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Treinadores para o Brasil importar e se importar

Mauro Beting

18/12/2019 09h39

ESCREVE JOZA NOVALIS

Não estamos na arquibancada torcendo contra técnicos brasileiros, mas na torcida por algo bem mais relevante que isso: que a qualidade do comando no banco de reservas dos clubes evolua definitivamente. Em nenhum outro lugar da América do Sul técnico de futebol de equipe grande ou média ganha tanto dinheiro como no Brasil. E atualmente em nenhum outro lugar do mesmo continente o técnico entrega tão pouco como no nosso país. "Ah, mas Joel Santana já ganhou títulos brasileiros, Abel Braga, Cuca e Geninho também; tantos outros…" Pois é, lista é grande. Ocorre que no passado não havia como um deles não ganhar; afinal, eles sempre disputavam uns com os outros.  

Mas o problema não são as pessoas, tampouco suas idades, mas suas ideias. Até em virtude de que os nomes sempre eram os mesmos elas, as ideias, foram caducando com o tempo. E se não bastasse tal cenário, os poucos novos técnicos que surgem já nascem com as ideias envelhecidas. Futebol brasileiro não aguenta mais, está saturado. 

De forma que técnicos estrangeiros começam a desembarcar por aqui. Bastou uma condição mínima de trabalho e Jorge Jesus e Jorge Sampaoli terminaram o Brasileirão no topo da tabela. Efeito positivo foi o choque de realidade em relação ao trabalho dos nossos treinadores. E simbólico, no caso, foi a goleada do Peixe sobre o campeão brasileiro na última rodada. O resultado não foi por acaso. Quando perdeu para o Flamengo, no primeiro turno, a equipe da Vila tinha chances reais de conquistar o Brasileirão. Perdeu de 1×0 e poderia ter perdido de bem mais. Bem provável que a partir de então, Sampaoli não parara de pensar no Rubro-Negro, de estudá-lo e de desenhar formas que levassem sua equipe a devolver a derrota. E o fez com sobras.

Estudar constantemente é o que caracteriza treinadores nos demais países sul-americanos, notadamente na Argentina, onde este processo não encontra paradeiro no hemisferio ocidental. Pois bem, estudar é precisamente o que os nossos técnicos não fazem; e isto, por certo, é uma das causas da baixa qualidade de seus trabalhos. Pensemos então em alguns nomes que podem aparecer no banco de reservas do seu clube do coração já para a próxima temporada do futebol brasileiro.

Sebastián Beccacece (38). Um dos melhores montadores de equipes da América Latina. Altamente capaz de desenvolver até mesmo atletas mais limitados. Exemplos ao longo de sua ainda curta carreira não faltam. Levou o modesto Defensa y Justicia ao vice-campeonato na Argentina com uma campanha soberba. Não tivesse o Racing feito uma campanha tão magistral, e o título ficaria com o modesto conjunto de Varela. O Defensa não seria sequer um América Mineiro ou um Atlético Goianiense sendo vice campeão e apresentando o mais belo futebol do país. Não seriam porque estas equipes são muito maiores do que o Defensa y Justicia. 

Beccacece é um dos técnicos mais irrequietos do futebol mundial; no banco, nunca para. E o mais importante: exige que este comportamento seja o de seus jogadores. Não negocia com a mediocridade, com modorra e com jogadores que cavam buracos no campo para se esconder. Herda de Bielsa o pensamento conectado com o futebol durante todos os segundos em que está acordado. De equipes rivais às lacunas técnicas de seus jogadores, nada escapa de sua atenção. Felicidade parece cenário impossível para ele se não tiver na cabeça o panorama completo do que sua equipe apresenta centro de campo. Ao detectar um problema não sossega enquanto não percebe em algum jogador a capacidade de saná-lo. De início, tenta desenvolver em algum atleta a condição de resolvê-lo; quando isto não é possível, busca na base. Apenas depois disso é que solicita algum reforço. 

Sua rápida passagem pelo Independiente não foi das mais favoráveis em virtude de que se deparou com um contexto de terra arrasada: problemas na preparação física, falta de jogadores compatíveis com o seu modelo, surgimento de reforços que ele não solicitara, negação do acesso de suas ideias ao trabalho na base, rejeição ao pedido de certos reforços específicos, barra brava presente e dando ordens internas no clube, inclusive a jogadores etc. Pelo pouco tempo que ficou, até que não foi mal, e se por um lado não foi o mesmo técnico do Defensa y Justicia, por outro, os problemas relatados acima depõem efetivamente em prol de sua inocência. 

Beccacece está pronto para o futebol brasileiro. Mas seria ainda melhor se chegasse para um clube ou que pudesse oferecer reforços ou um bom elenco ou que o deixasse trabalhar minimamente até que ele calibrasse a máquina até o ponto em que seu modelo protagonista necessita. 

Ricardo Gareca (61). Um técnico que já protagonizou dois grandes milagres: ser o maior vencedor da história do Vélez Sarsfield e ser o responsável por devolver a alegria ao povo e ao futebol peruano. Daqueles que tiram leite de pedra. A consistência de seus últimos trabalhos depõe em seu favor. Sua rápida passagem pelo Palmeiras não foi das melhores, mas seu trabalho não recebeu apoio. Solicitações mínimas não eram atendidas, o que passou a acontecer no clube com o seu sucessor. 

Mesmo o Palmeiras ganharia muito com Gareca, sobretudo as categorias de base, pois o treinador costuma se apresentar nas arquibancadas para ver a molecada jogar; uma de suas grandes qualidades é a de apostar nos garotos certos, postura que levou o Vélez não apenas a títulos, mas também ao melhor momento financeiro de sua história em virtude da venda de inúmeros jogadores, revelados na base, para o futebol europeu.

A relação de Gareca com a seleção peruana lembra um tanto aquela situação em que vemos nas ruas de uma mulher de rara beleza de mãos dadas com um baixinho careca e feio. O técnico argentino é demais para a seleção de Paolo Guerrero e já passou da hora de ele voltar a assumir um clube. Que seja no Brasil.

Matías Almeyda. Muito mais do que um treinador, alguém com olhar panorâmico para o clube que defende – agora, o San José Earthquakes, da MLS. Suporta toda a pressão que recebe e se transforma num escudo para seus atletas, deixando-os prontos para jogar com ofensividade e coragem. É técnico para clubes grandes, com problemas e que flertam constantemente com a crise. Almeyda não pede muitos reforços, mas não lida bem com contexto de meses com 45 ou 60 dias, como ocorre em vários clubes do Brasil. Suas cobranças aos seus comandados são constantes e em contrapartida espera que eles não tenham motivos para reclamar de problemas como salários etc. 

O ex-ídolo do River é um grupos e capaz de desenvolver bom trabalho mesmo com elencos limitados. Suas equipes têm o DNA ofensivo, mas também o equilíbrio necessário para suportar pressão e até compactar todas as linhas, na defesa, em busca do bom resultado. Do tipo que jogador não contesta; que dirigente pensa duas vezes em aparecer no treino para dar palpites e que convida jornalistas a refletirem bem antes de fazerem perguntas. Em pouco tempo no Brasil, seria capaz de ter um amplo entendimento sobre o nosso contexto futebolístico. Quando algum dia comandar na Europa, possível que se transforme em técnico-top do futebol mundial.

Rafael Dudamel (46). Outro caso de quem deixaria uma seleção para assumir um clube. Trata-se um dos maiores arquitetos do processo de vitalização do futebol venezuelano, que nos últimos anos alcançou resultados (especialmente nas categorias de base) nunca antes vistos. Nos últimos dois anos tem se revelado como um gestor que não apenas suporta pressão, mas que também não a deixa chegar ao elenco. Assim como fez na Venezuela, também pode elevar o patamar de um clube, desde que permaneça por algum tempo no cargo. 

Dudamel é perito em armar esquemas diferentes para cada situação. Gosta de meio-campo combativo, que não deixa passar nada, enquanto a construção do resultado ocorre sobretudo por transições rápidas e preferencialmente pelos lados do campo. Seus jogadores compram suas ideias porque ele as consegue vender bem; torna fácil para qualquer um o entendimento dos processos que levam a equipe aos bons resultados. Recentemente, Josef Martínez tentou boicotar seu trabalho junto aos demais jogadores, na Vinotinto. Todo o elenco ficou ao lado do técnico, o que levou o próprio Martínez a pedir que não fosse mais convocado. 

Daniel Garnero (50) entra para o rol das grandes técnicos sul-americanos em função de seu amadurecimento, dos resultados impressionantes do seu Olímpia, atual campeão paraguaio,   da personalidade que marca seu comando e pela habilidade de modificar partidas com substituições ou mudanças táticas, durante os 90 minutos. De 2016 até o final de 2019, conquistou seis títulos no Paraguai com duas equipes diferentes, o Guarany e o Olímpia. Garnero cresceu tanto que não cabe mais no futebol paraguaio. 

Os números de Garnero são assustadores. Impressiona o número de finalizações a gol, os gols marcados e mesmo a capacidade de reverter resultados negativos dentro de uma partida. Foi campeão invicto do Apertura com 16 vitórias e seis empates; além disso, teve a melhor defesa da competição. Foi campeão do Clausura com 17 vitórias, um empate e duas derrotas; foi a segunda melhor defesa, atrás somente do vice campeão, o Libertad. Juntando as duas competições, teve 33 vitórias em 44 jogos, 9 empates e duas derrotas e com a melhor defesa e o melhor ataque disparado da temporada. 

A eliminação do seu Olímpia da Libertadores pela LDU beira o inacreditável pelo que produziram as duas equipes. Em Assunção, o Decano finalizou 26 vezes ao arco, teve quase 80% de posse de bola, trocou 596 passes, com precisão de 82%. Nos minutos 10 minutos finais, a Liga de Quito ficou menos de 60 segundos com a posse da redonda; enfim, foi uma noite em que tudo deu certo para os equatorianos. Ao final da partida, torcedores aplaudiram Garnero na ida aos vestiários, enquanto vaiaram alguns de seus jogadores.

Posse de bola e troca de passes são marcas privilegiadas da proposta de Garnero. Porém, três outros pontos chamam ainda mais a atenção de todos. O equilíbrio entre as linhas, o comprometimento de todos com a marcação e a distância entre o alto número de gols anotados e sofridos por suas equipes. A posse de bola é incentivada, mas a velocidade nas transições e a intensidade estão ainda mais presentes no modelo. Com Garnero, o atleta tem o direito a não entender a proposta, Nesse caso, receberá atenção especial para resolver o problema; porém, após entendê-la ou se compromete ou vai para o banco. 

Pedro Caixinha (49) é a prova de que nossos dirigentes não entendem mesmo nada de futebol; três ou quatro clubes brigam atualmente por um técnico estrangeiro, enquanto nenhum deles vai atrás do português, que curte umas férias, desde que deixou o Cruz Azul. Suas equipes propõem o jogo sem reconhecer mando de campo, com posse de bola e alta verticalidade. A ideia é pressionar no campo rival e buscar a vitória a qualquer custo. Intensidade do time é uma obrigação; ausência dela em algum jogador, imperdoável.

Para o técnico português, posse de bola é objetivo primário, mas o jogo da equipe é vertical, com pontas abertos e forte pressão sobre o portador da redonda. Linhas ordenadas e alto aproveitamento nas finalizações. Perdeu a bola, jogadores têm poucos segundos para recuperá-la.

Na sua proposta, preparador físico é quase um auxiliar, e muitas vezes se faz decisivo para a escalação de um ou outro jogador. Desta forma, Pedro Caixinha empodera toda a sua comissão técnica; o que também o fortalece diante da indisciplina de jogadores desavisados.

Elenco trabalha no mínimo 8 horas por dia e quem reclama perde a vez. Ao menos no clube, alimentação de cada atleta está diretamente atrelada ao desenvolvimento de sua melhor forma física; até isto, com ajuda de tecnologia e de assessores, Caixinha costuma acompanhar. Repertório absurdo de treinos, e todos voltados ao fortalecimento da ideia de jogo. É muito raro a repetição de um exercício e todos eles, desde o 1º dia de pré-temporada, são feitos utilizando a bola, trabalhando o passe e a busca do melhor posicionamento de cada jogador em campo. Caixinha tem o potencial para ser uma novidade tão agradável no futebol brasileiro, como tem sido Jorge Jesus.

Frank Kudelka (67). Técnico que valoriza o ataque. Joga com dois pontas abertos para gerar profundidade e permitir infiltrações pelo centro. Seus meias precisam de habilidade e boa leitura de jogo; seu camisa 5 tende a ser o termômetro. Contundência e intensidade são as suas marcas.

Kudelka é um apreciador do jogo propositivo. E para materializá-lo varia pouco seus esquemas de maneira que seus jogadores os compreendam com maior profundidade. Técnico antenado com o que há de mais moderno no futebol. No Brasil, seria recomendável para equipes de porte médio ou grande.

Pablo Repetto (45). O técnico uruguaio que levou o Del Valle ao vice da Libertadores/2016 configura suas equipes para jogarem conforme o adversário. Se o rival gosta da bola, ele pode ficar com ela o tempo que desejar; se não gosta, basta cedê-la à equipe de Repetto que estará preparada para lidar com a tarefa. Esta é a ideia primária de sua proposta futebolística: desconcertar o adversário; expô-lo ferozmente às contradições de suas limitações. 

Na maior parte do tempo, sua LDU é especulativa até porque a sua proposta costuma ser subestimada pelos rivais. Este é o sonho de Repetto: que os rivais não deem nada para a sua equipe; quando isto acontece, elas tendem a cair nas armadilhas do treinador uruguaio. Alguns diriam que a forma como Repetto comanda é semelhante a de alguns técnicos no Brasil. Porém, o uruguaio possivelmente se defenderia de quem o chamasse de retranqueiro ou de técnico de equipe ofensiva. Um estilo pode se consagrar a partir da adequação de uma equipe à forma como jogam vários de seus diferentes adversários. Ela pode ser muito bem preparada para isso; pode ter jogadas ensaiadas etc. 

Em geral, todas as equipes de Repetto costumam fazer bem mais gols do que levam, mas o número de gols sofridos mostra que no fundo a preocupação com a defesa é secundária. Basta isso para distanciar o técnico da LDU de inúmeros treinadores consagrados no futebol brasileiro atual. Um clube com muitos recursos poderia recrurtar os serviços do técnico da LDU, mas também clubes com baixo orçamento ou dificuldades financeiras possivelmente teriam em Pablo Repetto um bom comandante no banco de reservas.

Diego Dabove (46). Pera lá, minha gente: ninguém vai falar no nome de Diego Dabove? O técnico levou o Godoy Cruz ao vice-campeonato argentino de 2018 com um elenco modestíssimo, tirando leite de pedras e nunca deixando de lado a ideia de que quem manda nos seus domínios é a sua equipe, e não a visitante. Além disso, Dabove é o técnico atual do Argentinos Juniors, líder da Superliga Argentina. 

Dabove é mais um testemunho de que técnicos da linha bielsista aprimoram o trabalho defensivo, chegando em inúmeros casos a terem as melhores defesas das competições que disputam. É o caso do próprio Bielsa, cujo Leeds sofreu quase a metade dos gols do Bromwich, líder da Championship com dois pontos à frente dos comandados de Bielsa. Defensores da proposta sempre alegaram que a posse da bola é a melhor maneira de não levar gols. 

Mas o ajuste da proposta, que prima antes de quaisquer coisas pela busca do protagonismo, nem sempre foi fácil. Por causa disso, muitos técnicos bielsistas surgiram, mas ficaram pelo meio do caminho. Muitos não conseguiam superar aquele conhecido paradoxo que se instaurava em algumas partidas: suas equipes dominavam completamente aos seus rivais, com números incríveis, mas em apenas um contragolpe levavam um gol e perdiam jogos decisivos. Este não parece ser o caso de Dadove. Suas equipes são ofensivas, mas levam pouquíssimos gols. Na atual Superliga, o Argentinos mostra limitações no setor ofensivo e marca em média de apenas um gol por partida. Todavia, tem a liderança sustentada em um sistema defensivo sólido, pautado na posse de bola e não em caminhões estacionados próximos à área defendida pelo seu próprio goleiro. Sistema preferido é o 4-3-3, com laterais que aprofundam o campo para três atacantes que buscam a ocupação da área ao mesmo tempo. 

Miguél Ángel Ramirez (35), técnico do Independiente de Valle, ficou seis anos na Aspire Academy de Qatar, local onde realizou o milagre de formar jovens árabes para o futebol. Efeito disso já é visível no país e será ainda mais nas próximas competições internacionais da seleção do Qatar. Ramírez justifica o interesse de Palmeiras e outros grandes do futebol brasileiro? De certa forma sim; ao menos pela qualidade do futebol que sua equipe pratica. Tudo indica que estamos diante de um grande talento mundial no comando do banco de reservas. Mas ao menos os seus números reais denunciam algumas coisas. A primeira delas é a de que mesmo com o título da Sul-Americana o seu Del Valle ainda não é uma equipe pronta. No cenário local, os números são tímidos, pouco mais de 50% de aproveitamento, além da eliminação para o Delfín nas quartas-de-final do Equatoriano. A segunda passa pela quantidade de gols que a equipe costuma levar pelos lados do campo. Nada assombroso, por certo, porém, trata-se de um problema que persiste e que pede solução. 

Ramírez gosta da posse de bola e entende que sua equipe precisa jogar da mesma forma tanto dentro quanto fora dos seus domínios. Esta percepção sobre futebol o credencia para equipes grandes do futebol brasileiro; sobretudo para aquelas que disponibilizam recursos para contratações ou que dispõem de bons valores na base. A palavra "professor" se aplica a Ramírez como a poucos outros. No Independiente del Valle vemos jovens talentos que evoluem sob suas orientações, mas também é visível o caso de evolução de atletas que surgiram como grandes apostas, mas que não se encontraram na carreira; no Del Valle, é o caso de Cristián Dájome, dispensado do Atlético Nacional por frustrar expectativas generalizadas sobre o seu potencial de "craque". O ideal seria que Ramírez chegasse a um clube brasileiro para fazer parte da comissão técnica. Porém, até em  função da disputa instaurada pelo seus serviços parece impossível que isto possa acontecer. 

Gabriel Heinze (41). Inacreditável que o nome de Heinze ainda seja pouco especulado nos clubes do Brasil. Na Argentina, onde o trabalho do técnico muitas vezes recebe reconhecimento independete de resultados, o de Heinze é aplaudido até pelos adversários do Vélez. A maneira como atua o conjunto fortinero encanta pela eficiência e pela beleza; é como se uma coiosa não pudesse viver sem a outra. Porém, com Heinze a conversa precisa ser séria; proposta não recebe sequer atenção caso ela não envolva um projeto sério para o clube. Ele não assina por uma temporada, recusa-se a aceitar que suas ideias não influenciem o trabalho na base e até dispensa diretor de futebol, caso este não entenda a necessidade de proteção ao elenco na sua luta para se construir e evoluir como equipe. Estamos diante de alguém que entende absolutamente tudo de futebol e com quem a conversa é outra. É comum que jornalistas escutem algumas "verdades" do técnico, quando se mostram despreparados nas entrevistas coletivas e soltam bobagens.  

As ideias na cabeça do "Gringo" são tantas que chocariam a muitos por aqui. No futebolístico, os atletas aprendem a jogar sem a bola, gerar e ocupar espaços. A movimentação é inteligente e muito rápida, quando necessário. Pressão alta é sufocante e está ligada ao extermínio da linha de passes da defesa rival. Alternativa de chutão não alivia, pois se depara com uma recomposição defensiva dinâmica, constantemente orientada pelo técnico nos treinamentos.

Com Heinze, a bola é como se fosse a grande amada da vida de um homem (ou de uma mulher): ela merece cuidado, carinho e trato refinado. Saída do fundo é limpa, com zagueiros construtores, que após atraírem a marcação soltam-na ao trio de meias à frente, gerando superioridade. Um luxo.

Na fase ofensiva, apoio é constante e ocorre às costas do centroavante, que precisa de inteligência para gerar movimentos que distraiam os marcadores e gerem espaços sobretudo para um dos meias. O apoio se qualifica com um dos pontas centralizando e abrindo espaço para um lateral ou meia.

Extrair o melhor de seus jogadores, buscar jovens na base, lançá-los, respeitar e ajudá-los na superação de suas deficiências: poucos nas Américas, hoje, são tão bons nesses quesitos quanto o "Gringo". Por isso, Heinze é um tipo de técnico que também pode e deve ser chamado de "professor". Ademais, mostra-se como uma das melhores alternativas para o comando do banco de reservas de uma grande equipe do futebol brasileiro.

ESCREVEU JOZA NOVALIS

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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