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Clubes não são “democráticos” ou “ditatoriais”

Mauro Beting

31/07/2019 13h58

O Corinthians que bravamente empunhou a bandeira da Democracia em 1982 em campo e fora dele, dentro do clube e pelo país comandado pelo cartola Adilson Monteiro Alves, é o mesmo Corinthians do anúncio adesista abaixo, publicado no DIÁRIO POPULAR em 16 abril de 1964, quando Castello Branco assumiu como primeiro presidente militar depois da deposição de João Goulart:

Quem publicou o anúncio foi o cartola que seria eleito deputado da Arena em 1967 no auge da ditadura: o não menos despótico no comando corintiano Wadih Helu. A Gaviões da Fiel também foi fundada para combater seus poderes no Parque São Jorge.

Em 1975, um discurso de Helu, com aparte do nobre deputado José Maria Marin, criou o clima para que, duas semanas depois, o jornalista Vladimir Herzog fosse preso, torturado e morto (mas com os assassinos criando uma falsa cena de suicídio).

O Corinthians não foi só o da Democracia que foi de todos as cores como não foi só o da Ditadura de Helu.

Em 10 de novembro de 1978, o clube ganhou a concessão por 90 anos da área de Itaquera. O prefeito biônico Olavo Setúbal cedeu em solenidade com o governador biônico Paulo Egídio Martins e o presidente-general Ernesto Geisel um terreno de 197 mil metros quadrados para a construção (até no máximo 1984) do "maior estádio do mundo", nas palavras do presidente corintiano Vicente Matheus.

Ele que leu o seguinte discurso para o presidente do país:

"Os corintianos de todo o Brasil responderão 'presente' ao gigantesco desafio que lhes é lançado para a edificação da sua casa. À semelhança como respondeu toda a Nação ao chamamento da Revolução de 64, para a edificação da grande Pátria brasileira, rumo aos seus destinos de potência mundial!"

O Corinthians, como qualquer clube em qualquer tempo e campo, vai pro lado que seu presidente de direito (ou não) quer. Dever da imprensa sempre alertar isso. Para os que sabem da história. Para os que fingem que esquecem. E para os que não têm mesmo a menor ideia. "Lacrada" ou não.

Quando o ex-deputado do PT Andres Sanchez manda como presidente do clube retirar a camiseta de uma exposição de basquete do Corinthians com a pergunta cidadã (mais do que política) sobre os assassinos de Marielle ele joga para debaixo do tapete sujo um crime.

Como seria a mesma coisa tirar por esse motivo uma camiseta com a inscrição "quem mandou dar a facada em Bolsonaro?"

Não é questão política ou policial. É de respeito. De vida.

Nem é afirmação. É interrogação. Dúvida legítima.

Melhor do que a questão absurdamente levantada pelo ex-presidente do país e ex-conselheiro do clube. Lula disse em entrevista na prisão que duvidava da veracidade da facada e da operação médica. Duvida dos fatos e de profissionais.

Quem matou Marielle é tão assassino quanto quem tentou matar Bolsonaro. Não sei se é um ou se existem outros.

Só sei que se mata a liberdade de tudo quando se tira fora uma camiseta que não afirma, apenas pergunta.

Não se conspurca a história democrática do Corinthians em 1982 porque em 1964 e 1978 ela já havia sido com as apologias à ditadura e o amém a quem deu Itaquera.

Mas tirar uma camiseta de uma exposição a pedido de conselheiros expõe os dias de luta e de luto que vivemos. À minha esquerda e à sua direita.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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