça, melhor vamos lidar com o que vai acontecer depois. 

E quanto mais as vítimas de reações intempestivas ou violentas denunciarem as ameaças sofridas, o banditismo virtual seguirá sendo apenas virtual. Mas ainda coisa de bandido. 


Que defesa de Bruno!
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Mauro Beting

Não sou o caríssimo amigo Datena para falar tão bem de futebol e de polícia. Não sou tão bom e corajoso quanto o caro Juca para cobrar e cobrir esporte e justiça.

Mas vou aqui escrever como cidadão. Mais do que como jornalista esportivo.

Libertadores-10. 5 de maio. Pacaembu. Corinthians 2 x 1 Flamengo. Rubro-negro classificado. Muito pela defesa espetacular de Bruno em cobrança de falta, no final. Cabine da Rádio Bandeirantes. O goleiro do Flamengo conversando com Alexandre Praetzel no vestiário carioca, e Milton Neves no estúdio.

Peço pro Abrão amigo da técnica dar um toque lá pra emissora. Pedir para o Milton não me chamar para fazer pergunta ao Bruno, ótimo goleiro, embora muito pulador para o meu gosto. Prefere sempre o salto desnecessário para jogar para a galera do que a defesa mais segura para um jogador   Questão de estilo. Não gosto. Mas não é crime.

Foi a única vez em 25 anos de rádio e TV de futebol que não quis falar com um entrevistado.

Não sabia o porquê de meu preconceito. Mas, enfim, não gostava da figura.  Fiz o elogio devido a uma excelente atuação. Mas não queria papo.

Foi a única vez. Até com tipos piores (na esfera esportiva) já entrevistei, debati, discuti, briguei. Fui processado três vezes.

Mas nunca não quis falar com alguém.

Brasil 0 x 0 Portugal. Durban, 25 de junho de 2010. Menos de dois meses depois.   Copa na África do Sul. Intervalo de um jogo chocho. A coordenação da rádio fala lá do Brasil para José Silvério, Leandro Quesada e eu ouvirmos na África: ''Vamos entrar com um boletim do jornalismo. O goleiro Bruno do Flamengo está sendo acusado de ter desaparecido com a amante''.

Minha reação?

A mesma se a produção tivesse dito: ''Dalai Lama ganhou o Nobel da Paz''; ''Gisele Bundchen foi eleita a modelo brasileira mais bonita''; ''Pelé foi eleito o maior craque da história de Três Corações''.

Não fiquei chocado. Estarrecido. Surpreso. O mais triste: muitos que o conheciam e com ele conviveram também tiveram reação semelhante.

Não é pecado. Mas a sensação até hoje é de que pequei.
Algumas vezes penso o porquê da minha reação. E agora mesmo o porquê de contar tudo isso. Não tenho sensibilidade ou conhecimento além de minhas limitações. Mal acerto placares de jogos. Costumo avaliar mal pessoas do mal. Procuro sempre ver o lado bom das coisas e das pessoas mesmo que não sejam ''do bem''.

Mas Bruno, desde sempre, não me parecia do bem. Nunca, claro, tão do mal. Mas do bem, não mesmo.

Quase que não posto o texto. Quase nunca falei a respeito.

Mas é que hoje, com o noticiário que chega, com a possibilidade de ele ser ''perdoado'' sabe o lá o diabo por quais tecnicalidades, por quais leis e regras, comportamentos ou conveniências, eu resolvi escrever como cidadão. Como alguém que tem pai, tem mulher, tem filho. Alguém que erra como qualquer um nesta vida.

Mas alguém que não tira a vida de alguém.

O Brasil está tentando mudar. Está buscando usar um raio moralizador que, pela própria pretensão, mais moraliza por um lado que pelo outro. Tem muitos defeitos. Mas ao menos coloca para dentro do cárcere e pra fora do cartel os cardeais de sempre.

Só que quando chega uma notícia como essa, com tanto processo que precisa ser processado, com tantos processados que precisam ser punidos, e com tantos não culpados por vezes esperando por mais justiça, o relaxamento da detenção de Bruno é a detonação de mais uma bomba que até pode ser legal. Mas jamais legítima.

A maior defesa da carreira de Bruno foi feita pelo ministro do STF.

Muitas vezes, os doutos magistrados praticam onanismo jurídico. Em vez de seguirem a consciência de criança, seguem como fundamentalistas apenas o que aprenderam na academia.


Betão eterno, em 2007, Jô eterno, em 2017. #Amarcord
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Mauro Beting

 

 

No meu blog, em 2007, o jogo que Emanuel Colambari lembrou.

O Majestoso que, no final, não salvaria o Corinthians que venceu o São Paulo (no fim, aos 41 minutos) por 1 a 0. O Timão acabaria sendo rebaixado. O Tricolor seria bicampeão brasileiro.

Mas, naquele final de clássico de domingo, Betão fez o que Jô faria dez anos depois.

Abaixo, o texto de outubro de 2007.

 

O clássico, em si, para esquecer.

O cansaço são-paulino (time desgastado pela dupla jornada, pelo elenco reduzido, pelos desfalques, e pela qualidade reduzida de alguns de seus jogadores – mas ainda melhor que a maioria) explica parte do clássico medíocre.

A fragilidade alvinegra também explica o mau jogo. Mas a bola foi para a área, no primeiro lance real de gol corintiano…

Betão fez um dos gols que podem ser dos mais importantes para a história corintiana.

E já é um dos gols mais corintianos da história do futebol.

P.S. – Veja o post que escreveu Vitinho Gouveia, na comunidade do Corinthians, no orkut, 18 horas antes do clássico:

''Amanhã, Gol de Betão!
Já pensaram?!?!?
HAhahhAHhahahHAh
Aos 47 min do 2 Tempo Betão faz Timão 1×0!
acho q ele infarta, e eu tb!
HAhhahAHhAH
Vaiiii Corinthians!''

E não é que foi?''

 

Era um Corinthians que estava na 18a. posição contra um São Paulo líder. Eram 29 pontos de diferença. Eram quatro anos e meio sem derrotas tricolores.

Foi Corinthians. Muito. Como agora voltou a ser. Demais.


A festa é livre. Capiatá 0 x 1 Atlético Paranaense
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Mauro Beting

Experiência é mãe e pai. Lucho Gonzalez abriu o placar no Paraguai com 11 minutos. Os onze rubro-negros então se plantaram esperando a pressão natural de Libertadores, a comum e absurda chuva de objetos e tormenta abjeta de insultos raciais, e a incomum incapacidade desse competente e competitivo Furacão de conseguir resultados longe da Arena. 

Mas Weverton operou mais uma daquelas defesas dele. Thiago Heleno e Paulo André de novo funcioaram com correção atrás. A defesa funcionou. Passou apuros. Mas o Atlético passou. Eliminou os dois mata-mata. E chega forte para a fase de grupos. 

Claro que precisa evoluir. E o bom é que todos sabem disso. É preciso jogar muito mais. Saber domar os rivais, dominar os tempos e espaços do jogo, não dar tanta bola ao azar, e pelotas aos rivais. 

Mas o pior já passou. Agora são mais seis decisões. 


O cachorro Biriba e o Gatito Fernández. Botafogo classificado.
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Mauro Beting

Zizinho, Mestre Ziza, ídolo de Pelé, foi dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos.

Só não jogou no Botafogo, dizem, porque um dia deu um bico no cachorrinho que o cartola alvinegro Carlito Rocha usava como mascote e amuleto. O Biriba. ''Essencial'' na conquista do título de 1948.

Pela suposta agressão ao simpático vira-lata, Zizinho não passou nem perto de General Severiano.

Eu estava nesta quarta-feira de Liga dos Campeões em Copacabana, no bar México 70, com amigos de credo e de verde, torcendo por 11 palmeirenses que não conseguiram superam 10 corintianos em Itaquera. Na TV do lado de fora, alguns colorados assistiam ao Inter na Copa do Brasil. Dentro do simpático bar decorado com camisas do Brasil, México e Alemanha, jornais e revistas de 1970, botafoguenses sofrendo com o Olimpia que pouco fazia. Mas um tanto mais que o Botafogo desfalcado, e sem Helton Leite, lesionado.

Helton é filho de João Leite. Gatito Fernández é filho de Gato. Filhos da arte. Como o botafoguense faz do sofrer uma arte. Silenciosa.

Só minutos depois do gol do Olimpia vi que havia acontecido algo em Assunção. O gol paraguaio. Contra o time do goleiro que torce para o Cerro Porteño não causou um muxoxo entre as dezenas de alvinegros presentes. Não teve xingamento para o árbitro, lamentação, cobrança, vamos lá.

Silêncio.

Apenas silêncio no bar que mostrava que torcida única não cabe nunca. Colorados, palmeirenses e botafoguenses torciam e se contorciam numa ótima, juntos.

Mas o silêncio era todo Botafogo. É bem Botafogo. De Biriba a Gatito.

Como parece ser a sina de um reserva (que é melhor que o titular) que entra depois de sair por lesão e por falhas, e depois cata com rara destreza três pênaltis. O segundo deles com a coragem de não escolher um canto e, sim, a posição correta para defender uma bola que veio alta, no meio da meta.

Gatito esperou. E foi feliz. Eliminado o Olimpía como já havia sido eliminado o Colo-Colo. Catando três pênaltis como o pai defendeu dois e viu voar mais um na eliminação do Grêmio pelo Inter, na Copa do Brasil de 1992. Fernández que daria em título para o goleiro que depois seria campeão pelo Palmeiras. Os três times da noite no bar de Copacabana. 

Garito foi amuleto e nome que classificou  o Botafogo para mais uma parada indigesta em grupo complicado.

Mas quem disse que seria fácil?

O silêncio do Botafogo é sempre a melhor resposta.

Que cães e gatos façam sua festa.


Jô 1 a 0. Corinthians 1 x 0 Palmeiras nos 100 anos do Dérbi.
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Mauro Beting


Jô marcou em agosto de 2003, dois dias antes do aniversário de 89 anos do maior rival, o seu primeiro gol pelo Corinthians, nos 3 a 1 sobre o Internacional, no Pacaembu. Desde então, e há 106 anos, nenhum outro tão jovem anotou com a camisa alvinegra. Jô tinha 16 anos, 4 meses, 4 dias.

Pouco menos de três meses da celebração do centenário do Dérbi paulistano, quase 14 anos depois do primeiro gol pelo Timão, Jô substituiu o estafado Kazim em Itaquera, no fim do arrastado e nervoso clássico. O inglês-turco, o ''gringo da favela'' nas palavras do voluntarioso atacante, era o primeiro dos 10 defensores de Fabio Carille no treinamento de ataque do Palmeiras x defesa do Corinthians, no segundo tempo. Cortesia do apavonado e prepotente árbitro Thiago Duarte Peixoto. Ele se confundiu no fim do péssimo primeiro tempo ao mostrar o segundo amarelo a Gabriel, quando de fato o autor da falta que merecia o cartão era Maycon. O árbitro acabou erradamente expulsando o volante que merecia ter recebido antes o primeiro amarelo (que passou batido), e só o receberia mais tarde, pelo conjunto da obra em um primeiro tempo mais batido e faltoso que bem jogado pelas duas equipes.

Keno, que sofreu a falta de Maycon, apontou Gabriel para o árbitro que se precipitou. E insistiu no erro ao não ouvir o quarto árbitro, flagrado pela Globo dizendo claramente que não havia sido Gabriel o autor da infração. O ex-palmeirense saiu chutando tudo que viu pela frente, como fazia em campo – mas não a ponto de merecer o cartão injusto e errado. Cartão vermelho que no final faltou a Vitor Hugo, que cotovelou Pablo.

Infelizmente, em vez de concorrerem ao prêmio Fair-Play da Fifa, atletas e comissão técnica do Palmeiras fizeram de tudo para seguirem ludibriando o árbitro. Ninguém ajuda os atrapalhados apitadores. Não é exclusividade dos palmeirenses, no caso. É do nosso futebol, da nossa incultura, da lei imposta de Gerson. (E SEI QUE VOCÊS JÁ ESTÃO ME CHAMANDO DE NAIVE, PATRULHEIRO, UTÓPICO, INOCENTE, TOLO. MAS OS PALMEIRENSES PERDERAM ENORME CHANCE DE GANHAREM O MUNDO COM A ATITUDE,  EM VEZ DE GANHAREM UMA VANTAGEM QUE, NO SEGUNDO TEMPO, JÔ TRATOU DE ACABAR NA ÚNICA BOLA ALVINEGRA EM 45 MINUTOS…)

Foi o que se viu. Eduardo Baptista apostou em Guerra para articular o que Raphael Veiga não fez com tanta qualidade. Contra o 4-4-1 de Carille, por vezes um 5-3-1, quando não mesmo um 6-3-0, o Palmeiras criou no máximo seis chances boas de gol em 90 minutos. Guerra foi caindo de novo de produção, Dudu mais uma vez se preocupou mais em enfeitar lances, Keno alternou bons e maus momentos e, no final, todo o esforço dos limitados corintianos transformou-se em gol, e em história para contar aos netos alvinegros: Guerra foi mais juvenil que o ótimo jovem Maycon numa sobra de bola que Jô aproveitaria para fuzilar Prass.

Vitória inesquecível de 10 corintianos que se superaram contra 11 palmeirenses que acharam que fariam em Itaquera os gols e a vitória do jeito que fizeram recentemente lá e em outros estádios. Mas futebol não é assim. Dérbi, ainda menos. É preciso correr como Leo Jabá, Arana, Maycon e companhia limitada. Aproveitar como Jô a chance que teve. Defender como Cássio salvou gol certo de Keno, mesmo com o Palmeiras abusando da lentidão que se confundia com paciência, com a troca inócua de bolas, e com a falta de intensidade que sobrava em campo sob a direção anterior.

Algo que Eduardo precisa reencontrar tão rápido quanto as vitórias. Superação que o maior rival teve em Itaquera. Com provocações, canetas e lençóis, e as equipes entrando juntas por Camacho e pela paz pré-prélio. Conquistando o Corinthians vitória que pode valer pouco para o campeonato. Mas que pode ser contada por muito tempo. Como aqueles 4 a 3 de 1971, que não levaram o Timão de Adãozinho a lugar algum no jejum de títulos.

Mas que hoje, 46 anos depois, e pelos próximos tantos anos, sempre será celebrado como o Dérbi da virada. O Jogo do Adão. O primeiro dos homens. Como este será o Dérbi do Jô. O menino mais novo a marcar pelo vencedor da noite em Itaquera.

 

ADENDO: Vendo a entrevista de ''peito aberto'' do árbitro, ainda na Arena Corinthians, retiro o ''apavonado e prepotente'' do texto acima. Corajosa, humana e correta atitude em se expor e assumir o erro crasso cometido. Gostaria que mais vezes os árbitros tivessem vez e voz para explicar as decisões tomadas – ainda que as inexplicáveis.

Ponto para ele. Boa sorte, Thiago. E melhor sorte aos árbitros que errarem – para que sejam ajudados pelo mundo da bola.


Cem anos de uma amizade de Dérbi
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Mauro Beting

 

 

 

Roberto, Ademir. Por MILTON TRAJANO

 

 

 

Roberto chegou mais cedo ao Parque Antarctica naquela tarde de 6 de maio de 1917. Nordestino, era Corinthians por ser do povo que chegara em São Paulo logo depois da fundação do clube, em 1910. Órfão de pai perdido na bebida e da mãe afogada por esse desgosto, não tinha casa. Nem mais família. Perdera a Mariazinha que se engraçara com o dono da venda. Perdera o emprego no centro. Só não perdia o Corinthians que aprendera a amar sem perguntar. Como todo amor.

 

Ademir era o único filho brasileiro de famiglia de cinco oriundi. Os dois mais velhos ficaram na Itália dos pais. A irmã morrera de tifo. O outro se perdeu na estrada. A mãe morreu a bordo vindo de Genova. O pai abraçou nova família no interior. Ele estava sozinho. Sem ocupação e preocupação além da nova paixão – Palestra. Foi conhecer o Parque Antarctica que ainda não era do Palestra Italia. Ele era palestrino por ser Itália como a pátria da mamma morta e do babbo que morrera para ele. Como o amor que ele sentia pela Nina. Menina que ele jurara amor. Mulher que um dia saiu e nem bilhete rabiscou.

 

Roberto e Ademir se encontraram no Parque da Companhia Antarctica. Conversaram antes da porfia. Falaram de Mariazinha e Nina durante o prélio. Do berço enquanto se disputava o cotejo. Dos pais ausentes nos embates como aquele. Amores partidos como aquela pugna renhida. Da primeira partida entre os dois amores. Viram Caetano marcar o primeiro, o segundo, e o terceiro gol de Palestra 3 x 0 Corinthians. isso, Izzo! O primeiro clássico que se chamaria Dérbi.

 

Ademir e Roberto saíram do Parque Antarctica e beberam quase todas e por quase tudo. Sabe-se lá como, foram parar na Ponte Grande, na Zona Norte da cidade, onde hoje existe a Ponte das Bandeiras. Por lá Roberto mostrou a Ademir as obras do estádio corintiano, ali pertinho, onde depois seria o Tietê. O novo field ficaria pronto em março do outro ano. Inaugurado em novo jogo entre corintianos como Roberto e palestrinos como Ademir.

 

Combinaram de se encontrar na inauguração. Ademir subiu então sobre o gradil da Ponte Grande sobre o Tietê como se fosse fazer um discurso de agradecimento pela hospitalidade do novo anfitrião. No primeiro gesto com os braços, perdeu o equilíbrio e caiu no rio. Roberto, ato contínuo, pulou atrás do novo amigo.

 

Não havia pai para cobrar a polícia, nem imprensa para cobrir os desaparecidos. Nem patrão para saber dos trabalhadores sem emprego. Mariazinha para abrir a porta de casa, Nina para abrir os braços. Ademir caiu, Roberto pulou em seguida, e o Tietê os levou na noite do primeiro Dérbi.

 

Quem me contou essa estória foi um sonho que tive ao acordar com um pesadelo de que não haverá mais em Itaquera a chance de um Roberto começar com um Ademir uma história de amizade. Porque depois de 100 anos não pode mais um corintiano dividir amores, dores, licores com um palmeirense. É “torcida única”. Em Itaquera e na arena onde era o do Parque da Antarctica. Ninguém vai pular no rio para salvar um amigo que é apenas adversário. O que pode acontecer mesmo é “torcedores” se pegarem em nome inominável da rivalidade e um deles ser jogado no rio como aconteceu não faz muito tempo numa refrega entre eles.

 

Mas deve ter sido pesadelo meu. Torcida única não existe. Nem em sonho.

 

Os realistas vão dizer que quem não existe mesmo é esse tal do Roberto corintiano de 1917, o tal do Ademir palestrino de 1917. Os mesmos infiéis e fiéis que também não lembram ou não sabem como foi parar no Parque São Jorge o Reizinho que era palmeirense e se chamava Roberto, Rivellino, e não foi aceito no Parque verde. Como foi ser Divino palmeirense o Ademir filho do divino zagueiro corintiano Domingos, que um dia quase treinou no maior rival.

 

Pelas torcidas únicas, Rivellino teria de ter sido sempre alviverde. Ademir da Guia teria de seguir o roteiro do seu Domingos, que o queria vestido de preto e branco quando garoto.

 

A vida vira o jogo. E o Dérbi tem mesmo situações inexplicáveis. Muitas delas que talvez tenham as impressões celestiais do Roberto e do Ademir. Eles que se fizeram amigos em pouco mais de 90 minutos. Eles que, nesses 100 anos, começo a entender, estiveram com Romeu e Imparato nos 8 a 0 do Palestra, em 1933. Troco que Roberto daria fazendo o Pequeno Polegar Luisinho marcar de cabeça o gol do Quarto Centenário, em 1954. Dando um troço no Ademir pelo Rio-São Paulo das Cinco Coroas verdes de 1951.

 

Ronaldo fez o gol de 1974 naquela bola que Leivinha subiu mais alto – com o Ademir de 1917 talvez o puxando lá de cima. Canela do Biro-Biro alvinegro e também do Roberto de 1917 na semifinal de 1979. Ademir fez com as coxas de Mirandinha a justiça em 1986, que o coice do Claudio Adão foi o Roberto quem arrumou em 1989.

 

Roberto foi incitar com o porco do Viola em 1993, que o Evair respondeu pelo Ademir na volta. O Edmundo estava com o espírito do Ademir no Rio-São Paulo de 1993, e o Rivaldo também, no Brasileiro de 1994. O Roberto cantou a bola que o Elivelton mandou no ângulo, em 1995. Marcos teve os cantos cantados pelo Ademir, em 1999 e 2000. Como o Roberto jogou na nuca do Edilson aquelas bolinhas de 1999.

 

Roberto e Ademir ergueram os punhos no Brasileiro de 2011 para homenagear o Sócrates. Juntos. Como o corintiano falou pro Júlio César defender aqueles pênaltis no Pacaembu naquele Paulista de 2011. O palmeirense acabou com o Petros pelas mãos de Prass, em 2015. O Dudu tirou o boné do Ademir em 2016 de tanta onda que o Roberto tinha tirado com o Romarinho desde 2012.

 

Tantos jogos e tentos, craques e bagres, taças e copas. Tanta explicação que a gente não sabe como. Mas eu sonhei agora que tem algo além. Vem lá do leito sem vida do rio. Do Roberto e do Ademir que partiram na primeira partida em 1917. Amigos que o Dérbi perdeu. Espíritos que desde então nos ajudam a entender que futebol é para fazer amigos.

 

Desde que pulemos de cabeça e coração em nome do que é sagrado. Desde que respeitemos as dores da vida e usemos o futebol para fazer mais gente e nos fazer mais gente.

 

Roberto e Ademir não são fantasia. São a alegoria da alegria que é poder encontrar amigos pela vida. Criaturas que o futebol nos dá e, por vezes, nos tira quando saímos atirando nas cores que não são nossas.

 

O que seria do Ademir sem o Roberto e do Roberto sem o Ademir? Nossos prazeres são ainda maiores com as derrotas alheias no campo de jogo. Nossas dores são menores quando compartilhadas com amigos de credo.

 

Vamos celebrar os primeiros 100 anos do Dérbi sem violência. Vamos mergulhar de cabeça.  


Pratto e a vontade de comer. São Paulo 3 x 2 São Bento.
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Mauro Beting

Foi assim desde a primeira bola dele pelo Tricolor, no suado empate com o ótimo Mirassol. Bobeou? Pratto! Não bobeou? Pratto!

Os dois gols contra o ameaçado São Bento foram de quem sabe, e muito, como se preparar, posicionar, e finalizar. Dois belos centros dos cada vez melhores e promissores Luís Araújo e Júnior Tavares e dois gols de centroavante-centroavante Pratto. Mais um pênalti (que eu não marcaria) no final sobre Chávez, e muito bem executado pelo ótimo Cueva, e o São Paulo pode celebrar a vitória que no sábado escapou por detalhes. Como a infantil falha de Maicon então, e como nova investida errada do zagueiro no segundo e belo gol de Régis.

O São Paulo ainda é instável. Normal. Pelo plano de jogo de Rogério, mais natural ainda. Ele se expõe e ao time também. Natural. E louvável. Antes um treinador que busca o jogo e o placar a quem se planta atrás da bola e do placar.

O São Paulo Futebol Clube e Rogério Ceni se fizeram com ousadia e gosto pelo gol. Assim seja. Mas não será tão fácil a reconstrução. Ou menos difícil pelos talentos reunidos, e bem finalizados por Pratto.