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Um bico pra lateral vale mais do que um drible no Brasil

Mauro Beting

30/05/2016 13h25

 

kichute

Dos tempos do Kichute

 

Já escrevi tantas vezes a respeito – e quase sempre para espinafrar o torcedor que aplaude mais o boleirão que dá um bico para a lateral (e por vezes celebra o feito como se tivesse defendido um pênalti decisivo) do que o jogador que dribla dois em sequência.

É um dos motivos pelos quais o nosso futebol tem sido isso – e não aquilo que o mundo ainda celebra e aplaude mais que um bico para lateral.

Brasileiro ainda sabe jogar bola melhor do que qualquer outro – na média, pouco acima dela, ou um tanto abaixo como nos últimos dois tempos. Mas não sabemos mais jogar tanto assim futebol – o nosso assunto e interesse.  Também nos perdemos e perdermos partidas por louvarmos mais gladiadores que jogadores. Também por amar quem racha a bola e não quem a trata melhor.

Sabemos ainda jogar bola no Brasil, e com criatividade claro. Como Kelvin. Tem muita velocidade e força. Tem habilidade admirável. Taticamente evoluiu e ajuda muito o time de Bauza. Mas, com a bola, mesmo tendo talento como poucos, quase sempre dribla quando não é preciso, não passa quando deve, exagera na firula, e, em vez de ganhar muito mais do que ele e o São Paulo tem vencido, acaba se perdendo na inconsequência.

Mas, quando faz um grande lance, como fez no final do jogo com o Palmeiras contra Zé Roberto, Kelvin também merecia mais aplausos do que aqueles dados a um bico para longe do zagueiro Maicon. Becão que ganhou na marra e na garra a torcida que estava carente de qualidade, ídolos e, sobretudo, do espírito de gente como Maicon. Um Lugano com mais pulmão, e todo aquele coração do ídolo uruguaio.

Maicon não e só rebatedor, dever dizer. Tem alguma técnica nos pés. Aprendeu muito no Porto – de onde só saiu por questões com o treinador. Mas o mérito dele é algo que Maicon tem muito e que vinha faltando demais ao São Paulo nas últimas temporadas: esse cara que corre e marca e defende e sua e sobe e desce e sofre e cresce e todas as letras E de energia, entrega, estamina e o que for.

Não gosto do futebol que só gritou o nome de Maicon na grande vitória contra o Palmeiras. Não gosto de quem mais joga bola do que futebol como o inconstante e inconsequente Kelvin – embora esteja cada vez mais confiável. Não gosto de quem mais lembra lances deles do que o gol de Ganso e muitos dos bons momentos do camisa 10 cada vez melhor – mas que pode e deve jogar ainda mais.

Até entendo as carências são-paulinas nos últimos anos. Um time tão vencedor desde a fundação anda meio mal das conquistas e dos ídolos, muitas vezes desarmado desde 2008, quando não desalmado, mesmo. Talvez por isso Ganso ainda não seja tão reconhecido depois de quase incinerado pelas más atuações e péssimas partidas em que flanou pelo gramado. Talvez por isso Maicon seja tão incensado no resgate do sentimento de vestir a camiseta como única pele.

Nada contra o zagueiro e a admiração que rapidamente conquistou. Tudo contra o futebol que mais enaltece quem sua do que o cara que chama a bola de sua.

 

 

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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