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Blog do Mauro Beting

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Altair e o mal do nosso esquecimento

Mauro Beting

16/08/2019 19h47

Fiapo era o apelido de Altair. Só Castilho, Pinheiro e Telê jogaram mais vezes pelo Fluminense do coração do lateral-esquerdo campeão mundial no Chile em 1962. Ele só foi Flu desde os 15 anos quando chegou nas Laranjeiras. O Vasco o quis ainda menino pelos treinos onde esbanjou regularidade e técnica como zagueiro. Mas ele queria o Tricolor. Tanto que a irmã forjou a assinatura do pai que não o queria jogador.

Vários clubes o quiseram quando virou lateral limpo e leal. Rei do carrinho. Mas ele só queria o Fluminense. Tanto que depois de ganhar 3 estaduais e 2 Rio-São Paulo, trabalhou no clube treinando meninos e auxiliando marmanjos. Como em 1966 também tentou ajudar jogando mais uma Copa. Mas essa era melhor esquecer pelo vexame brasileiro na Inglaterra.

Só que vergonha mesmo é quase ninguém lembrar dele. Altair morreu há uma semana. Em alguns estádios não teve minuto de silêncio. No enterro, apenas 18 pessoas. Nenhuma homenagem do Fluminense. Só Jair Marinho, companheiro de Flu e de Brasil em 1962, amigo de mais de 50 anos. Só uma coroa de flores da CBF.

Faz uma semana. E eu também só soube hoje que aquela simpatia que conheci há 10 anos partiu silencioso e discreto como era. Mas como não podemos deixar ser.

Esquecemos Altair. Como ele há quase 6 anos vinha esquecendo o que era. Na Copa das Confederações em Brasília ele se perdeu da comitiva. Foi encontrado por colegas jornalistas no meio da rua. Levado ao hotel, conta Alexandre Lozetti, ele falava que era campeão do mundo. E que ao ver as luzes bonitas da embaixada da Itália, comentou que ali poderia ser o novo estádio do Fluminense.

Altair sofria de Alzheimer. Esquecia muitas coisas. Mas jamais o Fluminense. A glória que o clube lhe deu dando ao Brasil o mundo.

E nós nem aí. A imprensa contando pouco. O clube, ainda menos. A CBF, o protocolar. Eu ainda me perguntando como jornalista, pesquisador, cidadão e ser humano como eu não sabia.

E como Altair, mesmo doente, ainda lembrava e respeitava mais do que todos nós.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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