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Os meninos e seus pais

Mauro Beting

27/11/2019 08h09

O amor que levou mais de milhão às ruas do Rio entre a reconquista da América e a redescoberta do Brasil (pelo português que em se jogando dá) é o mesmo que leva todos os meninos a não só sonharem com essas conquistas que parecem delírios. Mas a pertencerem a essa massa do único jeito possível. Jogando com o manto. Vestindo essa segunda pele. Sendo rubro-negros de alma e de profissão.

Jogando bola. Não é preciso nem jogar tanta bola como Zico, Júnior, Leandro, Tita, Adílio, Andrade, Mozer, Nunes. Todos rubro-negros de 1981-82. O melhor Flamengo que vi. Minto. O melhor time que vi no Brasil. Não é mito. É fato. É Zico. Todos eles com berço no clube.

É necessário jogar como brotaram esses talentos na terra da Gávea. Hoje no Ninho do Urubu.

Meninos que sonharam como Christian, goleiro de seleção Sub-15, e seu reserva catarinense Bernardo. Samuel, lateral-direito, veio da Baixada, de São João de Meriti. Arthur, zagueiro, com nome de Zico que veio do interior do Rio como Leandro, e seu companheiro de retaguarda Pablo, primo de Werley do Vasco. O volante Jorge, mineiro como o cabeça de craque Andrade multicampeão de campo e banco, justo da mesma cidade (Além Paraíba) de onde veio Cantarele, goleiro reserva daquele timaço dos 70-80. Rykelmo também é volante. O nome inspirado no craque argentino Riquelme. Os atacantes Vítor, catarinense como o Lico de 1981, e Athila, sergipano como Nunes, o João Danado do Japão de 1981, goleador da mesma escolinha do torcedor rubro-negro Diego Costa, em Lagarto. Gedson é outro bom atacante. Natural de Itararé. Cidade famosa pela batalha que não houve na Revolução de 1930. Aquela que se esperava muito. E não aconteceu.

Como os sonhos deles todos perdidos em fevereiro no Ninho que é tanto referência como tristeza. Tanto investimento como despreparo. Tanto acaso quanto descaso.

O Flamengo de 2019 ganhou tudo em campo. Merecidamente. Dando show e dando aula.

O Flamengo precisa desde 2019 dar mais do que amparo aos pais que não puderam ver seus filhos com o manto. Que não podem mais ver seus filhos.

Os prêmios pelas conquistas também precisam ser dados às famílias que perderam tudo.

Não tem preço. Tem valor. Não é na Justiça. É pelo justo que não se mede.

Não sei quanto deve ser destinado a quem perdeu até o destino. Mas algo a mais o Flamengo precisa dar.

Nem precisa falar. Só fazer.

Sobre o Autor

Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 17 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 28 anos por ser torcedor há 52. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério

Sobre o Blog

O blog fala, vê, ouve, conta, canta, comenta, corneta, critica, sorri, chora, come, bebe, sofre, sua e vive o nosso futebol. Quem vive de passado é quem tem história para contar. Ele tem a pretensão de dar reload no que ouvi e li e vi e fazer a tabelinha entre passado e presente para dar um toque no futuro.

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