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A primeira final de 1981: Flamengo 2 x 1 Cobreloa

Mauro Beting

20/11/2019 19h53

Do livro "1981", lançado em 2011, escrito por mim e André Rocha, editado pela Maquinária Editoria. Obra oficial do Flamengo.

https://m.youtube.com/watch?v=jqz6pafyu_c

Jogo 1: Flamengo 2 x 1 Cobreloa – Maracanã, 13 de novembro de 1981.

O chileno Cobreloa tinha menos de cinco anos de vida. Mas já conquistara o título chileno de 1980 e dois vices. Na primeira Libertadores, eliminara nas semifinais Peñarol e Nacional (campeão de 1980), com vitórias em Montevidéu. Time maduro, com bom e veloz contragolpe. Melhor até fora de casa que jogando em seu campo.

Páreo duro para o Flamengo. Até por jogar duro demais. No limite da virilidade e violência. Ou dentro dos parâmetros do gramado-sem-lei da Libertadores dos primeiros anos. "Era uma competição dura e estranha para os brasileiros. Os jogadores temiam disputá-la. Eram jogos violentos dentro e fora de campo, cercados de boatos de compra de juízes", lembra Júnior. "Mas uma vez mais o Flamengo foi original: entrou, venceu e mudou essa história".

Carpegiani estudara bem o rival com a ajuda do ex-colega de Internacional, o meia-direita Bráulio, que havia atuado pela Universidad de Chile. O experiente treinador argentino Vicente Cantatore queria neutralizar Zico, Adílio e Júnior. Plantou o Cobreloa atrás da bola para explorar a velocidade dos bons pontas Puebla e Múñoz (os únicos velozes) alternando pelos lados às costas de Leandro e Júnior (que sentia o adutor da perna direita). Ambos bem lançados pelo capitão da equipe (Merello), um bigodudo atarracado, meio gordinho, mas de boa técnica. Siviero era o centroavante trombador e tosco, perigoso de cabeça. Merello era o meia mais à direita e avançado do 4-3-3 chileno. O violento volante Jiménez era o bedel de Zico, e Alarcón espanava a cabeça da área, protegendo os laterais Tabilo (que apoiava mais) e Escobar, e os brutos zagueiros Rojas e Mario Soto (ex-Palmeiras). Na meta, quem segurava bem o tranco era o goleiro Wirth. Apenas ele, o lateral-esquerdo Escobar (que fazia somente o terceiro jogo na temporada 1981, depois de longa contusão no joelho) e Soto atuavam na seleção chilena, que disputaria a Copa de 1982 na Espanha – e seria eliminada na primeira fase.

"Nem na final do Brasileirão de 1980 eu fiquei tão nervoso como naquela noite, chegando ao estádio", conta Júnior. "Só pensava que nosso time era melhor, que os caras apenas corriam muito e eram violentos. Aos poucos fui me acalmando e entrei tranquilo", lembra. O goleiro Wirth impediu que o Flamengo abrisse a contagem aos 5 minutos. Depois de uma bela e manjada arrancada rubro-negra, com Zico iniciando a jogada mais atrás, Adílio fazendo o "pivô" enfiando para o Galinho se infiltrar. Mas, aos 12, Wirth não conseguiria repetir a grande defesa num lance que parecia replay. Adílio e Zico tabelaram até o craque passar por Soto e bater sem chance. Um a zero. Nas duas jogadas, Nunes estava bem aberto à direita, abrindo passagem para o talento que vinha de trás.

O Flamengo não tirou o pé do fundo. Marcava a saída de bola chilena e dividia todas com raça. Em quase todo lance chegavam na área, além de Nunes, os três meias (Lico, Zico e Tita) e mais Adílio e Júnior pela esquerda. Depois do 6 a 0 no Botafogo e de um 6 a 1 no Americano, o 4-2-3-1 parecia solidificado, com a variante para o 4-1-4-1, com a chegada constante de Adílio.

Em 26 minutos, quatro reais chances. O saldo de gols precisava ser ampliado, embora só valesse no caso de empate depois do tempo normal e da prorrogação de um possível terceiro jogo… Se ainda permanecesse a igualdade, os gols marcados fora de casa valeriam como critério de desempate. A disputa de pênaltis era o último critério. Logo, um a zero no Rio parecia pouco. Ainda mais com a bobeada de Leandro, aos 28, que errou na formação da linha de impedimento, e deixou Siviero perder a primeira chance do Cobreloa.

A resposta foi imediata. Lico, que começara pela direita, pela primeira vez escapou pela ponta esquerda. Foi ao fundo até ser derrubado tolamente pelo instinto assassino de Mario Soto, que se atirou de costas para derrubar o flamenguista. Pênalti bem marcado pelo árbitro argentino Carlos Esposito, escolhido por sorteio meia hora antes da partida. Zico bateu rasteiro, no canto esquerdo de Wirth, que caiu do outro lado. A clássica assinatura do placar eletrônico inaugurado em 1980 estampava o nome de Zico. Era o oitavo gol do Galinho na Libertadores.

O time chileno caiu prostrado. Merello só acertava lançamentos para os gandulas. Passes bisonhos eram perdidos. O Flamengo seguia empilhando gols perdidos. Grande combinação entre Adílio, Zico e Lico terminou em bela defesa de Wirth. Com a vantagem de dois gols, o Flamengo passou a marcar mais atrás. Lico se fixou no lado direito, Tita se manteve à esquerda, a bola continuou rubro-negra. Menos em alguns cruzamentos. Mario Soto teve a chance de diminuir numa bobeada da zaga, que deixou o zagueiro cabecear sozinho uma falta cruzada por Merello.

Júnior respondeu com um balaço que Wirth mandou a escanteio, quase no final do primeiro tempo em que o Flamengo deixou o gramado aplaudido. Mas com Carpegiani cobrando mais marcação no meio-campo contra um Cobreloa que não apelou. Acredite se quiser.

SEGUNDO TEMPO

Tudo voltaria ao anormal no primeiro minuto. O volante Alarcón acertou o peito de Júnior com os pés depois de derrubado. Lance para cartão vermelho que também não seria mostrado como deveria aos 3 minutos, quando o marcador de Zico (Jiménez) apenas levou o amarelo depois de uma entrada para fazer o Galinho sair de maca.

Lico deu o troco aos 10, pegando o volante por trás. Zico "prometeu" Mario Soto, reclamando do zagueiro e de todo o time chileno que abusava da maldade sob a complacência do árbitro argentino. Carpegiani saía do banco e pedia para o time não cair na provocação, e evitar o jogo mais lento e floreado no segundo tempo, que já irritava os 93.985 pagantes, que deixaram mais de 29 milhões de cruzeiros nas bilheterias.

O Cobreloa colocou o armador Gómez no lugar do ponta-esquerda Múñoz, aos 11. Mozer botava mais querosene no gramado deixando o cotovelo no rosto do ponta-direita Puebla. Alarcón passou a entrar duro em Zico no lugar do pendurado Jiménez. O Flamengo parecia se dividir entre a vitória administrada e o jogo do domingo à tarde contra o Fluminense, que poderia decidir o terceiro turno do estadual. Melhor em campo, mais uma vez, Zico tentava organizar a equipe e se apresentava em todas as situações. Aquilo que Telê Santana, treinador do Brasil, via no seu camisa dez: "Zico é um craque e um grande profissional: humilde, sério, cumpridor dos deveres, sabe jogar e gosta de jogar." O problema é que o restante do time parecia ter entrado no ritmo do vale-tudo chileno. Num lance tolo, aos 20, Andrade descascou Siviero. Cartão amarelo gratuito.

Desnecessário como o pênalti que Lico cometeu ao tentar desarmar Siviero, logo depois.

O Maracanã berrou "Raul". Mas os chilenos gritaram Merello, aos 21 minutos. Ele bateu rasteiro no canto direito. O Cobreloa cresceu. E seguiu baixando o ferro. Aos 27, o zagueiro Rojas derrubou Júnior que caiu no gramado e foi atingido na sequência pelo lateral Tabilo, que encheu a bola na cabeça do Capecete. Lance de cartão amarelo duplo para os chilenos. Mas quem amarelou foi o árbitro que nada fez, e tudo deixou os jogadores do Cobreloa baterem.

Carpegiani deu descanso para Lico (dos mais discretos da equipe, juntamente com Nunes), e reforçou e pagada com Baroninho, aos 29. Faltava melhorar a bateria antiaérea que perdia várias bolas para os chilenos, ainda que mais baixos. O Flamengo também respondia as pancadas no mesmo baixo nível. Mozer merecia amarelo por entrada dura em Puebla. Mário Soto respondia rasgando tudo, com raça e com raiva.

Mas ainda havia graça e técnica. Adílio (que só não jogou melhor que Zico a primeira partida decisiva) quase marcou um golaço por cobertura, um minuto antes de Nunes perder um gol onde Wirth achou grande defesa, até no rebote o goleador perder chance que não poderia, aos 36. O cansaço do show e da festa do domingo anterior contra o Botafogo, mais o jogo contra o Americano, na terça-feira, e Fla-Flu no domingo, pregava as pernas rubro-negras naquela noite de sexta-feira.

O torcedor – que cantara no primeiro tempo "Das Maravilhas do Mar, fez-se o esplendor de uma noite", samba da Portela no desfile de 1981 – parecia mais nervoso que o time. Passe curto e errado de Leandro para Baroninho irritou o Maracanã. Na sequência, aos 39, contragolpe do Cobreloa quase deu no empate chileno. Zico voltou à grande área e pagou geral. De Raul até os gandulas, todos puderam ouvir a bronca do Galinho de briga. O Flamengo não podia mais apenas lutar naquela batalha campal contra o Cobreloa. Precisaria cobrar um pouco mais de todos. Até porque o time chileno, menos desgastado, agora corria mais.

A bronca do capitão não surtiu o efeito esperado. Andrade deu um susto no Maracanã ao brincar na entrada da área, perder a bola e fazer falta. Mais uma vez a firula exagerada exaltava o excesso de confiança da equipe. Não era hora e nem local para aquele tipo de jogo, como constatou Carpegiani logo depois: "Complicamos um jogo fácil… Temos feito várias partidas e ainda teremos muitas mais. Em 40 horas tem Fla-Flu. Não podemos tentar fazer o mais difícil". Hoje, ele garante que aquele preciosismo em lances na entrada da área era muito debatido no grupo. Mas… "Às vezes acontecia. Era justificável pela técnica e características dos jogadores. Algumas vezes se excediam. Porém, de um modo geral, eles sabiam o momento certo para a jogada de efeito".

A chateação de Carpegiani se estendeu às arquibancadas. A torcida celebrou com moderação a justa vitória de um time que criou o triplo de chances num jogo violento além da conta. E terminou fazendo contas apertadas para os prováveis apuros da sexta-feira seguinte, em Santiago.

O comentarista João Saldanha, no "Jornal do Brasil", creditava ao desgaste da maratona de seis jogos em 15 dias a queda de produção do Flamengo no segundo tempo. "Esta partida evidenciou que o time do Flamengo saiu no 'bagaço' e agora quem tem que decidir se quer ou não a Libertadores são os dirigentes. Se escalarem o time titular contra o Fluminense, depois contra o Volta Redonda, não há jogador que aguente."

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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