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Valle de saudade. Dois anos sem Luciano

Mauro Beting

19/04/2016 10h12

Fim de tarde à beira da praia em Porto de Galinhas. As pessoas reconhecem Luciano e acenam. Tiram fotos. Ele olha para mim com aquela piscada de olho longa que era toda dele. Responde assim à minha pergunta se não estava com saudade da correria paulistana:

– Toda vez que me bate uma vontade de voltar, penso neste horário, quase seis da tarde, na Marginal Tietê… Aí eu fico aqui mesmo, em Porto de Galinhas.

2003. Estávamos na TV Record. Já tinha trabalhado com Luciano de 1997 a 2001 na Band. Ele e Juca Silveira tinham me levado para lá. Onde estreei em Araçatuba. Corinthians em campo no SP-97. Depois da transmissão, me disse que narraria a Copa da França, em 1998. A Olimpíada de Sydney, em 2000. E penduraria o microfone que desde moleque era dele. E foi de poucos com tamanha qualidade, intensidade, paixão.
Eu tinha um tipo assim em casa. Eu sabia que agora tinha mais um ídolo. Mestre. Colega. Amigo. Do mesmo jeito.

Apenas ri do comentário do Luciano. Eu e Osvaldo Pascoal já tínhamos ouvido isso. Ouviríamos algumas vezes em Copas do Mundo e América. Do Brasil. Brasileiro. Série A e B. Estaduais. De todas as divisões. Libertadores. Mercosul. Sul-Americana. Campeonato Italiano. Espanhol. Liga dos Campeões. Mundial de Clubes. Futebol feminino.

Tudo isso eu comentei ao lado dele.

Muito, mas muito mais ele fez. Pelo vôlei. Basquete. Indy. Tantos esportes. Esporte total. Narrador total. Empresário total. Apaixonado total. Brasileiro total. Aquele cara que um dia narrou numa noite de sábado, 21h45, em Porto Alegre, um jogo de série A e, logo depois, madrugada adentro na churrascaria de POA, mal dormiu e, 11 da manhã de domingo, depois de pouso em Araraquara, narrou segunda divisão paulista em Matão. Com o pique que o comentarista dele (eu) não tinha.

Coloco aqui algumas das tantas lembranças pessoais por ser Luciano aquele sujeito que por mais de 40 anos frequenta nossa casa na hora do lazer e prazer. Todos têm momentos de alegria e tristeza trazidos pela linda voz de Luciano. Ele é da família. Ele nos contou quando fomos campeões. Ele narrou quando perdemos. Ele nos confortou quando apenas empatamos nesta vida que ele tanto venceu. Também por saber virar algumas derrotas.

Ele não parou em 2000. Não parou naquela tarde de 2003. Nem quando voltou para a Band, em 2006. Quando mal conseguia superar problemas de saúde para levantar da cama. E ainda assim levantava a audiência só de falar gol. Cesta. Ponto. Recorde. Record. Band. Bandsports. Globo. SBT. As rádios onde começou. As televisões onde implantou equipes de esporte. Onde criou ou recriou esportes. Onde inventou narradores, comentaristas, apresentadores, repórteres. Onde foi tão generoso com quem começava. Onde foi tão competitivo com quem tentava ser igual a ele.
Não conseguiram.

Ou, se dessem certo, ouviriam dele o respeitoso silêncio. Luciano era elegante. Quando discordava, silenciava. Quando gostava, gritava como se fosse gol.
Por isso ele é e será sempre referência. Merece ter toda transmissão da Band a ele dedicada. Ao menos um gol de Luciano por jornada esportiva. Um dos estúdios da Band em SP merece o nome dele. O do Show do Esporte, por exemplo, precisa ser chamado estúdio Luciano do Valle. Para não dizer ao menos um estádio. Um ginásio. Uma praça esportiva.

Luciano era o esporte. Qualquer esporte. Ele conseguiria inventar o Beach Basket. Ele narraria futebol de botão na TV. Ele faria qualquer coisa. Por saber fazer de qualquer coisa algo.

Sem bordão. Apenas emoção.

A mesma que, depois daquela conversa em Porto de Galinhas, por outros tantos motivos, o levou de volta aos centros mais agitados. Luciano não conseguia viver pelos ares.

Foi nos ares que sentiu o coração de tantas paixões. Pouco antes da Copa que tanto ele queria ver no Brasil. Não do jeito que foi dentro e fora de campo. Até por ter perdido muito da graça sem Luciano. Outro craque que deixa um mundial órfão. Como foi a Copa-06 sem Fiori, que foi dias antes. Como Pedro Luiz, mestre e descobridor de Luciano, nos deixou horas depois da final de 1998.

Como Luciano do Valle deixa órfão o microfone da Band. Ainda bem que os queridos Teo José, Nivaldo Prieto, Ulisses Costa, Oliveira Andrade, Carlos Fernando, Heverton Guimarães puderam dar conta do recado.

Mas é claro que Luciano é o primeiro e único. Foi ele que fez da emissora o que ela é até quando ela não quis ser.

Bandeirantes, o Canal do Esporte. Tudo na conta de Luciano.

Esporte, o Canal de Luciano do Valle.

São dois anos de silêncio sem Luciano. Foram mais de 40 anos de muita emoção com a voz do esporte nacional.
Um Valle de saudade.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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