PUBLICIDADE
Topo

Uma vez Flamengo, duas vezes Flamengo 2 x 1 River Plate

Mauro Beting

23/11/2019 19h49

Depois de ótimos e mesmo melhores 88 minutos do River, hoje seria injusto o Flamengo dos últimos meses se perder como não se achou até o empate em Lima.

Mas pelos 8 minutos entre o primeiro gol de Gabriel e o apito final, aos 51min17s, o Flamengo foi o time que eu imaginava.

Mas nem em sonho poderia imaginar que, depois de exatos 38 anos, nesta mesma data, em 3min08s o Flamengo faria de uma derrota até então dolorida e justa uma das mais espetaculares viradas do futebol mundial. Sul-americano. Peruano. Brasileiro. Fluminense. Carioca.

Do Maracanã. Da Gávea. Da festa nas flavelas. De festa no maior número de casas no país. De raiva na maior turma do arco-íris do Brasil.

Ou melhor: de cada canto desse mundo que foi Flamengo em dezembro de 1981.

E que, em novembro de 2019, foi Flamengo como se fosse um filme.

Mas não de ficção. Que isso não se consegue criar.

O Flamengo foi algo que não consigo nomear. Ou que só o futebol consegue propiciar. O time que melhor joga não jogou tudo que sabe contra um baita rival. Mas futebol é muito mais do que isso.

E o Flamengo foi muito mais do que o futebol.

Quando a bola parou no intervalo, depois do gol de Borré, aos 13 (na trombada e indecisão entre Arão e Gerson), mais duas ótimas chegadas do River, e nada de ataque e nada do Flamengo que bem nos acostumou mal, a sensação rubro-negra foi de alívio. Poderia ter sido muito pior pelo que o campeão da América em 2018 jogou demais, pelo que o Flamengo assustado como quedas anteriores em Libertadores deixou de jogar.

Na segunda etapa, as equipes voltaram as mesmas. O time de Jorge Jesus buscou mais o ataque. Teve três chances num só lance. Mas o River era mais experiente. Entrosado. Copeiro. Melhor em campo e administrando com inteligência a vantagem merecida. Até Gallardo ir desmontando a equipe aos poucos: sacou Nacho, tirou Borré, e depois Casco. Apostou no jovem Álvarez, em um Pratto que errou tudo que fez, e não conseguiu com Díaz manter a defesa perfeita como estava.

Jorge Jesus perdeu Gerson lesionado e veio com Diego. Seria problema não tivesse tanta capacidade de decisão o 10. Mas era o River mais inteligente. Mais perigoso. Mais confiante até o excesso em que Pinola, que não perdia um lance na zaga, resolveu apoiar até uma bola se perder para a lateral. A autossuficiência millonaria parecia virar arrogância.

Mas não parecia que o placar mudaria. Porque até Filipe Luís errava passes tolos. Arrascaeta não achava o espaço pela esquerda. Bruno Henrique por dentro não tinha brecha diante da ótima atuação da zaga. Gabriel Barbosa pela direita errava quase tudo. Parecia não estar nem aí é muito menos em Lima.

Aos 40, Vitinho por Arão. Diego na cabeça da área. Quatro atacantes no meio. BH na frente. Um bumba-meu-urubu que parecia inerme.

Até que Pratto fez tudo errado. Foi desarmado por Arrascaeta que iniciou um contragolpe impensável para um time experiente a minutos do bicampeonato. Eram cinco rubro-negros contra seis portenhos. Pareciam milhões de Flamengos no Peru, no Brasil e na América.

Bruno Henrique mais uma vez achou Arrascaeta que deu a Gabriel o mais fácil de seus gols na Libertadores. Só ele sem Armani. Só ele e milhões para empurrar o empate que parecia impossível naquele momento e em quase toda decisão mais do que única. Especialíssima.

Só não era mais impossível aquele empate aos 43mi15s porque aos 46min23s, uma bola longa de Diego, com a 10 do Galo, deu no único erro de Pinola, que Gabriel Barbosa não perdoou.

Gol. Mais um de Gabigol. O segundo da virada absurda. Da derrota dolorida que o River havia sofrido para o Peñarol, em 1966, que virou o apelido "gallinas".

Até Gabriel empatar. Até Gabriel virar. O anjo do gol da boa nova. A velha história 38 anos depois.

Uma vez Flamengo, duas vezes Flamengo.

O rubro-negro normalmente não é fácil de aguentar para quem não é… Agora, depois da mais espetacular virada e vitória, melhor arrumar um lugar bem longe dele.

Como bem distante dos rivais está o Flamengo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

Blog do Mauro Beting