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#TiteTimão

Mauro Beting

15/06/2016 20h12

 

Tite vê o Corinthians vencer o Vasco no meio da torcida, no Pacaembu, na Libertadores-12. FOTO: UOL

Tite vê o Corinthians vencer o Vasco no meio da torcida, no Pacaembu, na Libertadores-12. FOTO: UOL

 

O Corinthians tem isso. Transforma o sereno doutor santista em mais um louco do bando como Sócrates. Enterrado na tarde do penta brasileiro, em 2011. Com o punho dos corintianos erguido em homenagem ao doutor honoris-Corinthians. Mãos aos céus e pés nos lugares bem definidos por aquele padre de fala mansa, mas sanguíneo quando necessário. Por aquele técnico de fala muitas vezes difícil, mas de trato fácil. Por aquele técnico que poderia ser Palmeiras (como muito bem foi em 2006) por ser Bacchi. Treinador que poderia ser São Paulo por falar bonito e elegante como cardeal tricolor.

Mas que encontrou no Tatuapé onde mora, no Parque São Jorge onde muito bem ajudou um elenco limitado em 2004 a se reerguer, e em Itaquera onde ajudou a construir um supercampeão, o lar paulistano. A maloca do corintiano não tão sofredor de tanto que é ganhador o Tite campeão estadual, brasileiro, da Recopa sul-americana, da Libertadores invicta, do mundo reconquistado em 2012.

Tite é Timão. Tem o mesmo grito, a mesma melodia, e as quatro letras campeoníssimas de Telê no Morumbi. Tem outros métodos e modos. Mas tem aquela mesma vontade de ganhar nas quatro linhas e não fazer o atleta se perder fora delas. Tem a mesma seriedade para exigir resultados em todos os campos.

Mais que tudo, Tite conseguiu levar a favela ao Japão. Apagou arestas e asteriscos. Rabiscou e redesenhou vários times. Peitou potestades. Ergueu barricadas. Falou muito. Cobrou quem também fala muito. Jogou muito. Também perdeu sem explicação para Guarani e Tolima. Fez Itaquera tão inexpugnável nos pontos muito corridos e bem jogados mas também perdeu cinco eliminatórias em casa. Fez de tudo com não muito. Fez pouco quando parecia ter muito.

Mas o mito Tite nunca se perdeu por fazer pouco dos rivais. Muito ganhou por conseguir se fazer entender pelo corintiano não mais tão maloqueiro e não tão mais sofredor, graças a ele.

Tite.

O cara que, na definição do presidente corintiano, merece a Seleção da CBF, embora a CBF não mereça Tite. Faz muito sentido.

A questão que melhor explica Tite é a consternação corintiana pela saída de um dos maiores treinadores da história do clube – e só ser comparado a Oswaldo Brandão já é o maior título. Mas tem muito mais: a celebração dos maiores rivais pela chegada dele à Seleção é outra senhora conquista dele. Tricolores, alviverdes, alvinegros praianos e muitos rivais celebram a saída de Tite do Corinthians. Um desfalque notável.

Esse só não é o maior prêmio de Tite corintiano por algo que aconteceu com ele e com os fiéis alvinegros nas quartas-de-final da Libertadores de 2012, no jogo de volta no Pacaembu.

Corinthians 0 x 0 Vasco. Cássio fazendo milagre contra Diego Souza. Tite expulso.

Ele e Edu Gaspar no meio da torcida, quase na linha de fundo da meta do tobogã. Ele orientando o time com o torcedor corintiano. Passando o que era possível de instrução. Alex cruzando a bola na cabeça de Paulinho. Pelota no fundo da meta de Prass. 1 a 0 Corinthians, evitando os pênaltis que ainda não eram especialidade do goleiro vascaíno.

Mais que o golaço de Sheik na Vila na semifinal, o de empate de Danilo na volta contra o Santos, a romaria de Romarinho na Bombonera na primeira decisão, os gols do título de Sheik calando o Boca e mordendo dedos, o PQPaulinho! (grande sacada do diário LANCE!) contra o Vasco é o gol do título corintiano. Ou o mais corintiano dos gols do título invicto.

Foi na raça. Foi no laço. Foi muito Tite.

E ainda mais Timão com o treinador celebrando no meio da torcida. Dirigindo o time como desde 1940 o Corinthians meio que foi governado nos alambrados e arquibancadas do Pacaembu. Para o mal das garrafadas na Libertadores em 1991. Para o péssimo da quase invasão em 2006. Mas para o bem maior da libertação corintiana em 2012.

Mais que a final contra o Boca ou a vitória contra todo o Santos na semifinal. O título de 2012 foi mesmo encaminhado na defesa da futura Muralha do Japão Cássio. Foi sacramentado na cabeçada de Paulinho.

Mas foi tudo ainda mais Corinthians naquela noite em que Tite terminou o jogo como apenas mais um do bando.

A favela não foi no Japão, no final daquele 2012 inesquecível.

A maloca de Tite foi naquele pedaço de arquibancada do Pacaembu.

Nunca Tite se colocou tão bem quanto treinador.

Nunca nenhum treinador foi tão corintiano.

Sorte, Tite, na Seleção. Você merece. Nós também merecemos.

Não precisa ser expulso na final em Moscou.

Mas, se for, tenta dar um jeito de ficar perto da linha de fundo.

Não sou corintiano, você sabe. Mas naquela noite de Libertadores, eu gostaria de ter sido. Só para te abraçar como eles puderam celebrar então. E para sempre.

 

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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