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Final única

Mauro Beting

24/11/2019 14h18

ESCREVE RENATO BERNARDES

Não, não estou aqui para falar se sou a favor ou contra o novo formato de decisão da maior competição do continente. Não espere dados rebuscados, números com várias casas depois da vírgula. Meu relato é passional. Aliás, é assim que aprendi a ver o futebol, esse esporte que vai muito além dos 90 minutos.

Vou pular a parte em que compro o ingresso para a decisão da Libertadores antes do jogo contra o Grêmio, ok? Um ato irresponsável contra o código de ética do torcedor supersticioso que repete sempre a mesma camisa nos estádios e sequer gritar gol antes da bola entrar.

Uma superstição perfeitamente explicável para mim, um flamenguista à beira dos 30 anos e que se agarra em qualquer coisa para tentar, quem sabe, reviver as glórias que cresceu ouvindo do meu pai. Não tenho vergonha de falar, vi muitas escalações assustadoras do Flamengo que até hoje não entendo como seguimos no seleto hall dos clubes nunca rebaixados. Não reclamo, times como esses formam caráter do torcedor.

O problema era ouvir no almoço de domingo as histórias da santíssima trindade: Andrade, Adílio e Zico e sentar no sofá para ver um time muito distante desse passado. Brincava com meu irmão que éramos filhos de uma geração utópica, uma geração que ganhou e ensinou tudo de Flamengo, mas o que sobrou para a gente?

Foi aí que apareceu 2019. Um ano tão maluco que só Jesus mesmo. O Jorge. Aquele que levou a nação à uma tão sonhada final de Libertadores da América. As escalações bizarras ficaram para trás, agora nosso time era uma máquina. Não foi só isso que mudou, meus pais mudaram. Sete anos morando fora do Brasil e

fazendo aquela força para juntarmos a família pelo menos uma vez por ano. A distância nunca foi problema para assistirmos "juntos" ao Mais Querido. Com a internet a gente dava sempre um jeito. Mas esse River Plate x Flamengo pedia algo a mais. Pedia mais que pai e filho juntos, era uma questão de: "lembra de tudo que eu te contei? Então, chegou a hora de eu te mostrar como é sentir na pele."

Santiago. Ingresso e passagem comprados. Hospedagem reservada.

Final cancelada.

Quem falou que era para ser

fácil? Problemas e mais problemas para remarcar as passagens. Meu velho desistiu. Em uma das madrugas que passamos acordados procurando passagens para Lima ele disse: "perdi o tesão, vai você que eu vou torcer daqui".

Óbvio que não terminaria assim. Zico interveio e nos ajudou. Prefiro imaginar assim. As passagens seriam remarcadas, mas tinha só um detalhe: 5 horas em Buenos Aires na ida e na volta. Sim, fomos e voltamos para Lima nos braços dos hinchas.

Sábado, 23 de novembro. Dia do jogo. Trânsito caótico na capital peruana. Depois de 2h40 dentro de um táxi, decidimos seguir a pé para o Monumental de Lima. Faltavam ainda 6km, uma maratona para alguém como meu pai, um cara que perdeu as contas de quantas vezes operou o joelho. Quer mais drama? Bom, você já sabe que o River saiu na frente.

Um calor digno do verão carioca. No intervalo tentei comprar uma água para nós. Isso é Libertadores, quem disse que tinha? Teria que ser na raça. Começa o segundo tempo. Meu pai diz: "eu não vim até aqui pra perder".

Flamengo seguiu errando

muito. Só conseguia pensar nas conversas com meu irmão. Nossa geração não nasceu para a Libertadores mesmo. 26 do 2o tempo, a nação acordou. Eu e ele gritando, torcendo, empurrando. 43 do 2o (oi, Pet. Saudades), hoje tem gol do Gabigol…

O cara que me ensinou o que é Flamengo me abraça e grita, agora aliviado: "EU NÃO VIM ATÉ AQUI PRA PERDER".

Três minutos depois. Pinola falha. Hoje tem dois gols do Gabigol.

Flamengo campeão da América.

Inesquecível.

Tudo que eu cresci ouvindo era verdade. Ser campeão da Libertadores é inexplicável. Uma história que, se vivesse para ver, teria que ser ao lado de quem me fez "nascer Flamengo", como diz a música. Não poderia ter outro cenário.

Estou escrevendo esse texto enquanto esperamos a última parte da viagem. Estamos em Buenos Aires, revendo o jogo na sala de embarque e

relembrando cada momento.

Banho? O último foi sexta. São quase 23h entre voos e aeroportos pela América do Sul. Infelizmente, pelo menos até amanhã, essa maldição do cheirinho continua. Mas não posso reclamar.

Foi mágico. Monumental. A glória eterna. Uma final ÚNICA de pai para filho.

ESCREVEU RENATO BERNARDES.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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