PUBLICIDADE
Topo

1987 não acabou no futebol brasileiro. Mas um livro promete jogar mais luz.

Mauro Beting

21/03/2017 12h57

 

Pablo Cardoso vai muito, muito além da história que tentei contar aqui, a respeito do inacabável 1987.

 

http://maurobeting.blogosfera.uol.com.br/2016/03/15/ora-bolinhas-copa-uniao-1987-um-ano-negro-no-vermelho/

 

Ele vai lançar o livro este ano. Acesse o link e o ajude a publicar:

 

https://dossier1987.wordpress.com/

 

Pablo responde a algumas das minhas conclusões a respeito do tema que não se tem conclusão: quem foi campeão brasileiro de 1987?

 

MAURO BETING – Já nem uso mais o termo "campeão legítimo" para o Flamengo e "campeão legal" para o Sport. Todas as partes erraram. Algumas mais, outras menos. Prefiro dizer que 1987 teve dois campeões. Um mais de fato, outro, mais de direito. E você, Pablo, depois de seu extenso trabalho que vai dar em livro ainda me novembro? Quantos campeões brasileiros tivemos em 1987?

 

PABLO CARDOSO – Eu me permito, respeitosamente, discordar de você: em 1987 tivemos um único campeão brasileiro, e foi o Flamengo. No meu livro eu exponho as razões jurídicas pelas quais acredito nisso, e não quero aqui estragar a surpresa. Só recordo o fato freqüentemente ignorado de que o Flamengo ganhou a causa na Justiça desportiva, que era o fórum adequado para julgar essa controvérsia. 

 

Como advogado de formação, eu evidentemente não ignoro a cláusula constitucional segundo a qual "nenhuma lesão ou ameaça a direito" pode ser excluída da apreciação do Poder Judiciário. O Sport, derrotado na Justiça desportiva, exerceu um direito inquestionável seu ao bater às portas da Justiça comum para reverter essa derrota. Mas há uma razão pela qual a própria Constituição reconhece e legitima a existência desse sistema "quase estatal" que é a Justiça desportiva: no fundo, porque somente esses auditores têm o conhecimento técnico necessário para destrinchar questões de direito desportivo. Nesta causa específica de 1987, o juiz federal que calhou de decidir o caso conhecia pouco ou nada dos princípios e normas que estavam em jogo, e decidiu mal. E eu demonstro isso no livro.

 

Mas essa é, por assim dizer, a resposta técnica à sua pergunta. Só que o meu não é um livro jurídico, e eu exploro muito uma questão que para mim é fundamental para situar essa controvérsia no terreno adequado: a da memória afetiva. Num país louco por futebol como o nosso, acho um contrassenso sem tamanho alguém pretender ter sido campeão brasileiro no anonimato, sem ninguém ter visto, sem ter entrado para a memória afetiva do torcedor. Não há campeão sem o seu gol iluminado, para lembrarmos aquele momento quase místico da consagração do grande Internacional de 1975. Em 1987, o Flamengo teve isso, com Renato Gaúcho arrancando da risca do meio-campo para calar o Mineirão. O Sport não teve. Essa constatação, mais do que qualquer outra, é a minha resposta à sua pergunta.

 

 

MAURO BETING – A CBF foi incompetente em todas as acepções e planos, deixando os clubes tomarem conta de tudo. É a mais bandida nesse enredo sem mocinhos?

 

PABLO CARDOSO – Sem dúvida, e eu deixo isso claro já no começo do livro: o Sport não é o vilão dessa história. O Sport calhou de estar na hora certa e no lugar certo para explorar ao máximo uma situação que jamais se repetiria, uma oportunidade única de ver-se considerado campeão brasileiro sem passar pelas provas de fogo necessárias para o coroamento de qualquer campeão brasileiro que se preze. O grande vilão são a CBF e — detalhe importante, tantas vezes esquecido — as federações estaduais, que juntas trataram de frustrar aquele ensaio de revolução moralizadora conduzida pelos grandes clubes e pelo professor Manoel Tubino, presidente do CND. 

 

Sem entender esse aspecto central é impossível entender o que se deu em 1987. Ali, naquele momento de redemocratização do país, uns tantos visionários — com virtudes e defeitos, erros e acertos — tentavam livrar-se do entulho autoritário que duas ditaduras legaram ao nosso futebol, avassalando os clubes às federações. Estas federações, mais a CBF, resistiram o quanto puderam, e conseguiram quebrar a espinha daqueles clubes revoltosos em 1988. E as coisas continuaram a ser o que sempre foram.

 

 

MAURO BETING – O Clube dos 13 tinha ideias inovadoras e arrojadas. Não sairia campeonato sem ele. Não entraria tanto dinheiro. Mas criou um campeonato iniciado sem regulamento. Ele não era o mocinho como pintava a mídia parceira (até demais) e nem outro vilão como mostrava a oposição ao que parecia ser o mais certo?

 

PABLO CARDOSO – Evidentemente que o Clube dos Treze cometeu erros sem fim nessa história, e o principal deles foi confiar numa figura tão controvertida como Nabi Abi Chedid, que era quem, para todos os efeitos, de fato mandava na CBF. Mas esse erro do regulamento eles não cometeram, não. A 5 de setembro de 1987, o Clube dos Treze elaborou a tabela e o regulamento da Copa União, mas ainda acreditava na possibilidade de uma solução consensuada com a CBF. Resultado: submeteu aquele regulamento à homologação da CBF, e o que Nabi Abi Chedid fez foi surpreender o país inteiro, uma semana depois, depois de já iniciada a competição, com um novo regulamento que previa o fatídico cruzamento. Ao longo dos meses que se seguiram, no entanto, os clubes que integravam o Clube dos Treze declararam uma e outra vez que se pautavam pelo seu próprio regulamento, aquele de 5 de setembro, e que tudo o mais era uma tentativa da CBF de apropriar-se indevidamente de um esforço que era dos clubes, não dela.

 

 

MAURO BETING – Flamengo e Inter fizeram no quadrangular de cruzamento dos módulos o que foi acordado pelo Clube dos 13: nenhum membro do C13 participaria do quadrangular em janeiro de 1988, perderia os jogos por W.O… Eles podem ser tão demonizados assim?

 

PABLO CARDOSO – Não podem, e por dois motivos. O primeiro é que fizeram essa coisa tão rara entre nós, que é cumprir a palavra empenhada. Volta e meia a gente ouve dirigentes de outros clubes dizendo que, se fosse com o time deles, jogariam, sim, o cruzamento, a despeito do que dissesse o Clube dos Treze. Com todo o respeito, acho que uma declaração dessas diminui a estatura moral de quem a pronuncia e do clube que ele representa.

 

 

Essa a primeira razão, mas há uma outra, de fundo legal: o cruzamento imposto pela CBF era ilegal por diversas razões, à luz da normativa do CND, que era o órgão competente para legislar sobre a matéria. E isso não é apenas interpretação minha: há pronunciamentos do próprio CND, pela boca de seu presidente, ratificando esse entendimento. E tanto é assim que, apesar das ameaças vãs de Nabi Abi Chedid, Flamengo e Internacional não jogaram e não sofreram qualquer punição.

 

 

MAURO BETING – O Sport fez de tudo pelos direitos dele. Até o que não deveria – Justiça fora da Esportiva. Foi esperto, junto com o Guarani, ao empatar os pênaltis na decisão do Módulo Amarelo, demonstrando que o que interessava mesmo era o cruzamento lá na frente. Mas fez o que qualquer outro clube teria feito.

 

PABLO CARDOSO – Vou passar ao largo da questão dos pênaltis, que eu exploro em maior detalhe no meu livro. Só me permito recordar que, ao agir assim, os dois clubes expuseram-se a punições disciplinares. E essas punições só não vieram porque ali havia um entendimento tácito de que os dois — mais o Sport que o Guarani — faziam o jogo da CBF e das federações, que portanto não tinham interesse nenhum em puni-los. 

 

Essa a primeira questão. Há a outra: o Sport fez o que qualquer outro clube teria feito? Tenho minhas dúvidas. Acho que, aqui como no caso dos pênaltis, o Sport ganhou um passe livre porque defendia interesses convergentes com os da CBF e das federações, que trabalhavam para pôr fim à revolução do Clube dos Treze. Não fosse assim, a CBF, com o apoio da FIFA, teria caído com todo o rigor da lei em cima do clube que ousasse ir resolver na Justiça comum as suas lides desportivas. Essa é a pedra de toque de todo o sistema montado por João Havelange, mas em 1988 a CBF convenientemente esqueceu-se dessa regra porque entendeu que aquele era o caminho para quebrar a espinha do Clube dos Treze. Ou seja: deixou o Sport agir ao arrepio das normas, porque no fundo estavam do mesmo lado.

 

 

 

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

Blog do Mauro Beting