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Blog do Mauro Beting

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Botafogo campeão. 30 anos depois de 21.

Mauro Beting

2021-06-20T19:10:02

21/06/2019 10h02

Desde 1968, quando um timaço com Jairzinho, Gérson, Paulo César Caju e grande companhia foi bicampeão carioca e também vencedor da ultima e bagunçada Taça Brasil (só conquistada no final de 1969), o Botafogo não vinha sendo Botafogo. General Severiano não era mais. Marechal Hermes também não havia sido o lugar. Times frágeis e revelações esparsas mal ficavam no clube que ficava de mal com a história gloriosa.

Dívidas. Dúvidas. Divididas perdidas. Campeonatos vencidos pelos outros ou mal disputados pelos próprios.

Até 21 de junho de 1989. Maracanã. Noite de quarta.

O primeiro estadual desde 9 de junho de 1968.

Domingo no Maracanã. Com feio céu de chumbo como os dias daquele Brasil ditador. Cinza como as belas meias botafoguenses. "Mau tempo como o 5º ato de Rigoleto" escreveu no dia seguinte Nelson Rodrigues, em O GLOBO. "A maioria no Mário Filho era Vasco. Ou antibotafogo". Então campeão de 1967. Bicampeão em 1968 porque Jairzinho "desintegrou a defesa do Vasco" e Gerson esteve em "furioso estado de graça", nas imagens rodrigueanas do espetáculo para 120 mil pagantes.

E 21.511 pagantes.

21! Jamais esqueça esse número se você é Botafogo de 1989. E pra sempre.

Porque pouco mais de 21 anos depois dos 4 a 0 no Vasco no RJ-68, em 21 de junho de 1989, no Maracanã, o Flamengo tinha melhores jogadores do que o Botafogo. Muuuito mais dinheiro. Mas não foi mais time. Também porque naquela quarta-feira à noite, quando a equipe de Telê estava melhor, perdeu num só lance uma ótima chance e o atacante Alcindo, lesionado. O Botafogo equilibrou.

Ricardo Cruz fez ótimas defesas, a melhor numa cabeçada de Bebeto no ângulo, aos 38. Até Zico também sentir lesão muscular aos 9 do segundo tempo. Ele estava saindo de campo quando Ailton foi derrubado na entrada da área. Zico ficou só pra bater a falta. Não teve botafoguense vivo ou morto que não imaginou o pior. Tinha que ser naquela hora? O mundo via. O Botafogo antevia. Vai ser gol de Zico. Claro! O artilheiro do Maracanã. Ele bate a falta no canto esquerdo do Ricardo Cruz, sai pro abraço e sai do jogo. Típico Botafogo. Tipo Zico.

Zico bateu lá mesmo. Canto esquerdo. Meia altura. Ricardo Cruz foi e não achou. A bola saiu lambendo a trave. Zico saiu em seguida.

Outro desfecho. Outro Botafogo.

Não deu 2 minutos depois de Marquinhos substituir o Galinho.

Mazolinha (que substituíra ainda na primeira etapa o também lesionado Gustavo) cruzou da esquerda, Maurício empurrou Leonardo, e venceu Zé Carlos, aos 12 minutos.

1 x 0 Botafogo. O suficiente.

12 minutos. 21 ao contrário. No 21º cruzamento no clássico de 89. Que é 68 de cabeça para baixo.

Não sou eu quem conta e nem contra. É o Botafogo. Você sabe. Eles, muito mais.

O Flamengo se atirou à frente depois do gol de Maurício. Camisa 7 como Garrincha. Jogando por três. 7 x 3. 21

Ok. Forcei. Mas a força estava com a estrela solitária. Paulinho Criciúma (artilheiro da equipe com 10 gols) mandou uma bola no travessão, aos 33 minutos, depois de jogada sensacional de Maurício. Aquele que, antes do jogo, recebeu a bênção e a torcida de Nilton Santos: "hoje você vai incorporar o espírito de Garrincha".

Os mais de 56 mil pagantes viram então o Flamengo tentar mas sem conseguir. E o Botafogo então ser campeão depois de 21 anos.

Invicto.

Mas só ganhando um clássico no RJ-89. Justo o de exatos 30 anos atrás.

Não ganhava um clássico havia três anos. Desde abril de 1986 sem ganhar jogos grandes no Rio. Mesmo com baita campanha de 15 vitórias e 9 empates no RJ-89, faltava o título que desde 1968 não chegava.

E tinha que ser justo na noite em que Zico saiu lesionado para apenas encerrar a carreira logo depois, como anunciou ainda no vestiário derrotado.

Zico que, quando jogou, não viu ou não deixou o Botafogo ser campeão. Foi só sair de campo e da carreira que o jogo virou.

Quando já tinha faixa de campeão carioca na estátua de Bellini no Maracanã. Pouco antes do Manequinho enfim ser vertido com a camisa gloriosa, não mais dos rivais.

Ainda assim tinha quem não acreditava. Como o treinador Valdyr Espinosa. Em 1983 ele foi campeão da América e do mundo pelo Grêmio em que foi lateral e é torcedor. "Mas a minha maior emoção foi ser ser campeão enfim pelo Botafogo no Maracanã". Não era papo. Era fato. Desde o primeiro jogo com elenco desconfiado e limitado, a cada jogo que não perdeu, ele dizia que só acreditaria mesmo no título quando visse escrito no eletrônico do Maracanã:

"BOTAFOGO CAMPEÃO"!

Ele só conseguiu ver depois de engolido e afogado em abraços do elenco, comissão técnica, direção, torcida e credo que eram um só.

Tudo graças ao gol de um rubro-negro de berço na Pavuna. Maurício. Nasceu com pernas arqueadas 26 anos antes de O Gol. O médico disse pra mãe que ele seria boleiro. Tinha pernas tortas de Garrincha. Ele seria mesmo fã do Jairzinho de 1968. "Só que naquela noite ele incorporou o espírito de Mané Garrincha, como eu havia dito a ele antes do jogo". Palavras de Nilton Santos.

Espírito e profecia de parteiro e de Enciclopédia.

O "parabéns a você" que as outras torcidas gritavam pelos mais de 20 anos de jejum para os alvinegros eram então entoados pela minoria no Maracanã. Mas maioria nas ruas da cidade pela madrugada e no dia seguinte no centro carioca.

Alvinegros campeões gritando por Espinosa e pelo vice-presidente Emil Pinheiro. "Agora eu posso morrer tranquilamente", disse ele.

"Tu és glorioso. Não podes perder, perder para ninguém", cantou o volante Luisinho, desde os 13 anos no Botafogo, ainda no emocionado gramado do Maracaju. Ele foi um dos que não fizeram o time perder ou se perder.

Como Espinosa. No comando sereno. E em outra profecia bem Fogão: no intervalo, depois de partida discreta, um dos melhores jogadores da equipe pediu para sair do jogo porque não estava bem, a ponto de quase chorar por isso ainda no gramado. Espinosa rebateu: "fique tranquilo, reze pra nossa senhora, e volta pro jogo que o gol do título vai ser o seu".

Desde a véspera ele sentia dores musculares e febre de 39 graus. Pensou mesmo em não jogar. Chegou a falar ao elenco a respeito. Mas só no jantar. Só na mesa ele disse para o grupo e treinador que não estava bem. Ficou melhor na hora! Todos os jogadores falaram que correriam por ele.

Ele, Maurício.

E assim se fez. E assim já foram 30 anos. Muito mais que os 21. Com títulos estaduais. Rio-São Paulo. Conmebol. Brasileiro de 1995.

Mas em 52 anos nunca vi uma conquista tão botafoguense como a de 1989.

Até porque nem o botafoguense consegue ver algo tão Botafogo como tudo isso.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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