Blog do Mauro Beting

Dérbi no céu. Os anjos voam. Mas não precisam ser tão rápidos.

Mauro Beting

Segunda, antevéspera do Dérbi. Palmeirenses e corintianos perdem personagens deliciosos. 

Em 1963, o Palmeiras foi campeão paulista com um time espetacular. Uma autêntica seleção. Quase dois grandes jogadores para cada posição. Mais ou menos como…
Em 1963, Angelo Mariano Luisi comprou a cantina Capuano, no Bixiga. Ele chegara da Itália em 1949. Depois da Guerra onde serviu o país onde nasceu. O caríssimo Antero Greco conta muito melhor essa história no ''fêice'' dele do dono do mais antigo restaurante em atividade em São Paulo, fundado em 1907. Sete anos antes do Palestra Italia. 
Angelo chegou ao Brasil e logo em seguida foi campeão do ano santo de 1950. Título paulista que o levou à Copa Rio. Conquista que ele viu no Maracanã contra a Juventus da Itália dele. Mas ele foi Palmeiras. Até partir logo depois da partida entre o Palestra de Minas e o de São Paulo, em 2017. 3 a 1 para os mineiros contra os campeões brasileiros. 
Na foto, Angelo no clipe final do filme que dirigi com Kim Teixeira: PALMEIRAS – O CAMPEÃO DO SÉCULO. Foi a última visita dele ao Allianz Parque, em 2015. Produção da Marcela Coelho, da Canal Azul. Montagem do Fernando Teshainer. 
Lá, Angelo assistiu ao jogo ao lado do Genaro, amigo que ele nos apresentou. Ambos então com 95 anos. Personagens queridos do filme de nossa vida. A mão no ombro do Angelo é a do Genaro. 95 de vida, 94 de Bixiga. Outra instituição do bairro. Outra voz palestrina na cidade. 
Angelo fala cantando. Canta falando. Toca clarinete como toca corneta no time. Não sei se viu a derrota de domingo. Ele é daqueles difíceis de serem entendidos quando falam. Mas se comunicam em todas as línguas. Apenas nas interjeições. Nas caretas. Nos sorrisos. 
Giovanni Bruno, outra lenda da gastronomia e do clube, partiu no aniversário dos 100 anos do Palmeiras. Angelo, depois de derrota de domingo, e antes do dérbi contra o líder do campeonato. O rival que pode ficar com o título que ainda é nosso. 
Rival que tem menos time hoje, menos elenco, mas muito mais futebol. Com uma defesa que não sofre gols. Bem protegida. E com um goleiro campeão revelado pelo Grêmio que ano passado amargou reserva para voltar ainda melhor em 2017. Não sei se é o mesmo caso para Prass. Não sei. Mas pode ser. Como Zé Roberto não tem sido gigante como é. Como Edu Dracena caiu. Tchê Tchê é outro. Moisés não pode jogar. Guerra não pôde jogar. Felipe Melo e Jean de fora. Borja por fora. O time todo estranho. Cuca se estranhado. Tudo errado até quando se faz certo. 
Só não pode é o Palmeiras jogar a toalha pela bolinha que tem jogado. Só não pode achar que já foi sem ter ido. Só não pode mesmo é perder o fogo alto e interno. Não precisa virar inferno. Mas precisa a chama que clama. O calor que aquece e ilumina. O respeito que não se pode perder como as partidas. O carinho por todos esses que nos fizeram ainda mais. 
A Capuano não será a mesma sem Angelo. Mas ela continua sendo a cantina mais antiga por não ter se perdido e nem partido. Mudou de mãos com ele mesmo e continuou viva todos esses anos. Pode até ter perdido clientes, ter partido pedidos, o sabor. Mas ela é tudo aquilo que se alimentou dia a dia. Tudo que fez a família crescer. 
Respeitar seu Angelo e a Capuano que ele apropriou dá gosto. Respeitar quem não tem sido o mesmo pelo Palmeiras é essencial para não perder o tempero. Precisamos mudar o cardápio. Receitas. Até ingredientes. Mas sem jogar fora. Não é no balde marrom. Nem na reciclagem. É guardar na dispensa. Não dispensar. É deixar a massa descansando. É testar novas e antigas fórmulas. É buscar o alimento para nosso apetite insaciável e intolerante. 
Não é fácil sem o Angelo. Mas não é difícil respeitar a história.

Ligeirinho é o mais ''alto'' na foto. Embora fosse o mais baixo. E era o mais rápido da equipe A DONA DA BOLA, da Rádio Gazeta, que naquele 1994, na Disneyland, em Anaheim, esperava o tetra em Pasadena, não muito longe dali. Já são 23 anos do tetra. Quase os 24 anos de fila do tri para o tetra. Muito tempo. Mas passou rápido como o Ligeiro Eduardo Luiz nos gramados. O primeiro a chegar nos atletas. Um dos primeiros a dar as informações. Um dos últimos a deixar os treinos e vestiários. Uma figura. Meu companheiro de quarto em Santa Clara. Meu cozinheiro ali mesmo. Meu colega de boas risadas e reportagens ao lado da Regiani Ritter. Nosso companheiro de escala com Enio Rodrigues. Outro que já nos deixou. Como o Pedro Luiz Júnior e o Marcello Di Lalla, dois que estão com a gente na foto (eu sou o ''motorista'' que ''bateu'' o carro). Jorge Vinicius está com a gente nessa tarde de brincadeira depois de mais de um mês de trabalho. Nessa foto que registra uma rádio que nos sintoniza até hoje. Podemos estar longe. Mas, no fundo, estamos conectados desde então. Marquinho e família, força e luz nessa hora. Ligeirinho, não precisava chegar tão rápido assim lá em cima. Mas sei que é o seu jeito. Abraços, amigo.

Outro caríssimo colega que era Corinthians tanto quanto era repórter. Morreu líder do BR-17. A última notícia que Ligeirinho deu.