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O jogo do título de 1981: Flamengo 2 x 0 Cobreloa

Mauro Beting

23/11/2019 09h47

Jogo 3: Flamengo 2 x 0 Cobreloa – Estádio Nacional de Montevidéu, 23 de novembro

https://m.youtube.com/watch?v=oPDRZKsND5M

Em janeiro de 1981, no Mundialito organizado pela federação uruguaia, o Brasil de Telê Santana empatou com a Argentina campeã do mundo em 1978 por 1 a 1, goleou a Alemanha Ocidental campeã europeia em 1980 por 4 a 1, e perdeu a decisão para o anfitrião Uruguai por 1 a 0. Naquele torneio, o Brasil de Telê começava a ser o time que encantaria a Europa numa excursão em maio de 1981, vencendo Inglaterra, França e Alemanha. Tranformando-se no maior favorito ao título mundial em julho de 1982, na Espanha. Brasil que encantaria o mundo mesmo perdendo a Copa para a Itália de Paolo Rossi numa tarde impressionante em Barcelona. Quando um time de Leandro e Júnior nas laterais e Zico numa linha de três armadores fez história. Meses antes, numa noite de segunda-feira, 23 de novembro de 1981, no Uruguai, essas mesmas feras, armadas num 4-2-3-1 semelhante ao do Brasil de Telê, ganhariam a América no mesmo Centenário em que quase tudo começara em janeiro de 1981. Para o Brasil de Zico. Para o Flamengo de Zico.

O alto-falante do mítico estádio uruguaio, palco da primeira final de Copa, em 1930, estava ligado com música a todo volume quando o terceiro jogo decisivo começou, às 21h20. Empate nos 90 minutos levaria a decisão à prorrogação. Algo que o Flamengo não queria. E talvez não pudesse suportar pela maratona que vivia.

O Flamengo, que entrou no gramado com Zico e Leandro à frente carregando a bandeira uruguaia, começou atacando à esquerda das cabines de TV. Vestindo o uniforme número um. Com gigantescos números brancos às costas. Parecidos com os que tradicionalmente usam as equipes do Chile. Talvez fosse o único ponto comum entre brasileiros e chilenos depois das duas batalhas decisivas.

Os espíritos estavam mais que armados. Para o treinador Cantatore, o time dele era mais "vibrante". Reconhecia a técnica superior carioca, "mas eles não têm a valentia do Cobreloa. Começamos a ganhar o jogo de Santiago ainda no Rio. Os jogadores do Flamengo são ótimos, mas não têm espírito de decisão".

Vinte e um dias depois o treinador argentino certamente não diria o mesmo do campeão do Rio, da América e do mundo. Mas bastaria ouvir Nunes falando e pautando a imprensa na véspera do terceiro jogo para entender as intenções rubro-negras: "Pode colocar no seu jornal aí: se não ganhar este jogo, o Flamengo pode suspender meu contrato. Ah! E põe também que eu vou pegar o Mario Soto".

Não só Nunes. Todo o Flamengo só pensava em revanche no pau, na pedra e na bola. "Não pensávamos só no título. Queríamos vingança. Não sabíamos o que era perder no grito, na intimidação. Queríamos ganhar dando um chocolate neles, bem amargo e derretido", lembra Júnior:

– Eles sabiam que só podiam equilibrar as forças levando o jogo para aquele clima. E mesmo assim o jogo não foi ruim, tivemos algumas chances. Me pisaram quando estava caído, mas eu também soltei meus cotovelos em outros lances. O que foi fundamental naquele jogo foi que chegamos ao vestiário e dissemos "Aqui acabou. Se formos jogar bola em outro lugar a gente leva". Estavam todos revoltados, mas conscientes que não poderíamos entrar num clima de revanche. O papo foi "A melhor vingança vai ser a volta olímpica".

Vítima de uma das tantas entradas do zagueiro-esquerdo e capitão chileno Mario Soto, Lico estava fora do jogo. Sem o volante Vítor, lesionado, como opção preferencial para fechar o meio, Carpegiani poderia voltar com o ex-titular Baroninho não mais como um ponta, mas como um armador pela esquerda, vindo de trás. O treinador preferiu reforçar a marcação na intermediária com dois pegadores de pedigree: Andrade e Leandro, convertido como volante. Explica Carpegiani:

– Sabia que o Cobreloa colocaria dois homens em cima dos nossos zagueiros. Por isso desloquei Leandro para o meio, para que tivéssemos dois homens protegendo a entrada da área. Quando passei a escalação, fui muito criticado no Brasil. Quando deu tudo certo, o sabor foi especial. Muito por mérito do Leandro, que era um jogador fantástico. Naquela partida, como volante, ele foi perfeito.

Fala Andrade: "O Leandro ou o Vítor faziam muito bem essa parceria comigo no meio-campo. Eu gostava porque tinha mais liberdade para atacar e o Adílio jogava pela esquerda. Os laterais também atacavam mais tranquilos". Nei Dias entrou na lateral direita. Na esquerda, aberto como o terceiro armador, Adílio estava liberado para criar, desde que também cercasse sem a bola. O pedido de Carpegiani: "Adílio e Tita tinham de fechar no meio-campo, procurando os lances ofensivos bem abertos pelas extremas".

Na zaga, Figueiredo era outra baixa. Quando soube pelo médico que não poderia atuar, chorou por mais de uma hora de tristeza e raiva. Marinho retomou a condição de titular, mantendo a mesma eficiência do zagueiro-direito, com mais velocidade, mas menos técnica, e melhor no jogo aéreo.

O Cobreloa mudava mais uma vez o time. Páez era o novo zagueiro-direito. Jiménez voltava ao meio-campo para tentar blindar Zico. À frente, o ataque tinha Puebla na ponta direita, Siviero mantido no comando de ataque, e Washington Olivera aberto pela esquerda, por vezes fazendo um quarto homem de meio. Mas o desenho tático básico era o 4-3-3.

Quando o uruguaio Roque Cerulo iniciou os 90 (ou 120 minutos decisivos), o Monumental não estava cheio. Era um campo neutro. Ponto para os brasileiros. Melhor ainda quando, na primeira entrada para demarcar terreno e marcar a canela brasileira, o árbitro uruguaio não fez como o compatriota do jogo no Chile. De cara chamou a atenção de Alarcón e amarelou quem já chegou batendo na cara dura. O sinal estava dado. A carnificina não seria tolerada pela arbitragem. Mais uma vantagem para quem sabia jogar.

Zico, quem mais sabia, tinha de cercar Merello sem a bola, mas estava liberado para não deixar Nunes tão isolado. Atuou mais avançado. De cara, o Flamengo estava mais solto, atuando melhor que na sexta-feira. Júnior também ganhava liberdade para o apoio, por dentro ou aberto. Porém, a primeira chance foi chilena, numa falta de Olivera que passou raspando a trave de Raul, aos 11.

O nervosismo da final criou alguns lances bisonhos. Num deles, a falha de Jiménez ajudou o Flamengo a mostrar quem mandava em campo. O volante passou mal uma bola que saiu pela lateral. O arremesso foi cobrado, a zaga afastou, mas Adílio recuperou, recuou para Andrade achar Zico, se enfiando pela área. Com um belo sem-pulo de pé direito, venceu Wirth e o medo. Um a zero Flamengo, aos 17 minutos.

O Cobreloa respondeu como sabia jogar. Acima da medalhinha dos rivais. Alarcón pegou mais uma vez Zico. Desta vez, o Galinho deixou o cotovelo no chileno. O Flamengo prometia bater mais do que retrucara no Chile. Mas ainda menos que o rival. A reação do capitão ajudou a incendiar o primeiro coro de "Meeeeengooooo" da noite. O time veio junto. Tita disparou torpedo na zaga. No rebote, Zico quase fez, aos 20. Wirth impediu o segundo aos 22, depois de novo sem-pulo de Zico, cada vez mais próximo de Nunes, cada vez mais atrapalhando os marcadores Jiménez e Alarcón.

O Cobreloa entrava em parafuso. Tita, aos 22, e Nunes, aos 23, tiveram as chances aos pés. O Flamengo cada vez mais atuava em velocidade e com qualidade, trocando bola e posições do meio para frente como se estivesse na Gávea. O olé ensaiado (mas sem deboche) acabou numa entrada por cima da bola do justiceiro Alarcón em Andrade. Um lance parecido com pelo menos cinco entradas de lado a lado nos jogos anteriores. Desta vez, Cerulo foi firme. Vermelho para Alarcón. E ainda um amarelo de lambuja para Siviero, aos 26.

O Flamengo jogava seu melhor futebol nas três partidas. Nei Dias e Tita fizeram grande jogada pela direita. O Cobreloa recuara um pouco os pontas, atrasara Merello para marcar com Jiménez, e perdia o meio-campo de vez. E ainda queria perder mais gente expulsa. Puebla entrou tão duro em Adílio que ele teve de sair de maca. Mas o cartão não saiu para o ponta chileno. Quem não conseguiu entrar no campo para atender o meia flamenguista foi o médico do clube. Para impedir maiores incidentes (?!), os bancos de reservas dos dois clubes foram colocados nas cadeiras do Centenário. Para entrar no gramado, eles precisavam passar pela fiscalização que era mais rigorosa que os árbitros de então.

Dois minutos depois, Jiménez deu uma tesoura voadora em Adílio. Lance para dois cartões vermelhos, voz de prisão e declaração de guerra contra o Chile. Árbitro, desta vez, apenas chamou o capitão Merello e propôs armistício para o Cobreloa. Fosse o José Roberto Wright de Goiânia, não sobrariam em campo nem os gandulas.

Zico quase fez ainda mais história ao tentar encobrir Wirth, do meio-campo, depois de saída de bola infeliz do goleiro, aos 32. Tita, aos 35, fez um Carnaval pela direita até ser derrubado por Escobar, devidamente advertido. O estádio voltava a gritar "Mengo" quando Júnior foi derrubado com falta feia, aos 36. Mas pior fez Andrade que, na sequência, entrou para rachar Jiménez. Companheiros puseram a mão na cabeça que faltou a Andrade. Carpegiani o chamou de burro aos berros. Conta o volante:

– Zico foi atingido nas costas por Mario Soto e caiu gritando de dor. O jogo correu e Júnior recebeu entrada violenta do Jiménez. Na sobra da bola, entrei correndo e dei um pontapé na barriga dele. Exagerei. Mas é que se criou um clima de guerra muito grande. Falavam que brasileiro não ganhava Libertadores porque afinava, apanhava calado. Então a gente foi para Montevidéu disposto a ganhar na bola e na porrada.

Por mais que o Flamengo apanhasse, a ponto de começar a tirar o pé do acelerador e das divididas, uma celerada entrada como a de Andrade não se justificava nem no manual dos justiceiros. O vermelho foi merecido. E descambou a reação em cadeia, quase caso de cadeia. No minuto seguinte, Nei Dias levantou Olivera. Por tabela, quase o Flamengo leva o empate. Só não sofreu porque Júnior, em cima da linha, junto à trave direita, salvou o gol com um taquito com a parte externa do pé direito. Coisa de craque.

A torcida resolveu compensar os dez homens em campo contra dez bravos (e enfurecidos) chilenos. Os grito de "Mengo" ficaram mais fortes, e os bicos de Marinho para todos os lados foram dando o ar da falta de graça. O Cobreloa apertava. Sem Andrade, Carpegiani recuara de vez Adílio para ser uma espécie de volante pela esquerda, dando um pé a Leandro na contenção. Tita se aproximava de Zico na intermediária, e Nunes ficava no comando de ataque. Do 4-2-3-1 usual a um 4-2-2-1, com os laterais mais presos, era a aposta do treinador até Cantatore mexer no Cobreloa, ainda aos 41: sacou o zagueiro Páez, recuou Jiménez para a zaga, deslocou de vez Olivera como um volante-meia pela esquerda, ao lado de Merello, e lançou o ponta Múñoz aberto na direita, com Puebla passando a jogar para cima de Nei Dias, pela esquerda.

O 4-2-3 proposto pelo time chileno foi respondido por Carpegiani com o avanço de Adílio, para recompor a linha de três armadores, com Tita, Zico e Adílio atrás de Nunes (um pouco mais aberto à esquerda), e à frente do agora solitário (e solidário) volante Leandro. Suficiente para dar um pé aos quatro zagueiros rubro-negros que marcavam os três de frente chilenos, e capaz de, com a ajuda dos três armadores, conter a dupla de meio-campistas do Cobreloa. Na prática, o Flamengo tinha um a mais na intermediária. Onde poderia controlar melhor a bola e o jogo. Aposta mais que válida de Carpegiani.

SEGUNDO TEMPO

O vestiário pareceu ter acalmado os ânimos. Júnior lembra o clima:

– O Andrade já nos recebeu no intervalo pedindo desculpas. Ele sabia que tinha vacilado pela expulsão. Aí entrou a importância do Domingos Bosco [supervisor de futebol], do Carpegiani para acalmar os ânimos. O que nos surpreendeu é que o Andrade era tranquilo. Dava suas porradinhas, mas na manha.

Melhor para o Flamengo, que seguia firme na defesa, com atuação impecável de Mozer, pelo alto e por baixo. O toque de bola rubro-negra já não era tão eficiente e suficiente. Aos 17, quando Zico e Soto dividiram uma bola como se não houvesse amanhã e nem mais humanidade, a partida voltava a descambar. Melhor para o Flamengo é que o Cobreloa também parecia desgastado e, como de hábito, sem grandes ideias e ideais. Diferentemente de Zico, que desarmava Puebla na cobertura a Nei Dias, como se fosse um mero volante, e não o Zico que exemplificava a luta flamenguista nos minutos que faltavam para conquistar a América.

Tita era um coadjuvante de classe. Ajudava a colocar o Flamengo na frente. Zico quase acabou com a decisão aos 19 minutos, mandando de longe uma bola que bateu na trave direita de Wirth. Respondida no minuto seguinte pelo Cobreloa, numa rara falha de Mozer, que Olivera, sozinho dentro da área, mandou para fora, também pela excelente saída da meta de Raul.

Aos 27, Zico passou por três e parou nos pés de Wirth. O Cobreloa não conseguia fazer o mesmo. Agora era Leandro que jogava por Andrade e pelos outros nove, limpando a área com o brilho usual. Toque de classe que faltou a Nunes, aos 28, quando espetacularmente furou a bola, depois de lance de Zico. O gramado o prejudicou. Também por isso Carpegiani começou a preparar o substituto Anselmo. Enquanto o atacante se aquecia, Tita fez lançamento espetacular para Adílio, na esquerda. Antes, porém, o goleiro Wirth interceptou a bola com a mão, fora da área. À época, não era cartão vermelho. Mas, daquela posição, era sinal amarelo para o bom arqueiro chileno.

Mais ou menos dali, em janeiro, naquela meta, Zico fizera um golaço contra a Alemanha, naqueles 4 a 1 do Brasil de Telê. Mais ou menos dali, desde 1971, Zico entrara para a história várias vezes em cobranças cirúrgicas de falta. Algo que o Cobreloa fez em todas as três partidas e em toda a Libertadores. Algo que Carpegiani bem sabia e contava com isso.

32min25s. Zico. 2 a 0 Flamengo

Quando enfim conseguiu organizar a barreira, o árbitro uruguaio apitou. Um instante antes, Zico, com a antevisão do craque, para não dizer com a categoria de quem sabe a hora, já corria em direção a bola. Ele só bateu na bola depois do apito. O genial é ter corrido antes. Até nisso surpreendendo o Cobreloa. Como se houvesse surpresa numa cobrança de falta precisa de Zico. Como se o mundo rubro-negro não esperasse mais um desfecho previsível para aquele craque e para aquele timaço. Tudo parecia tão pronto e preparado que até Tita estava ajeitando as meias, Júnior andava de costas para a meta chilena.

"Não corri antes do apito, não. Mas eu estava sempre esperto, de olho no árbitro, para também nisso surpreender o goleiro. Quanto mais rápido a gente bater na bola, melhor. Senti que o juiz iria apitar e fui para a bola". Ela passou por sobre a barreira e foi cair no canto esquerdo de Wirth. "Já tinha batido uma falta nele, no Maracanã, e vi que ele tinha saído antes da bola. Pensei, então, em bater no canto dele, que não haveria como ele voltar se saísse antes". Bingo. Wirth só olhou o que o flamenguista já enxergava antes de Zico bater na bola. Ela, então, parecia querer fazer parte da festa. Nem ficou guardada no fundo da rede. Saiu pingando para fora da meta. Pulando como aparecia Zico pela TV, com Leandro correndo para outro lado, e os demais companheiros se abraçando, ou correndo cada um para um lado, como quase sempre acontece nos grandes gols das grandes conquistas.

Talvez até hoje ainda ecoe no Nacional o lendário e "quilométrico" grito de gol de Jorge Cury, celebrando mais um feito, o maior do craque e do Fla do coração do narrador da Rádio Globo, do "Zicão, Zicaço!" como costumava chamar o eterno camisa dez da Gávea. O menino Arthur adorava ir ao Maracanã ver o Flamengo dele e ficava atrás das metas, na arquibancada, "para ver e até ouvir a rede balançar. Era música" para os ouvidos dele. Aquele gol na partida "inesquecível" de Zico pelo Flamengo foi tudo. Para todos e para ele que pulava e corria meio de costas até ser abraçado por Júnior que, naquele afago, representava milhões que dariam a alma rubro-negra para estar ali com o Galinho, urrando "Meeeengooo" logo depois do gol do título.

Não havia mais jogo. Mas um jogador tinha ordens para entrar em campo. Ainda que não conseguisse fazê-lo. Até o passaporte de Anselmo estava sendo checado pelas autoridades. Ele não conseguia se juntar aos companheiros para a celebração final.

O Cobreloa lutava. Siviero mandou de bicicleta por cima a quinta chance chilena, aos 34. Olivera, aos 36, quase diminuiu. O torcedor que ainda enxergava algo com as lágrimas que enturvavam mais cantava que torcia. A versão brasileira da mexicana "Cielito Lindo" ecoava no Centenário, aos 39:

– Ai, ai, ai, ai/ Tá chegando a Hora / o dia já vem raiando, meu bem / eu tenho de ir embora.

"Inspirado" pelo tema mexicano, Leandro deu um sombrero num adversário e saiu jogando. Nem outro gol impressionante perdido, desta vez pela dupla Múñoz e Puebla, impedia a festa antecipada. Até porque o Flamengo contragolpeava com jogada de cinema de Tita, que mandou por cima um lance bolado por Júnior, que deu de calcanhar, fez embaixadinha com a cabeça, e saiu sambando pela esquerda com Adílio.

CABO ANSELMO

Ainda faltava a cereja queimada sobre o bolo. O repórter global Raul Quadros cantou a pedra: "Dirigentes do Flamengo pedem a Anselmo que entre em campo e dê no Mario Soto". O atacante só conseguiu entrar aos 42 minutos, no lugar de Nunes, depois de ter o passaporte (?!) conferido pelos policiais e autoridades da confederação. Levou quase 10 minutos para entrar e saiu de campo 29 segundos depois, depois de dar sem bola um soco no rosto de Mario Soto. Quem viu foi o assistente Juan Cardelino, que chamou o árbitro para expulsar o agressor.

Carpegiani, na hora, contou a estratégia: "O Mario Soto tem de levar para aprender. Coloquei meu jogador para fazer isso. Infelizmente, a nossa atitude foi tomada por causa de tudo que eles fizeram até aqui. Não gosto deste tipo de coisa, mas não estou arrependido mesmo."

Depois, banho tomado, cabeça no lugar, o treinador ajustaria o discurso, até hoje adotado:

– Faltava pouco para o jogo terminar. A bola estava na esquerda, do outro lado, com o Júnior. O Tita estava bem na nossa frente e o Soto lhe deu um soco na cara. Tive ímpetos de entrar em campo e bater também na cara dele. Eu e todo o banco. A revolta foi geral. Presidente, médico, todo mundo queria pegar o Soto. Então na mesma hora mandei o Anselmo entrar para dar o troco. Nosso preparador físico queria aquecê-lo. Falei para ele: "Não vai aquecer, não! Sai o Nunes e você entra lá, Anselmo, deixa a bola ficar do outro lado, dá no meio dele e pode sair". Ele cumpriu sua missão. Hoje, me arrependo. Sou contra a violência. Não faria isso de novo. Nunca mais fiz.

Vários jogadores do Cobreloa foram atrás de Anselmo, que deixou o gramado conduzido por policiais. Nunes também saiu para o vestiário do mesmo jeito. Enquanto isso, Mario Soto, que também revidou, foi expulso. Saindo do gramado, olhou feio para os jogadores do Flamengo que estavam no centro do gramado, rindo dele. Soto prometeu uma volta que não teve vez. Jiménez também arrumou um vermelho e foi expulso no bolo.

Ninguém no time sabia da jogada ensaiada no banco de reservas. Fala Zico:

– Ninguém em campo sabia. Foi decidido na hora. Só vi os caras correndo atrás do Anselmo. Não vi a agressão. Só sei que um dos chilenos disse que iria me arrebentar. Fui então lá para trás, falei com o Marinho e o Mozer, que fizeram uma rodinha e me protegeram. O verdadeiro macho é o cara que ganha o jogo, não o que sai na porrada. O grande erro do Anselmo foi dizer que entrou em campo só para aquilo. Isso atrapalhou a carreira dele. Por mais que todo mundo quisesse fazer aquilo no Mario Soto, não pode. Mas dava para entender. O Carpegiani estava revoltado desde o jogo em Santiago. Tanto que eu, o Raul e o Júnior fomos conversar no quarto dele, em Montevidéu, na véspera. Quando o Paulo jogava, jamais o havia visto daquela maneira.

Júnior:

– Fomos pegos de surpresa pela atitude do Anselmo. Mas ele deu um soco com a força de todos nós. Tanto não sabíamos que ninguém deu cobertura a ele. Mas foi um soco bem dado. Acabou com a carreira de pugilista do Mario Soto.

Andrade:

– Todo mundo estava irritado com o Soto. Os próprios companheiros de Cobreloa desaprovaram as atitudes dele. Aliás, tirando dois ou três que estavam mais agressivos, o time era técnico e batia pouco. Era uma boa equipe.

Depois de cinco minutos parado, o jogo recomeçou com nove rubro-negros e oito chilenos. Siviero, aos 48, quase fez o dele. Puebla, aos 50, perdeu a oitava chance chilena contra 11 brasileiras. Seria a última.

O árbitro encerrou o jogo em seguida. Em 20 segundos, o ainda vice- presidente da confederação, Nicolas Leóz, já tinha nas mãos a Taça Libertadores da América. Foi andando até o centro do gramado enquanto os remanescentes do tiroteio trocavam algumas camisas. Zico foi ao encontro dele no centro do gramado. Em menos de um minuto, a taça estava nas melhores mãos e pés. Zico a beijou e a ergueu. Era rubro-negra. Era Zico.

Aos prantos, à imprensa, o supervisor Domingos Bosco abria o bico:

– A raça brasileira é como a raça rubro-negra! É coisa de homem, de macho! Estavam humilhando a gente e demos a resposta como tinha de ser, dentro de campo.

Raul, bicampeão sul-americano, orientou a volta olímpica. Júnior amarrou a camisa rubro-negra na cabeça e correu como se não tivesse corrido todos aqueles jogos com a taça merecida. Entre tantos sem camisa, só um mantinha o uniforme impecável como sua atuação, conduta e liderança. O rei da América Arthur. Zico. O único ainda inteiramente uniformizado. O maior rubro-negro. Não era nem a segunda ou a primeira pele. Era A Pele. Era Zico. Era o campeão da Libertadores. O camisa 10 com nota dez pelos gols e pela partida. O craque do jogo, bem sucedido por Tita e pelo improvisado Leandro, notável na cabeça da área. Bem coadjuvados por Raul, Mozer, Júnior e Adílio, outros que tiveram atuações acima da média. Ou dentro da média absurda daquele time.

"A minha atuação inesquecível pelo Flamengo. Não apenas pelos gols e pelo título, mas pela vitória da arte contra a violência. Não foi apenas bom para o Flamengo e para o Brasil. Foi bom para o futebol", analisa hoje Zico. Para o jornalista Sandro Moreyra, "o clube colheu os frutos de um trabalho sério, inteligente, feito por quem sabe que para bem dirigir um time de futebol deve-se simplesmente investir no futebol". Tudo aquilo que o time sabia jogar. Mesmo quando vinha para uma guerra.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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